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Curados da Covid-19 contam sobre a doença e pedem isolamento físico

Moradores da periferia e da Grande São Paulo contam como foi o processo de tratamento e alertam sobre riscos da doença causada pelo novo coronavírus

Na última semana de março, o pastor Paulo de Faria Filho, 60, morador de Pirituba, na zona norte de São Paulo, começou a tossir bastante. Para ele, parecia uma tosse comum. Só parecia. Depois veio a febre. 

Quando checou a saturação do oxigênio (ele consegue medir em casa, pois tem o aparelho), percebeu que estava mais baixa. Foi até o hospital, onde as radiografias apontaram pneumonia. O teste para Covid-19 também deu positivo.

O pastor ficou internado por 12 dias. “Desde que os sintomas apareceram, eu comecei a levar muito a sério”, diz. Além da idade, diabetes, uma doença neurológica e cirrose hepática não alcoólica o colocam num grupo de risco. Apesar disso, o quadro foi estável e o corpo respondeu bem ao tratamento, sem complicações. 

Faria faz parte dos pacientes infectados pelo novo coronavírus na Grande São Paulo que se recuperaram da doença. 

Um levantamento da Agência Mural, feito a partir dos dados divulgados pelas prefeituras, até o dia 19 de abril, mostra que 8.600 pessoas se recuperaram da doença e tiveram alta hospitalar. O número pode ser maior, porque a prefeitura da capital informou apenas os números dos hospitais de campanha, onde 2.421 deixaram a unidade. 

No entanto, as unidades de saúde seguem com a capacidade quase esgotada. São mais de 56 mil casos na região metropolitana. Para o líder religioso, ainda falta conscientização das pessoas sobre a Covid-19. “Algumas pessoas não levam [a Covid-19] muito a sério, não acreditam que seja verdade”, diz. 

“Eu sei que é verdade porque a gente tem ouvido pessoas especializadas e estamos acompanhando o que acontece no mundo e também porque fui acometido por ela e o fim poderia ter sido diferente”, completa.

Ele lembra que no início da hospitalização é muito estranho lidar com uma ‘coisa desconhecida’ por todos, inclusive da comunidade científica. Por outro lado, relata que manter a tranquilidade, a fé e as experiências bem sucedidas com as outras enfermidades o fizeram não ter medo.

Crédito: Arquivo PessoalPaulo de Faria Filho mora em Pirituba e se recuperou da Covid-19

Enquanto Paulo estava internado, a esposa e o filho, que moram com ele, permaneceram em quarentena, em casa. Nenhum dos dois apresentaram sintomas. 

NO HOSPITAL

Crislaine Ribeiro Oliveira, 27, e Anésia de Lima, 60, são auxiliares de limpeza no Hospital Santa Maria, uma rede particular de Suzano, na Grande São Paulo. 

Com a pandemia, as duas passaram a fazer parte da relação de profissionais na linha de frente da pandemia. A contaminação do vírus foi no ambiente de trabalho. Elas apresentaram sintomas leves e se recuperaram após isolamento em casa.

Na cidade, metade dos pacientes infectados se recuperaram, segundo os números da prefeitura.

Anésia foi a primeira da equipe de limpeza a contrair o vírus. Ela, que se apresenta como ‘uma guerreira’, trabalha na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital. “Tive uma experiência muito ruim que não desejo para ninguém. Nos primeiros dias tive muito medo. Mas eu tirei de letra”, relata.

Após um enfermeiro do hospital testar positivo, todos os profissionais que tiveram contato com ele fizeram teste. Como Anésia apresentava tosse, foi orientada a realizar também. Antes do resultado ficar pronto, ficou afastada do trabalho por sete dias. Contaminada, permaneceu em isolamento em casa por mais uma semana.

Crédito: Arquivo PessoalAnésia vive na Grande SP e trabalha em hospital

“Nos primeiros dias minha garganta parecia que ia tapar, aquela tosse insuportável, dor de cabeça. Só olhei para o céu e pedi a Deus. Hoje não sinto mais nada e voltei a trabalhar após os 14 dias”, conta ela.

Em casa, ela conta que tomou muito líquido, como água de coco e suco e também passou a comer melhor, de acordo com as orientações médicas. Isso fez com que o quadro fosse melhorando. Além disso, cumpriu o isolamento à risca. “Nem no portão eu ia”. 

No entanto, Anésia comenta que um dos desafios enfrentados, foi se isolar do marido, que mora com ela. “Infelizmente a gente mora numa casa de três cômodos e um banheiro, então não tinha nem como ter aquele isolamento. Eu fiquei todo tempo de máscara, tinha minhas coisas separadas. O isolamento foi esse”, resume.

Crislaine, moradora de Mogi das Cruzes, Grande SP, passou duas semanas afastada do trabalho. No caso dela, os primeiros sintomas foram tosse, febre e dor de garganta. Também apresentou diarréia, cansaço e falta de ar leve. “Eu já ficava com medo porque lá no hospital a gente vê muitos casos graves e a gente fica apavorado”, conta. 

Assim que os sintomas apareceram, avisou a chefe e como tem convênio médico, foi atendida no mesmo hospital que trabalha. “É melhor se tratar antes do que ficar esperando piorar”, completa.

SEM COVID-19

Paulo lembra que após a alta, a saudade da família acabou e a rotina pôde voltar ao normal, porém, com os cuidados e mudanças que se tornaram necessárias para todos. 

Os encontros presenciais da igreja e ministério que o pastor representa estão suspensos desde as primeiras orientações para evitar aglomerações. As redes sociais têm sido aliadas de seu trabalho. 

Crédito: Arquivo PessoalPastor reforça importância do isolamento social para se proteger

O morador de Pirituba diz reconhecer o privilégio de acesso a um tratamento ‘rápido e eficiente’. “O desejo é que todas as pessoas do nosso país tenham acesso à saúde de maior qualidade”, comenta.

Um dos agradecimentos dele vai para os profissionais de saúde. “Queria deixar registrado a minha gratidão, não só aos que cuidaram do meu caso, mas de todo mundo. Agradeço aos profissionais de saúde. Não é só nos hospitais particulares e convênios que as pessoas estão vencendo, por conta da competência desses profissionais.”

Recuperadas e de volta às funções, Anésia e Crislaine, as duas colegas de trabalho, reforçam a importância dos cuidados necessários. Crislaine conta que vai trabalhar de carro, higieniza as mãos, usa equipamentos de proteção e troca a máscara a cada duas horas. Ao chegar em casa, separa a roupa e vai direto tomar banho. 

Aos que ainda não acreditam na gravidade da doença, ela faz um apelo.

“Quem puder, fique em casa. A gente que tem que trabalhar, tem que se cuidar. Lavar as mãos sempre que puder, usar a máscara, manter distância um do outro, é o que a gente pode fazer no momento.”, pede Crislaine, recuperada da Covid-19, em Mogi das Cruzes.

Anésia diz se sentir feliz em ser testemunha da recuperação e reforça os cuidados. “Que cada um tome precaução porque o vírus existe e tá aí. Quando ele vai embora só Deus sabe, a gente torce e pede para que ele vá logo”, comenta. “Eu ainda vou trabalhar muito. E faço meu serviço com muita honra, muita alegria e muita dedicação.”

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

Bruna Nascimento

Fotojornalista, correspondente de Suzano desde 2019. Sonhadora, observadora e ouvinte de 'causos' profissional. Corinthiana maloqueira e sofredora (graças a Deus), boa sujeita, pois gosta de samba e tal qual Candeia na voz de Cartola, precisa se encontrar e vai por aí a procurar.

Suzano

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