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Da Brasilândia, Lucas Rodrigues vai do design no rap à camisa da seleção

Criado na zona norte de São Paulo, Lucas tenta unir o design com a cultura periférica

O livro “Reservado”, de Alexandre Ribeiro, apresenta a ideia de estar numa viagem de ônibus por meio de desenhos que lembram janelas. Essa estética surgiu a partir do trabalho de Lucas Rodrigues, 26, que é nascido e criado na Brasilândia, zona norte de São Paulo, e atua há seis anos como designer gráfico. 

A relação de Lucas com a cultura periférica não está exposta apenas no livro, mas também nas várias artes que ajudou a conceber para artistas de rap como Emicida, Jé Santiago e, mais recentemente, BK. 

Para ele, a união entre o design e periferia é algo completamente natural, faz parte da maioria das referências dele e está presente desde o primeiro contato do jovem com a profissão, a partir do encontro com um amigo que tinha uma marca de streetwear, a moda das ruas, na região em que mora.

“Quando estava começando, a gente não tinha tantas referências de designers a nossa volta. Então, quando vi aquilo, o material, o conceito, aquilo estourou minha cabeça de um jeito”, afirma o designer. 

Lucas Rodrigues participou da criação do novo logo da CBF

Na época, diz que era comum a ideia de que só era possível comprar roupas de qualidade, de marca, se atravessasse a ponte. Isso mudou quando conheceu a moda da quebrada. “Virou uma chavinha na minha cabeça para entender que a gente também pode construir, criar coisas a partir dali, principalmente baseado na nossa vivência de fato”.

Lucas considera que a maior conquista foi ter concluído a faculdade. Durante essa fase, foi na “cara de pau” pedir emprego na agência do tio de um amigo, mesmo ainda não tendo um portfólio para apresentar. Foi quando começou a trabalhar como designer em uma agência que tem grandes clientes. 

Em 2019, por exemplo, Lucas fez parte da equipe que reformulou o logo da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

“A gente que é de quebrada cresce toda Copa fazendo uma festa, a gente reproduz aquele escudo na rua. Ter a oportunidade de trabalhar nisso e saber que isso vai ser reproduzido em diversos lugares, assim como eu já reproduzi, é um trabalho do qual eu me orgulho muito”, conta.

Lucas cresceu na Brasilândia e se mudou para a zona leste. Hoje, pensa em voltar a morar no bairro da zona norte

Lucas tem um quadro do escudo desenhado por ele na sala do seu apartamento na região da Penha, zona leste de São Paulo. Se mudou por questão de mobilidade, mas diz que faz questão de voltar à Brasilândia tanto para morar quanto para desenhar no asfalto, nas próximas Copas, o logo que ajudou a criar.

“Pode ter certeza que daqui um tempo, mais estruturado, eu não vou pra outro lugar, eu volto pro lugar de onde eu vim, eu acho que tudo isso é muito bonito”.

Perguntado se ele se considera uma referência em seu bairro, Lucas afirma que poucos vizinhos sabem com o que ele trabalha. Contudo, reconhece que têm uma influência em jovens de outras quebradas, que entram em contato com ele para entender como funciona o mercado de trabalho como design.

“É um mercado de fato elitista, baseado em referências que não são as nossas e a gente tem que tentar subverter isso de alguma forma”, aponta. 

“Faço questão das pessoas, dos meus colegas verem que sei de onde eu sou, sei o que vivi, me visto desse jeito, ouço música desse jeito, frequento esse tipo de lugar, e estou no mesmo lugar que vocês.” 

*Esta reportagem faz parte da série Crias da Quebrada, com a história de dez jovens das periferias de São Paulo

Patrícia Vilas Boas

Estudante de jornalismo, correspondente da Vila Curuçá desde 2019.

Vila Curuçá, São Paulo

Cléberson Santos

Jornalista, correspondente do Capão Redondo desde 2019. Trabalha com jornalismo esportivo para portais de notícias desde 2014, mas não sabe chutar uma bola.

Capão Redondo, São Paulo

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