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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Jessica Silva

Notícia

Publicado em 21.02.2022 | 17:06 | Alterado em 22.02.2022 | 22:24

Tempo de leitura: 4 min(s)

Era o final dos anos 1980, quando José Afonso, o Zé Baiano, levou a filha, Gislaine, para participar da congada de Santa Efigênia, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. A menina, apesar dos 9 anos, queria ficar ao lado dos dançantes e seguia o pai que era o capitão daquele evento. Foi quando Zé Baiano foi ao microfone.

“No dia que eu não estiver aqui na terra, tenho certeza que quem vai carregar é essa menina aqui. Ela vai carregar esse bastão e vai levar meu nome e o nome da congada”, disse.

Os anos passaram e Gislaine Donizete Afonso, 43, se tornou a mestre Laine, considerada a primeira mulher a comandar uma congada no estado de São Paulo.

A congada é uma tradição afro-brasileira vinda desde a escravidão, na qual é feita uma representação da coroação de um rei ou rainha do Congo. De origem africana, a congada envolve cantos, dança e espiritualidade. Geralmente é realizada no mês de abril, quando se celebra São Benedito, ou na Festa do Divino.

Cortejo na Festa do Divino de Mogi das Cruzes em 2015 @Jessica Silva/Agência Mural

Cortejo na Festa do Divino de Mogi das Cruzes em 2015 @Jessica Silva/Agência Mural

“Ela conta a nossa luta, a história dos negros. É uma forma da gente reconhecer que antigamente os negros sofreram e a gente tem que honrar muito a nossa força, a nossa fé e a nossa devoção”, explica.

Em Mogi das Cruzes, atualmente existem quatro grupos tradicionais de congada: a Congada Nossa Senhora do Rosário, a de São Benedito, a do Batalhão Nossa Senhora de Aparecida e a de Santa Ifigênia, liderada pela capitã Gislaine.

De forma sincrética, os grupos misturam a cultura africana e católica por meio de cortejos com danças, músicas percussivas e coreografias. “As músicas que a gente canta são em forma de orações. A gente canta, louvando todos os santos e usamos os nossos ritmos.”

Há também trajes especiais. “A gente usa um quepe [chapéu] bordado à mão, com fitas coloridas, para dar um balanço durante a dança”, explica a mestre.

Muitas pessoas a conectam a algo carnavalesco, mas, no passado, a congada sofreu preconceitos. A manifestação cultural chegou a ser impedida de entrar no santuário no centro mogiano. Hoje, felizmente, a celebração é reconhecida na cidade.

“A congada tem um envolvimento com o espiritismo também, não é à toa que o Congo veio da África. A gente tem o preto velho, o marinheiro. Mas a congada faz parte do catolicismo da igreja católica onde a gente sai para cortejar com muito amor, fé, devoção”, relata.

Tradição familiar

A tradição de pertencimento na congada dentro da família de Gislaine começou em Minas Gerais. O pai dela, José Afonso, morava em Santana dos Montes (MG), onde o avô participava. “Meu pai começou a dançar com quatro anos de idade. E aí do avô, passou para o pai do meu pai, para mim, e assim por diante”, conta.

José Afonso veio para Mogi com 18 anos e conseguiu um emprego em uma mineração, onde conheceu outros mestres que também eram mineiros. Foi então que decidiu resgatar o grupo e a tradição familiar, ainda em 1984. “Com o primeiro salário, ele comprou os instrumentos para a congada.”

Mulheres na congada durante a Festa do Divino @Jessica Silva/Agência Mural

Gislaine conta que antigamente as mulheres não podiam participar da congada, somente a rainha que segura a bandeira de Santa Efigênia ou a rainha conga. Mas José a levava para os encontros desde os oito anos. A menina tinha que se vestir com trajes ditos masculinos, roupas da congada que lembram a vestimenta de marinheiros.

“Quebrei esse tabu de que mulher não pode estar no meio de um grupo de congada”, diz, apesar de admitir que nem sempre foi fácil ser aceita como capitã de uma ação que tem mais de 40 homens mais velhos do que ela.

“Minha mãe me deu o bastão que era do meu pai, com tem 187 anos de tradição familiar”

E então o reconhecimento veio. Ela já viajou por diversas vezes com o grupo e ganhou vários prêmios e troféus que estão guardados em um cômodo no quintal de casa, construído por José Afonso.

O pai de Gislene morreu em 1999. Dos ensinamentos que ele deixou, ela destaca a humildade e o respeito. Para comandar uma congada é preciso saber o momento certo de entrar, sair, rezar e cantar.

“Meu pai nunca chegou e sentou comigo para explicar como funcionava, sempre fui um ‘carrapatinho’, onde ele ia eu estava junto.”

Retrato de José Afonso, o Zé Baiano, pai de Gislaine @Jessica Silva/Agência Mural

Outra característica dele era o pulo, que chegava a quase dois metros de altura. As pessoas o conheciam como “o negão do pulo alto”. “Esse pulo eu herdei. Ele fazia tudo com muito amor mesmo, às vezes brigava com minha mãe pois gastava todo o salário com instrumentos para a congada”, narra a filha.

Falta de apoio

A cidade de Mogi das Cruzes é conhecida pela tradicional Festa do Divino, uma das mais antigas manifestações populares de religiosidade católica na região do Alto Tietê. Há apresentações de conteúdo folclórico local e congadas.

Segundo Gislaine, apesar da forte presença de congadas na cidade, os grupos muitas vezes não recebem apoio financeiro.

“Somos incluídos em eventos culturais, mas muitas vezes vamos viajar para fora da cidade, levando o nome de Mogi, mas não recebemos apoio”

Mestre Laine também participa da diretoria da Casa do Congado em Mogi das Cruzes @Jessica Silva/Agência Mural

Além das apresentações com o grupo de congada, mestre Laine participa da diretoria da Casa do Congado em Mogi e também realiza projetos e palestras com oficinas de dança e música para apresentar a congada ao público.

“A gente não tem recurso todo mês, o recurso que a gente tem é cada um tirando do bolso, né? Pra fazer um uniforme, pra comprar um tênis”, desabafa.

Gislaine vive com o marido e três filhos no quintal que abriga a sede da congada. Ali eles realizam os ensaios e se encontram. A renda dela vem do trabalho do marido, que é pintor, de benefícios do Bolsa Família.

Por outro lado, Gislaine comemora que muitos grupos de congadas hoje são liderados por mulheres. E a filha mais velha dela, de 24 anos, já segue os passos da mãe. “Ela se tornou uma contramestre e comanda o grupo se eu não estiver.”

Jessica Silva

Jornalista formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, Pedagogia e Mestra em Educação pela PUC-SP. Ama fotografias, séries, filmes e não vive sem Netflix. Correspondente de Mogi das Cruzes desde 2013.

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