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Com orçamento enxuto, carnaval dos bairros tem desfiles com fantasias reaproveitadas e material reciclado

Em busca de uma vaga para desfilar no sambódromo, escolas usam material reciclado, fantasias reaproveitadas e até dinheiro dos próprios integrantes para organizar carnaval

Ao lado do Terminal João Dias, na zona sul de São Paulo, os integrantes da “Imperatriz da Sul” reaproveitam materiais dos carnavais anteriores para construir novas fantasias. 

Neste ano, a Imperatriz vai desfilar com roupas usadas em 2019 pelas escolas Dragões da Real e Barroca Zona Sul. A ideia é economizar em todos os detalhes. 

“Preciso comprar de 20 a 30 tábuas para forrar os carros alegóricos. Compro madeira de obra, reciclo tudo. Se eu for comprar uma tábua nova, ela custa R$ 200. Aí eu vou lá na obra e compro por R$ 30”, afirma o presidente da agremiação, Gil Santana.

A escola é uma entre as 80 agremiações que movimentam o carnaval oficial de São Paulo e recebem cachê artístico da prefeitura para as apresentações. A Imperatriz, no entanto, faz parte hoje da categoria que recebe as menores verbas: a divisão dos bairros.

O nome define os grupos sem pontuação suficiente para desfilar no sambódromo do Anhembi. Neste ano, 46 escolas que fazem parte dessa divisão estão cadastradas para se apresentar no Butantã, na zona oeste, e na Vila Esperança, na zona leste da cidade, entre os dias 22 e 24 de fevereiro.

As mais bem colocadas nesta categoria, como é o caso da Imperatriz da Sul, fazem parte do grupo especial dos bairros e recebem R$ 93 mil reais cada. Enquanto isso, as escolas com maior pontuação que desfilam no Anhembi recebem R$ 1,2 milhão cada, doze vezes mais que as agremiações dos bairros. 

A distribuição dos valores funciona de acordo com o desempenho de cada escola e a posição que elas ocupam dentro dos grupos do carnaval. Quem desfila no Anhembi, pertence aos grupos especial, e de acesso 1 e 2 da Liga das Escolas de Samba e pode receber de R$ 186 mil a R$ 1,2 milhão. 

Já no carnaval dos bairros, as agremiações estão dividas em quatro grupos: o Especial dos Bairros e os chamados grupos de Acesso 1, 2 e 3. No Acesso dos Bairros I a verba recebida é de R$ 62 mil e no Acesso II de R$ 16 mil. Os membros do grupo Acesso III não receberam nenhum valor porque foram acrescentados no concurso depois que o contrato da SPTuris com as escolas já estava fechado. 

Crédito: Jéssica Bernardo/Agência MuralA poucos dias do desfile, Margarida termina as últimas fantasias da escola para o carnaval. Imperatriz desfila neste domingo

Os cachês para os desfiles deste ano custarão aos cofres da prefeitura de São Paulo R$ 30 milhões. 90% desse valor (R$ 27 mi) será empenhado entre as 34 escolas que desfilam no Sambódromo do Anhembi. Apenas os outros 10% vão para as 46 escolas que participam dos carnavais nos bairros. 

CAMINHO PARA O ACESSO   

As avenidas Eliseu de Almeida, no Butantã, e Alvinópolis, na Vila Esperança, recebem o carnaval dos bairros neste ano. A tradição da Vila Esperança, com mais de 90 anos de história, já foi até tema de música de Adoniran Barbosa. 

Para chegar lá, os componentes dessas escolas periféricas tentam fazer um carnaval de poucos recursos. As agremiações reclamam que enfrentam dificuldades para encontrar patrocinadores e, muitas vezes, os integrantes tiram dinheiro do próprio bolso para completar a verba repassada pela prefeitura. 

Na Unidos do Vale Encantado, que fica no bairro de Cidade Ademar, também da zona sul, a estrutura de parte das fantasias foi reaproveitada do material usado pela Camisa Verde e Branco. 

A escola chegou a desfilar no Anhembi no passado, mas foi rebaixada em 2008 e agora sonha em voltar ao sambódromo.

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Táticas como fazer eventos na tentativa de arrecadar um dinheiro a mais se tornam rotineiras: “Todas as semanas a gente faz feijoada com roda de samba. Já fizemos baile da nostalgia, festa do chopp, da sardinha”, conta o presidente da Unidos do Vale Encantado, Mário Caetano.

A relação entre as escolas dos bairros e a gestão municipal é intermediada pela UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas). Presidente da entidade há dois anos e meio, Alexandre Magno, conhecido como Nenê, afirma que ainda não viu o valor investido pela prefeitura para os grupos ser reajustado. “Está congelado há três anos”. Procurada, a prefeitura não respondeu sobre o tema. 

Nenê explica que a contratação do serviços artísticos das agremiações pelo município movimenta o turismo, a cultura e a economia na cidade. “A escola de samba gira a economia local. Toda vez que você investe em uma escola esse dinheiro volta para a prefeitura”, conta o presidente. 

Estima-se que 500 mil pessoas acompanhem os desfiles da UESP todos os anos. Um dos gastos das escolas é o transporte. Algumas se deslocam até 42 km para chegar ao local da apresentação. 

Crédito: Magno BorgesEscolas de Samba que percorrem as maiores distâncias para desfilar em SP

EMOÇÃO E MOBILIZAÇÃO

Se por um lado as escolas menores recebem uma quantia mais baixa de cachê artístico, por outro, cabe a elas construir desfiles menos complexos do que aqueles vistos no Anhembi.

O regulamento para o grupo especial dos bairros neste ano exige um número mínimo de 500 pessoas por desfile para cada escola. Enquanto isso, as agremiações do grupo especial da Liga desfilam com um mínimo de 2.000 integrantes. 

Mobilizar as comunidades ainda assim é outro desafio para as agremiações menores. Moradora do Campo Limpo, na zona sul, e integrante da ala das baianas na Imperatriz da Sul, Margarida Santos, 78, costuma sair pelo bairro convidando os vizinhos para desfilar quando o carnaval se aproxima. 

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A expectativa dos membros da escola é reunir 700 participantes no desfile deste ano. Para isso, a escola não cobra nada pelas fantasias e oferece transporte no dia do evento. Em troca, espera mais sorrisos como o de Dona Margarida, que se emociona ao falar sobre a relação que tem com a festa paulistana. 

“Quando a escola entra na avenida não tem uma baiana que não chore. A escola é minha vida”, afirma Margarida.

Ela também aponta a facilidade para acessar os desfiles como um dos benefícios. “Tem muitas pessoas que não têm condições de pagar um ingresso pra ir para o Sambódromo. Essas escolas atraem quem não pode ir. Elas se reúnem na avenida pra ver a gente desfilar. Aqui é tudo de graça”, afirma Margarida.

Jéssica Bernardo

Estudante de jornalismo, correspondente do Grajaú desde 2017. Cria de uma família de cearenses tão fortes quanto aqueles de "Os Sertões". Amante de bolos e banhos de mar.

Grajaú, São Paulo

Cléberson Santos

Jornalista, correspondente do Capão Redondo desde 2019. Trabalha com jornalismo esportivo para portais de notícias desde 2014, mas não sabe chutar uma bola.

Capão Redondo, São Paulo

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