Escritor de Diadema vende livros de mão em mão para ir à Alemanha

Uma foto da escritora negra Carolina de Jesus (autora de “Quarto de Despejo” e que viveu entre 1914-1977) e diversos discos de rap enfeitam o escritório improvisado na casa do produtor cultural Alexandre Ribeiro, 20, no bairro Canhema, em Diadema, na Grande São Paulo. Os itens decorativos são as pistas para conhecer os gostos e hábitos do jovem escritor, jornalista e militante no movimento hip hop.

Em maio deste ano, ele lançou o primeiro livro da carreira. A produção ganhou o nome de “Inflorescência” e conta com 25 poesias. Com o objetivo de levantar verba para custear parte de uma bolsa de trabalho voluntário na Alemanha, Ribeiro decidiu vender o livreto da maneira que domina: de mão em mão pelas ruas de São Paulo.

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Foi feito em um formato pequeno para eu conseguir vender na rua. Eu já tinha a experiência de fazer isso com CDs de rap. Vendi 2.000 exemplares de mão em mão desde maio. O preço é totalmente livre. Chego nas pessoas e conto o projeto. Explico que o livro tem toda a minha bagagem e que nasceu para apoiar um sonho”, disse.

“Inflorescência significa algo bem técnico, mas usei para buscar as flores que habitam em mim em meio à guerra que vivemos. O livro foi pensado com poemas para florescer. Fiz até uma curadoria para colocar os mais introspectivos”, analisou.

Além do dinheiro arrecadado com a venda dos exemplares, Ribeiro começou a campanha #DaQuebradaProMundo na plataforma Catarse – site de financiamento coletivo, também conhecido como “vaquinha” virtual. A meta era conseguir R$ 8,5 mil. O projeto superou as expectativas e chegou a cerca de R$ 10 mil no final de novembro.

Durante a viagem, vou fazer trabalho voluntário em instituições sociais, aprimorar o alemão, que atualmente estou no nível intermediário, e expandir a minha literatura”, explicou.

Ribeiro escolheu o nome inflorescência pelo ‘teor poético’ (Lucas Sampaio/Divulgação)

O ativismo sempre esteve presente na vida do jovem escritor. Com 13 anos, começou a se envolver com o movimento hip hop por meio das batalhas de MC’s. “Comecei a rimar, mas eu era muito ruim, então parei”, brinca.

Aos 17, participou da primeira ocupação contra a reorganização escolar do governo estadual, na escola estadual Diadema (antigo Cefam, no centro da cidade). O projeto causou polêmica, pois previa o fechamento de salas de aula e a transferência de estudantes para unidades mais distantes. Alunos e professores questionaram a falta de diálogo para as ações. Na época, em 2015, as manifestações barraram o projeto.

Essas e outras experiências de vida são refletidas nas poesias de Ribeiro, que misturam afeto, política e questões sociais.

Ele perdeu o pai quando tinha 11 anos. “Ele não era um leitor assíduo, mas me obrigava a ler pelo menos cinco páginas antes de dormir. Eu peguei o costume quando pivete e, depois, a leitura serviu para eu tentar resgatar algumas coisas dele. É uma memória afetiva que funciona muito para mim”, ressalta. Quando ele morreu foi um choque muito grande.”

É complicado falar de política
muitas vezes se fala, e nós nem sabemos
ex.: nas esquinas da sua casa têm três biqueiras
e a biblioteca mais próxima fica a 3km
política é escolher um livro
e fazer diferente”
Poema “Acesso”, do livro “Inflorescência”.

O PRIMEIRO ROMANCE

Além de começar o intercâmbio em agosto, Ribeiro vai lançar o primeiro romance em fevereiro. O livro, que está em processo de edição, já tem nome: “Reservado”.

A publicação vai contar a história de um menino periférico, o personagem João Victor. “É um moleque nem tão preto e nem tão branco. Faço essa brincadeira do Brasil que eu enxergo, dessas pessoas que estão no limbo de nem tão preto e nem tão branco. Vou tentar trazer um debate mais profundo”, disse.

Foi neste ano, durante uma viagem por Moçambique e pela África do Sul, que ele começou a refletir sobre o tema. “É um choque cultural bem forte. O brasileiro periférico, que tem um pouco de instrução na vida, se politiza como pessoa preta e tem um romance com essa parada de ser preto no mundo. Na África, fui chamado de branco. Foi quando caí na minha realidade”, afirmou.

Posso bater no peito e falar que sou preto em vários lugares, mas só nos lugares acadêmicos que vão falar que sou preto. Na minha quebrada os moleques falam que estou tentando ser negão. Eu tomo menos enquadro da polícia do que meus parceiros que tem a pele mais escura. É um fato e temos que entender”, explicou.

Em alguns momentos, o livro parece flertar com a própria trajetória do escritor. “João Victor é um moleque favelado, a mãe é faxineira que nem a minha, o pai falecido que nem o meu. João Victor somos nós. Ele é simples, comum, mas tem uma vida de periferia que fala com muita gente.”

Diego Brito é correspondente de Diadema
[email protected]

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Livros

 

0 thoughts on “Do rural ao urbano: a história do berço do samba paulista em Pirapora”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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