Trap: o ritmo que mistura rap, música eletrônica e virou destaque em Guarulhos

Nos anos 1990, a cena musical de Guarulhos, na Grande São Paulo, ficou conhecida graças à lendária banda Mamonas Assassinas. Duas décadas depois, o trap, estilo que se origina do rap, coloca o nome da cidade entre as playlists afora.

Nomes como Raffa Moreira (Lil Raff), Klyn, Moah, Rare Kidd, Rhyno, French Carti e Emerson Rosa têm se destacado pelo país. Só Raffa chegou a ter 13 milhões de acessos para a música “Bro“, enquanto Klyn e Mc Igu bateram os 845 mil com “França“. 

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O estilo é uma vertente do rap e nasceu em meados dos anos 2000, no sul dos Estados Unidos, em Atlanta. Ganhou popularidade em 2007 com artistas como Gucci Mane e OJ da Juiceman, ambos dos Estados Unidos.

“O trap se originou da ideia de misturar um pouco mais a música eletrônica”, explica Rodrigo Locaut, 25, produtor e trapper. Ele afirma que a cena trap de Guarulhos começou tímida. “Mas agora eu sinto que está caminhando de uma forma rápida, e cada vez tem mais pessoas cantando na cidade. Tem muito artista que carece de reconhecimento”, completa.

O gênero é considerado agressivo por retratar temas como violência, drogas, gangues e sexo. Mas também tem trazido pautas que abordam questões sobre racismo, política e desigualdade.

Uma das diferenças do estilo é o uso do IDM (Intelligent Dance Music), termo da música eletrônica que surgiu nos anos 1990, para a mistura de diversos sons rápidos, como o dance music e o techno.

Rodrigo Locaut, produtor e trapper, mora no bairro Vila Galvão (Paula Rodrigues/Agência Mural)

Além disso, há o uso de sintetizadores multidimensionais, que trazem a sensação do som estar ecoando por todos os lados. Por fim, instrumentos de corda, bumbo, sopro e teclado.

Todos os efeitos, somados em um beat (batidas por minuto), trazem um estilo mais dançante. “Gosto pela batida, algumas músicas não tem uma letra agregadora, porém, as batidas sempre são boas”, afirma João Vittor dos Santos, 21, morador do bairro dos Pimentas e um dos fundadores da batalha de rimas do bairro. 

Essa pegada mais animada, por outro lado, tornou o trap alvo de críticos na internet, que afirmam que o estilo é “gourmetizado”.

Klyn teve muita influência dos tios que escutavam rap (Paula Rodrigues/Agência Mural)

Boa parte dos trappers guarulhenses já estavam na música. Handrey Martins Fernandes, 27, mais conhecido como Klyn, começou a tocar violino na igreja. Conheceu o rap por meio dos tios – um deles, inclusive, era b-boy.

A Agência Mural preparou uma playlist especial para você ouvir e conhecer a cena de trap de Guarulhos. Confira

Quando se deu conta, Klyn já estava tocando em festas. “Não era parada planejada. Todo mundo rimava e tinha uma história pra contar. E aí a gente foi pegando as influências, estudando musicalidade. A gente viu que o que estávamos fazendo era original trap, tipo Atlanta mesmo”, diz.

Moah, além de trap também canta rock e já realizou diversas festas culturais na cidade de Guarulhos (Paula Rodrigues/Agência Mural)

Moah Buffalo, 28, amigo de longa data de Klyn, já teve algumas bandas de rock na cidade, e se identificou com o tipo de música por se tratar de um som pesado. “O Klyn começou a me mostrar artistas americanos como o Asap Rocky, entre outras coisas, e foi a porta de entrada para eu conhecer esse estilo de som”, conta.

Para Moah, o trap tem uma força também nas letras, por conta de uma geração influenciada pela liberdade na internet. “É o discurso mais potencializado, porque a gente hoje fala com mais liberdade sobre temas polêmicos”.

Igor Souza, o Rare Kidd, é um dos trappers mais novos da cidade. Com 21 anos, além de cantar, também é produtor. Começou a fazer beats assistindo tutoriais na internet e hoje cursa produção eletrônica na faculdade.   “Lancei alguns trabalhos em outubro e novembro de 2016 e comecei a aperfeiçoar meu trabalho. E hoje é isso que eu faço. Rimo e produzo”, conta.

Rare Kidd, que também projeta sua carreira como produtor (Paula Rodrigues/Agência Mural)

A música não tem uma barreira e na arte é possível fazer o que quiser, segundo Rare Kidd. Em suas músicas, ele explica que tenta passar sua realidade, além dos sentimentos que tem.

“Tem muita gente que se identifica por passar pelas mesmas coisas. Eu tento representar as pessoas falando coisas que elas às vezes sentem mas não sabem como expressar, ou mesmo me divertindo. Pra mim música é sentimento”.

A fotógrafa Thalita Silva, 30, moradora do Jardim São Domingos, é fã da vertente. Ela explica que se identifica com o estilo por causa dos beats e das letras ostentação. “Comecei a ouvir mais os artistas da cidade porque conheço alguns já faz um tempo”, explica.

Raffa Moreira, também conhecido como Lil Raff, é hoje um dos principais nomes do trap no Brasil (Paula Rodrigues/Agência Mural)

Um dos trappers que ela mais escuta é Raffa Moreira, que, segundo ela, é o mais famoso do Brasil. Ele acabou tornando-se sinônimo do estilo, principalmente por causa da internet. Filho de pai músico e mãe manicure, também começou a tocar na igreja, mas veio de uma família de músicos: seu avô e seus tios tocavam.

“Daí veio a veia musical”, conta. “Com 5, 6 anos eu conheci a rádio Costa Norte com meu irmão mais velho. Era uma rádio pirata aqui de Guarulhos que veiculava rap nacional. E eu escutei de tudo na minha infância, RPW, Racionais, Consciência Humana e por aí vai. Aí foi onde eu peguei o amor pelo rap”, explica.

Para Raffa Moreira, trap é contar histórias com as frequências graves mais em evidência. Ele ressalta que antes a maior parte das letras expressavam coisas negativas, mas isso vem mudando.

“Antes era aquela coisa bem negativona. Falando de droga, de crime e tal. O dirty south [que é um estilo de se cantar rap e hip-hop no sul dos Estados Unidos] é mais ou menos isso, o trap trouxe outras vertentes junto”.

Thalita Monte Santo é correspondente de Guarulhos
[email protected]

Vídeo: Paula Rodrigues, Karol Coelho e Julia Reis são correspondentes da Vila Albertina, Campo Limpo e Taboão da Serra.

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0 thoughts on “Os anos esquecidos de São Miguel Paulista”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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