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Como lidar com a falta de dinheiro em época de quarentena nas periferias? Veja dicas

Priorizar alimentos e cortar gastos excessivos são importantes para saúde financeira durante período de isolamento

A estagiária Luane Albuquerque, 23, se considera uma pessoa bem desorganizada com as finanças pessoais. Moradora de Osasco, na Grande São Paulo, ela diz que tem dívidas na faculdade em que estuda, no antigo cursinho pré vestibular. Além disso, seu ‘nome está sujo’.

Apesar de não ter perdido o emprego nos últimos dias devido a crise da Covid-19, ela admite a importância do planejamento financeiro para organizar as contas. “Estou preocupada com meu futuro, e com a crise não sei se a empresa vai ter condições para me efetivar”, comenta.

Luane diz que depois de acumular alguns gastos excessivos, começou a criar uma planilha para organização. “Sempre me preocupei com dinheiro, mas era mais coisa imaginária. Aí no fim do ano passado, coloquei uma meta de reduzir gastos. Tenho planilha para me ajudar”.  

Para o educador financeiro Murilo Nascimento Duarte, 25, o caminho escolhido por Luane para lidar com o dinheiro é uma das principais orientações a quem deseja ser mais organizado nas finanças. 

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“É importante uma planilha de organização financeira, com todas as contas, desde a parte de recebimento salarial, benefícios, as dívidas fixas e as variáveis”, indica. 

Murilo é um dos três jovens, moradores do Jardim João XXIII, na periferia da zona oeste, que criaram o canal Favelado Investidor para mostrar às pessoas como melhorar as finanças e investir dinheiro. Desde o início do ano passado, ele e os amigos usam as redes sociais para orientar as pessoas interessadas nos temas. 

Em São Paulo, a quarentena começou em 24 de março, quando o governador João Dória (PSDB) decretou que somente serviços essenciais deveriam funcionar no estado. Desde então, Murilo percebeu aumento na procura dos serviços. “Começou uma forte procura, as pessoas querem saber sobre reserva de emergência e como ganhar dinheiro neste período”.

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva e o Data Favela, divulgada em 8 de abril, mostrou que quase 60% dos moradores das favelas não tinham renda para se manter por mais uma semana de quarentena. Os dados apontaram que, sem auxílio do governo e sem trabalho, a falta de alimento também era uma preocupação. 

Murilo diz que ficar em casa também gera gastos e isso deve ser observado. Ele cita uma simulação de consumo que fez no site da Enel, empresa geradora de energia elétrica. “Se uma pessoa demora 20 minutos, por dia, ela consome R$ 100 só no chuveiro. Se cortar para 5 minutos, a economia pode ser entre 30% e 35%”, exemplifica. 

Com os clientes, ele diz que a dica é identificar os gastos excessivos, que não são prioritários, pois na fase de quarentena, priorizar a alimentação e os serviços de água e luz deve ser a preocupação para conseguir lidar bem com o período.

Murilo mora no João XXIII, na zona oeste, e dá dicas sobre como economizarArquivo Pessoal

Uma dica para fazer um bom uso doméstico é listar todos os alimentos disponíveis em casa e considerar o que é mais importante comprar no momento. 

O educador financeiro comenta que manter a renda é um dos desafios para quem mora nas periferias, já que muita gente depende do  trabalho diário para ter dinheiro. “As contas não param. Algumas empresas adiaram a cobrança, como bancos, mas não são todos também, então algumas despesas fundamentais vão chegar”. 

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RESERVA DE EMERGÊNCIA

Murilo comenta que o ideal para momentos de crise é que as pessoas considerem ter uma ‘reserva de emergência’, que é um valor a ser juntado para resolver urgências. A fórmula para descobrir de quanto deve ser a reserva depende da situação financeira das pessoas. 

Para quem é empregado registrado em carteira, o ideal é guardar o custo mensal de seis meses. Por exemplo, se o trabalhador ganha R$ 1.200 e gasta R$1.000 no mês, ele tem que juntar R$ 6.000. Já para os informais, segue o mesmo cálculo, mas o tempo aumenta para um ano, ou seja, R$ 12.000. 

Nos momentos de crise, quem não tem reserva tem que cortar gastos e complementar o seu ganho. “Vender produtos online é uma das opções. Há plataformas que oferecem comissão entre 10% e 60%. Isso sem sair de casa e sem a preocupação com entrega ao cliente, pois a empresa cuida disso”, indica.

Por outro lado, Murilo admite a dificuldade que as pessoas nas periferias enfrentam para guardar dinheiro. “Sei da dificuldade, eu mesmo, só comecei em 2015, depois de fazer um curso de contabilidade, e ainda assim, demorei dois anos para conseguir”.

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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