APOIE A AGÊNCIA MURAL

Colabore com o nosso jornalismo independente feito pelas e para as periferias.

DOE MENSALMENTE PELO CATARSE

OU

MANDE UM PIX qrcode

Escaneie o qr code ou use a Chave pix:

30.200.721/0001-06

Agência de Jornalismo das periferias
Sobre-Viver

Construção de elevatória de esgoto na beira da lagoa do Abaeté revolta moradores e ambientalistas

Mesmo durante a pandemia foram realizadas oito manifestações nas ruas e um abaixo-assinado que reuniu 15 mil assinaturas contra obra

Image

Por: Gabrielle Guido

Notícia

Publicado em 26.03.2021 | 14:23 | Alterado em 23.11.2021 | 19:14

Image

Protesto do coletivo Abaeté Viva contra obra de estação elevatória na beira da lagoa @Divulgação

A construção de uma elevatória de esgoto na beira da lagoa do Abaeté, em Itapuã, desde 2019, tem causado polêmicas e protestos. Localizada no Parque Metropolitano do Abaeté, um dos pontos turísticos de Salvador, a lagoa escura rodeada de dunas brancas faz parte da intimidade do bairro como ponto de encontro e de manifestações culturais. A obra preocupa a comunidade local que não se sentiu ouvida pelo governo do estado.

Miguel Accioly, 54, professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, representa a universidade no conselho da Área de Preservação Ambiental do Abaeté e afirma que foram surpreendidos com a construção. “Chegamos na reunião do conselho e o ponto de pauta era a obra da elevatória que já estava em andamento, nós não fomos consultados”.

Especialistas, engenheiros ambientais, arquitetos e biólogos se reuniram e apresentaram à Sedur (Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado), responsável pela obra, formas alternativas de solucionar o problema. A região é considerada uma APA (Área de Preservação Ambiental) desde 1987, tem cerca de 1.800 hectares e conta com a Casa da Música, Mirante e Casa das Lavadeiras.

Image

Elevatória de esgoto no Abaeté @Gabrielle Guido/Agência Mural

Para o conselho, existem opções mais baratas, menos impactantes visual e ambientalmente e com melhor manutenção para a área, como a coleta por gravidade. “Foi apresentado um projeto assinado com a Anotação de Responsabilidade Técnica [ART] da obra de engenharia para ligar por gravidade, com tabela de preço calculada de acordo com a tabela oficial da Embasa”, diz Accioly.

De acordo o conselheiro, o projeto foi entregue e o Conselho Estadual do Meio Ambiente recomendou a imediata suspensão da obra, para que a Sedur dialogasse com os conselheiros e com a sociedade civil para avaliar se essa era a melhor solução, o que não aconteceu.

VEJA TAMBÉM
Artista indigenista promove rede de negócios femininos em Itapuã
Comunidades quilombolas reclamam de poluição no Porto de Aratu

A obra, conduzida pelo governo estadual, custou mais de R$ 456 mil e parte da comunidade também se manifestou contra a construção. Fabíola Campos, 45, fotógrafa, carioca, mora em Itapuã há 6 anos e com seu marido realizava uma série de trabalhos voluntários na Casa da Música. Eles estranharam a movimentação diferente na região.

“A gente começou a perguntar porque estavam demarcando tantas coisas ali naquela área, justamente onde a gente utilizava para fazer as atividades. De tanto cutucar, perguntar, a gente descobriu que era a obra da estação elevatória de esgoto”.

Image

Moradores locais pescando na Lagoa do Abaeté @Gabrielle Guido/Agência Mural

Líderes comunitários, ambientalistas e outros integrantes da sociedade civil se organizaram para ampliar o debate através das redes sociais e criaram o coletivo Abaeté Viva em julho de 2020, em meio a pandemia.

Com o objetivo de trazer a público os acontecimentos e participar efetivamente das decisões do bairro, o grupo participou de audiências públicas e reuniões com a Sedur. “Nós fizemos uma série de perguntas: não poderia ser feita de outra forma? Tinha que ser ali mesmo? A gente entende que é preciso ter saneamento, claro, ninguém é contra saneamento, mas também precisamos preservar a região˜, afirma Fabíola.

Mesmo durante a pandemia foram realizadas oito manifestações nas ruas e um abaixo-assinado que reuniu 15 mil assinaturas contra o obra.

O Parque Metropolitano do Abaeté é um dos últimos sistemas de dunas, lagoas e restingas ainda conservadas em Salvador. E além dos impactos citados, o conselheiro Accioly destaca que a lagoa está sendo contaminada, mas que não foram tomadas providências.

< >

No Abaeté, a elevatória foi construída aproximadamente a 10 metros da lagoa e ao lado da Casa da Música @Gabrielle Guido/Agência Mural

Elevatória na praça Nossa Senhora da Luz, no bairro Pituba @Arquivo Miguel Accioly

Elevatória na praça Nossa Senhora da Luz, no bairro Pituba @Arquivo Miguel Accioly

Elevatória na orla de Cachoeira- BA. Totalmente subterrânea @Arquivo Miguel Accioly

Elevatória junto ao centro de convenções, na Boca do Rio @Arquivo Miguel Accioly

Protesto do Abaeté Viva @Divulgação

Manifestações ocorreram durante pandemia @Divulgação

Mirante do Parque do Abaeté que está tomado pela vegetação e sem manutenção @Gabrielle Guido/Agência Mural

“O conselho queria explicações [sobre as obras da elevatória], não teve essas explicações, nunca deliberou se concorda ou discorda de investir esse dinheiro numa área especialmente protegida. Provavelmente se houvesse essa consulta, o conselho diria: olha, em termos de esgoto é mais urgente tirar o que está a céu aberto e escoando para a lagoa”, pondera Accioly.

A obra, que chegou a ser interrompida momentaneamente por conta dos protestos, já está em estágio avançado e arquitetonicamente entra em contraste com as elevatórias construídas em outros bairros, como na Pituba, que se mistura com a Praça Nossa Senhora da Luz, e do Costa Azul, que é um mirante e passa completamente despercebida.

No Abaeté, a elevatória foi construída aproximadamente a 10 metros da lagoa e ao lado da Casa da Música, importante ponto de cultura que recebe shows e exposições e realiza ações educativas para toda a comunidade.

Consultada, a Sedur não respondeu nossas perguntas até o prazo de fechamento desta matéria. Em texto publicado em seu site oficial afirma que “a construção foi autorizada pelo órgão licenciador, o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos), que é o responsável pela gestão do Parque Metropolitano Lagoas e Dunas do Abaeté e reconhece a eficácia dessa nova forma de operação em substituição ao sistema atual, que é obsoleto e pode trazer riscos para o parque nos próximos anos.” A secretaria diz ainda que parte dos moradores do bairro aprovam a obra porque ela irá resolver os vazamentos de esgoto que são constantes.

Gabrielle Guido

Correspondente do bairro de Itapuã desde 2020. É produtora cultural, fotógrafa e integrante do espaço independente online Uncool Artist. Ama um samba até de madrugada e séries engraçadas.

Republique

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.

Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.

Envie uma mensagem para [email protected]

Reportar erro

Quer informar a nossa redação sobre algum erro nesta matéria? Preencha o formulário abaixo.