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Como o pagamento via Pix tem funcionado em pequenos comércios em São Paulo

Ferramenta de pagamento tem avançado em pequenos comércios, mas também enfrenta resistência em alguns estabelecimentos em meio a golpes

Moradora do Jardim São Jorge, zona oeste de São Paulo, Maísa Oliveira da Cruz, 27, é manicure desde os 15 anos e o negócio evoluiu com serviços de design de unhas – com ações mais elaboradas como o alongamento de unhas.

Nos últimos meses, o serviço teve uma mudança. O pagamento feito pelas clientes do bairro, que sempre foi em dinheiro, passou a usar uma outra ferramenta.

“Antes mesmo de dar como opção, as clientes já perguntam se aceita o Pix”, conta. “Adquiri muitas clientes, porque eu não trabalhava com maquininha de cartão. Muitas vezes ficava difícil da pessoa ficar sacando dinheiro e ter que trazer, facilitou”, explica.

Esse formato de pagamento tem se popularizado entre empreendedores e no comércio informal de periferias de São Paulo. A ferramenta ganhou até um funk, o “Faz o Pix”, do DJ Guga, que viralizou nas últimas semanas com mais de 1 milhão de acessos. 

Maisa é design de unhas na zona oeste de São Paulo | Estela Aguiar/Agência Mural

O Pix é um sistema de pagamento instantâneo, criado e lançado pelo Banco Central em novembro de 2020. A ferramenta permite transações financeiras em poucos segundos, com funcionamento diário sem restrição de horário nem mesmo de madrugada. Somente em agosto foi movimentado via Pix pouco mais de R$ 400 milhões. 

A empreendedora Suellen Dutra de Brito, 19, junto com o namorado, Yuri Gabriel de Araújo Lara, 20, resolveram iniciar no ano passado um brechó com roupas que estavam paradas em casa. O empreendimento cresceu e hoje eles possuem uma marca própria, o PerifaStyle. 

Em relação ao Pix, Suellen conta que teve receio de cadastrar as chaves do sistema financeiro  – um jeito utilizado para representar o endereço da conta, que pode ser com o CPF/CNPJ, e-mail, número de celular ou chave aleatória. 

“Sempre tivemos receio sobre novas aquisições de ferramentas do banco, nos questionamos sobre o quanto iria nos custar utilizar aquilo, e o que chamou atenção inicialmente foi o zero custo da utilização”, justifica.

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No ramo da confeitaria, a empreendedora Larissa Frazato da Silva, 21, residente do Jardim João XXIII, zona oeste de São Paulo e dona do Lariê Brigaderia, afirma que no começo da divulgação do Pix, teve dúvidas sobre a ferramenta. 

“Quando surgiu, eu não entendi muito bem, mas melhorou muito porque as transferências caem na hora e é tudo muito rápido. Os clientes pagam e a gente recebe na hora”, lembra. 

Com o negócio aberto desde 2020, a confeiteira faz bolos e brigadeiro de pronta-entrega e sob encomenda. 

Algumas das grandes varejistas implementaram a ferramenta como forma de pagamento, mas em alguns comércios de bairro, a situação ainda é vista com cautela.

Em uma das ruas mais movimentadas do Jardim Arpoador, zona oeste de São Paulo, a loja Anabel Cosméticos, que está no bairro desde 2019, implementou o Pix logo no início, mas ainda é pouco difundido entre os clientes. 

“Por dia, mais ou menos de dois a três clientes [usam o Pix].  Acredito que seja porque ainda está se adaptando”, comenta Anderson, gerente da loja. “Percebo que quando a pessoa vai pagar no Pix, geralmente é quando ela esquece um cartão”, completa. 

Larissa mantém uma brigaderia | Arquivo Pessoal

SEGURANÇA DO PIX E GOLPES

O aumento do uso desse dispositivo também tem causado preocupação com relação a segurança. Devido ao grande número de ocorrências relacionadas ao sistema, o Procon-SP esteve com representantes do Banco Central para discutir sobre o sistema de segurança da ferramenta. 

O órgão de Defesa do Consumidor quer que o BC avalie o valor máximo utilizado pela maioria dos usuários e limite as movimentações a R$ 500 até que os mecanismos de segurança sejam suficientes.

Por enquanto, o Banco Central anunciou um limite de transação de até R$ 1 mil feito pelo Pix ou por outros meios de pagamentos dentro do horário das 20h às 06h. A medida passa a valer em 4 de outubro.

Outra ação anunciada nesta quarta-feira (29) é o bloqueio que os bancos poderão fazer em operações financeiras por até 72 horas caso ocorra suspeita de fraude. O mecanismo entrará em vigor a partir do dia 16 de novembro.

“Um dos principais fatores, que aumentam os riscos de uso do Pix, é a sua disponibilidade 24 horas e o caráter instantâneo das transações, que dificultam o ressarcimento em casos de fraudes”, avalia o especialista em proteção de dados e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Fabrício Bertini Pasquot. 

No entanto, ele aponta que as fraudes não estão relacionadas com o sistema em si. “A maioria dos golpes e riscos estão atrelados a vulnerabilidades envolvendo o próprio usuário”, afirma. 

Ele diz que um dos principais riscos é o compartilhamento de dados confidenciais pelos próprios usuários ou quando são feitos pagamentos por quem se passa por outra pessoa.

“Um golpe bastante utilizado pelos criminosos é o uso de QR Codes fraudulentos, que faz com que usuários transfiram dinheiro para a conta do criminoso”, diz. 

Outra ação é quando há invasão de aplicativos de mensagens instantâneas. “Ocorre com o Whatsapp, fazendo com o criminoso tenha o controle do aplicativo e peça dinheiro por mensagens aos contatos, mas aqui, não há nenhuma vulnerabilidade atrelada à tecnologia em si”, ressalta. 

Quanto ao Procon, a solução trazida paliativa de um lado de tentar reduzir os casos de fraudes e não soluciona os problemas. Ele também comenta que a medida acaba por prejudicar pequenos negócios e empreendedores. “A medida inviabiliza as transações de pequenas e médias empresas, que são a maior gama de usuários do Pix.”

MUDANÇAS

Em comunicado, o Banco Central informou que no dia 29 de novembro estarão disponíveis o Pix Saque e o Pix Troco.

O Pix Saque permitirá que todos os clientes de qualquer participante do Pix realizem um saque em um dos pontos que ofereça o serviço, como estabelecimentos comerciais, redes de caixas eletrônicos (ATMs) compartilhados e os próprios participantes do Pix, por meio de seus ATMs próprios poderão ofertar o serviço.

Para ter acesso aos recursos em espécie, basta que o cliente faça um Pix para o agente de saque, em dinâmica similar a de um Pix normal, a partir da leitura de um QR Code mostrado ao cliente ou a partir do aplicativo do prestador do serviço.    

No caso do Pix Troco, a dinâmica é idêntica, com a diferença que ao transferir o dinheiro para o estabelecimento ou agente de saque, o usuário recebe o troco em espécie.  O extrato do cliente evidenciará o valor correspondente ao saque e o valor correspondente à compra.

Segundo o Banco Central, para o comércio que disponibilizar o serviço, as operações do Pix Saque e do Pix Troco representarão um recebimento de uma tarifa que pode variar de R$ 0,25 a R$ 0,95. 

Estela Aguiar

Jornalista em formação, correspondente do Jardim João XXIII desde 2019. É fiel à crença de que da ponte pra cá, o jornalismo é revolucionário.

João XXIII, São Paulo

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