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Em Cotia, bairros na periferia da cidade são os mais afetados por Covid-19

Um dos exemplos é o Morro do Macaco, uma das regiões mais populosas do município
Em Cotia, Morro do Macaco é uma das favelas que ainda buscam apoioMarcos Batata/Arquivo Pessoal

Moradores da região do Morro do Macaco e do bairro do Atalaia, em Cotia, na Grande São Paulo, são os mais afetados pelo novo coronavírus. É o que indicam dados das UBs (Unidades Básicas de Saúde) levantados pela Vigilância Epidemiológica da prefeitura, a pedido da Agência Mural.

Até o dia 20 de agosto, 38,85% dos casos da cidade haviam sido registrados nas unidades dessas duas regiões. Todas as 26 UBS registraram casos de Covid-19 e apenas uma delas não teve vítimas – a unidade Cachoeira, no distrito de Caucaia do Alto. 

A gestão diz que não é possível precisar a residência dos moradores, mas que o levantamento leva em conta as unidades onde constam os registros dos pacientes. 

A maioria das vítimas por Covid-19 foi registrada no Morro do Macaco, área periférica populosa de Cotia. Ali, os moradores são atendidos nas UBS do Portão, Turiguara e Jardim Coimbra. As três unidades concentram 42 mortes até 20 de agosto. Nesse dia, a cidade tinha 170 vítimas.  

Região Confirmados Óbitos Confirmados Confirmados e Óbitos
UBS JD JAPÃO 80 1 81
UBS ÁGUA ESPRAIADA 58 2 60
UBS JD DAS OLIVEIRAS 102 10 112
UBS CAUCAIA DO ALTO 358 19 377
UBS CACHOEIRA 10 0 10
UBS MENDES 17 2 19
UBS CAPUTERA 21 1 22
UBS MORRO GRANDE 22 2 24
UBS JD SANDRA 79 5 84
UBS JD SÃO MIGUEL 77 2 79
UBS JD PETRÓPOLIS 162 3 165
UBS ARCO IRIS 146 3 149
UBS MIRANTE DA MATA 129 7 136
UBS ATALAIA 766 20 786
UBS MIGUEL MIRIZOLA 266 9 275
UBS PQ TURIGUARA 157 10 167
UBS JD COIMBRA 84 5 89
UBS PORTÃO 450 27 477
UBS RIO COTIA 195 4 199
UBS PQ ALEXANDRE 77 2 79
UBS JD SÃO VICENTE 123 5 128
UBS PQ SÃO GEORGE 67 4 71
UBS ASSA 104 7 111
UBS JD DO ENGENHO 101 8 109
UBS RECANTO SUAVE 124 8 132
UBS SANTA ÂNGELA 74 4 78
Total registrado com Endereço Completo 3849 170 4019
Dados retirados da lista da VE de 20/08/2020

“Não é a toa que Portão e Turiguara estão cheios de festinhas que vejo a galera postando […] sexta, sábado e domingo”, diz a assistente de administrativo e financeiro Silvia Barbosa Rosa, 20, moradora da região.

“Eu mesma não sabia dessa concentração de mortes no Portão, então acredito que muitas pessoas de ambos os bairros não estão cientes e achando que é algo muito pequeno, que não está tendo impacto real.”

Silvia mostra receios com a situação de reabertura do comércio. “É uma irresponsabilidade enorme. Além das pessoas terem o pensamento que está tudo bem, ainda vão expor os trabalhadores”.

Apesar da sensação, a Grande São Paulo ainda tem registrado cerca de 800 mortes por Covid-19 por semana. O número é menor do que no mês de julho, quando ultrapassava as mil mortes semanais, segundo levantamento da Agência Mural

Morro do Macaco Casos Mortes
UBS PQ TURIGUARA 157 10
UBS JD COIMBRA 84 5
UBS PORTÃO 450 27
691 (17,95%) 42 (24,7%)

FASE AMARELA

No caso de Cotia, até o dia 25, a cidade somou no geral 4099 casos e 174 mortes. A cidade afirma que 3.784 pessoas se recuperaram após terem tido a doença. 

Com quase 250 mil habitantes, a cidade está na fase amarela do Plano São Paulo que permite a reabertura do comércio, de salões de beleza, bares e academia, com limitações. 

Para o fotógrafo Marcos Batata, 39, os comércios abertos também impactam nessa sensação controle da doença.

Desde o início da quarentena, Marcos ajudou moradores do Morro do Macaco e de outros bairros a se cadastrarem para o auxílio emergencial e conseguiu entregar 500 cestas básicas para suas casas. 

“Tem pessoas que eu fiz (o cadastro) em março e não conseguiram pegar até hoje. Tem pessoas que não tiveram nem a possibilidade de pegar porque não tem um celular, por exemplo, não tem um e-mail.” 

Para Marcos, essas dificuldades de obter renda mínima, alimentação e necessidade de ir trabalhar pegando ônibus e metrô lotado faz com que mais pessoas sejam contaminadas. “A gente se organiza para fazer as pessoas ficarem em casa. Esse é o papel do Estado, mas eles não estão fazendo isso e por conta disso estão fazendo mortes.”

ATALAIA

Na UBS do Atalaia, onde frequentam moradores de diferentes bairros como Jardim Atalaia, Jardim Lavapés, são mais de 766 casos confirmados.

“O que eu tenho observado é que desde o começo da pandemia o pessoal não levou muito a sério”, diz o Eder Dias de Oliveira, 40, que possui um estúdio de tatuagem há 10 anos no Atalaia. 

Desde quando foi decretado a quarentena em São Paulo, o tatuador mudou toda a rotina em casa e de trabalho para evitar a contaminação da família e com clientes. “Não deixo as portas abertas para evitar aglomeração”. 

“Não abri mais a loja normalmente mesmo com a permissão da reabertura dos comércios. Estou marcando só tattoos e piercings com horário marcado individualmente, seguindo todas as normas de segurança.”

Evitar aglomeração não foi o que ele presenciou na região onde trabalha, mesmo quando os comércios não tinham permissão para abrir.  “No Dia das Mães, o açougue estava lotado, a fila tava lá fora, todo mundo comprando carne para churrasco, sabendo que não podia estar aglomerando, sem máscara.” 

Eder também reclama dos mercados que nada fizeram para evitar a situação. “Tem um caixa ou dois trabalhando, outros todos fechados. Aí fica aquela fila imensa e o pessoal não respeita a distância de segurança.” 

“O pessoal também pensa que como reabriu o comércio, o vírus acabou”, ressalta.

“Muita gente está vivendo sua vida normalmente”, diz a operadora de loja Monique Veloso Lima, 22, moradora do Jardim Lavapés na região do Atalaia.

Para Monique, a reabertura dos comércios foi uma atitude totalmente equivocada, em que morre cada dia mais pessoas e escuta muitas frases como. “Tem que trabalhar”, “vai morrer de fome”. 

Mas ela discorda desses argumentos. “O que as pessoas tem que entender é que em relação a pobreza, não é hoje que isso acontece. Isso já é um problema de muitos anos no Brasil.” 

“Se a gente está no meio de uma pandemia, que precisa deixar o máximo de comércios fechados para amenizar, é o governo que tem que estabilizar as famílias.”

*Texto alterado em 28 de agosto, às 21h18. Ao contrário do publicado inicialmente, o Parque Bahia não faz parte do Atalaia. 

Halitane Rocha

Jornalista, correspondente de Cotia desde 2018. Coordenadora do Cursinho Popular Dandara dos Palmares e produtora do Sarau na Praça, ambos em Cotia. Apaixonada pela cultura de rua, leitura, e descobrir novos lugares. Sagitariana nata.

Cotia

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