De Mc Vida a Caverinha: a história do príncipe do trap

Cantor de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, Caverinha lança primeiro clipe e é mais um a seguir o caminho musical na família

Eu não podia errar. Como quem recebe uma ordem que deve ser obedecida, tinha na cabeça que naquela manhã não podia ser desastrado com o autor de “não pisa no meu boot”. A mensagem é objetiva: você pode pisar no coração do MC Caverinha, mas ele vira o bicho se encostar no tênis.

Ali estava Kauê de Queiroz Benevides Menezes. Com 11 anos, milhares de pessoas já o viram nas redes sociais. Ele também já viu muita coisa. Ano passado, cedo, quando ele e os irmãos dormiam, a polícia acompanhada de tratores despejou a família da casa onde moravam, em Mogi das Cruzes, Grande São Paulo.

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A família foi vítima de um golpe, já que o imóvel comprado estava em uma área particular. Por semanas, a residência da tia foi o abrigo para mais oito pessoas. O episódio é a lembrança mais forte que guarda.

Hoje, moram na mesma cidade em uma casa que está sendo paga em mensalidades depois de uma negociação com a prefeitura. “Foram várias coisas. Nós fomos para casa da minha tia, depois alugamos outro lugar e, agora, viemos pra cá, está recomeçando tudo”, reflete o MC que lançou nesta quinta-feira (4) o clipe Só Não Pisa no Meu Boot, o primeiro oficial do cantor.

Imagens da casa derrubada (Julia Reis/Agência Mural)

Antes de explodir nas redes sociais, contudo, Caverinha usava outro apelido ligado aos primeiros dias de vida.

Quando foi dar à luz ao filho, Charlene Cristina de Queiroz, 38, recebeu a notícia de que ele só respiraria com a ajuda de aparelhos. “A gente perdeu ele. Ele tem até um apelido carinhoso, que é vida, porque Deus devolveu a vida dele. Ele teve pneumonia dupla”, relembra a mãe. “Pedimos pra Deus clamando muito”.

Desde os quatro anos, quando surgiu o interesse por música, o apelido continuou. O nome artístico adotado foi MC Vidinha e, na época, repetia as letras que mais ouvia, como ‘Sei que sou menor / Mas tô boladão na pista’.

Nessa época, começou a dançar com o irmão, Kaique Benevides Menezes, 19, funkeiro. O nome artístico teve mudança quando ganhou da tia uma fantasia de caveira para usar nas apresentações. Por ser muito pequeno, o apelido ficou “Caverinha”.

Em um dia de apresentação do funkeiro, o irmão mais novo subiu no palco e pediu para cantar. Kaique ficou surpreso e perguntou se ele precisava de ajuda. “Não. Dá licença, que eu me viro”, foi a resposta. Na rápida apresentação que fez, chamou a atenção do público e ganhou apoio do irmão.

MC lança primeiro clipe oficial (Julia Reis/Agência Mural)

“Que menino marrento. Começamos várias correrias. Eu levando ele pra muitos lugares e foi até que a gente fez um concurso pra entrar numa produtora, em concurso, com oito mil MCs e ele passou”, comemora.

A parceria dos dois, que já era forte, aumentou quando se juntaram para realizar o desejo de Caverinha em cantar. Desde então é Kaique quem administra os shows do irmão, leva para apresentações, ajuda nas redes sociais e na escolha das peças com que aparece para os fãs.

CHAMA NO MONEY / CHAMA NAS GATA

O primeiro vídeo do menino foi filmado em uma tarde no quintal da própria casa. Os dois estavam juntos quando Caverinha puxou a letra criada dias antes. Assim, o irmão teve a ideia de gravar para divulgar na internet. Tinha tudo, mas faltava o cenário. Foi aí que lembraram do carro do pai.

Ali, no banco de trás, um puxava os versos e na frente, com o celular, Kaique filmava. Depois disso, o destino da gravação foi um grupo no Facebook. “Pessoal, me ajude. Meu irmão tem dez anos e quer cantar trap, eu lanço ele ou não?”, assim foi a legenda criada para chamar a atenção das pessoas. Deu certo.

O vídeo dentro do Corsa teve repercussão. Os usuários começaram a compartilhar, as páginas dedicadas ao estilo de música também. Todos apostavam que ali estava o futuro do trap, estilo musical conhecido na voz de Raffa Moreira, um dos destaques atuais, além de ter sido um dos primeiros apoiadores do cantor mirim.

Poucas horas depois, quando Kaique foi olhar o resultado, seu irmão estava famoso no Twitter. A decisão tomada foi criar um perfil no Instagram para concentrar as postagens e as marcações. De janeiro deste ano ao início de abril, soma mais de 347 mil seguidores na rede, mais que a população que mora na área da subprefeitura de Guaianases, distrito da zona leste de São Paulo.

‘NUM É À TOA QUE ATÉ OS CARA HOJE É MEU FÃ’

Caverinha também coleciona fãs entre os músicos brasileiros. Entre os destaques estão os rappers Dfideliz  e o mineiro Djonga . As letras de ambos chamam a atenção do menino “porque eles são muito agressivos nas letras”, resume. A veia musical, contudo, começou antes.

Cantor de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, Caverinha segue caminho musical da família, é destaque na cena trap e lança clipe

LÁ EM CASA TODO MUNDO CANTA

Era ano de eleição. Teve um coquetel de um candidato. Ele, Rubens Benevides Menezes, 41, tinha um grupo de pagode que tocou no dia. Ela, Charlene, também apareceu. “Lá, eu comecei a olhar diferente, né?”, relembra, aos risos. “Aí eu agarrei a nega, né, e beijei”, dispara ele. Estão juntos há 20 anos.

Rubens era músico e compunha em casa, além de tocar alguns instrumentos musicais perto dos filhos. Algumas vezes Charlene arriscava cantar com o marido. O filho mais velho, Kaique, se envolveu com o funk na adolescência e chegou a abrir alguns shows nas cidades em que moraram. Foi dentro de casa que o filho conheceu a música.

Os pais compõem juntos quando um deles tem uma ideia de letra. ”A gente vai e faz junto. A gente senta, compõe, e assim que surge as letras todas. São duzentas e poucas, entre músicas do mundo e louvores”, calcula Rubens.

“Meu pai tocava com os caras famosos também, aí foi isso, veio do sangue já. Entre as composições escritas, o filho diz lembrar de um trecho. ‘Eu só tenho a agradecer por tudo o que Jesus tem feito’, recita.

Quando imagina o futuro, Caverinha diz que quer continuar cantando e dar uma casa à mãe ‘que eu sempre sonhei’, além de ver a família bem, com saúde. “Felicidade pra nós, né? É isso”.

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases
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Julia Reis é correspondente de Taboão da Serra
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