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Agência de Jornalismo das periferias

Reportagem: Egberto Santana Nunes

Publicado em 05.11.2021 | 12:23 | Alterado em 24.11.2021

RESUMO

Confira lista com cineastas periféricos em ascensão que tiveram passagens por festivais nacionais e internacionais. Para nunca dizer por aí que não existe cinema feito pelas periferias

Tempo de leitura: 9 minutos
NAVEGUE

Já faz um tempo que os sujeitos periféricos deixaram de ser vistos apenas como personagens a serem filmados no cinema brasileiro. Ainda que “Cidade de Deus” (2002) seja lembrado e problematizado, a situação vem mudando. Sai de cena o diretor que vem do centro e surgem cada vez mais equipes periféricas na produção de filmes.

Em São Paulo, os olhares e narrativas também são diversos, a partir das diferentes localidades. Graças às ações afirmativas, editais de produção voltados para os territórios periféricos, cursos e oficinas de audiovisual e menções em eventos de cinema, muitos diretores e diretoras estão em ascensão e têm ganhado visibilidade.

A Agência Mural traz uma lista com alguns nomes de destaque, cineastas que mantiveram ampla passagem por festivais nacionais e internacionais. Para nunca dizer por aí que não existe cinema feito pelas periferias. Confira:

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Autodidata no audiovisual, ganhou uma bolsa para estudar cinema após anos de realização de filmes @Francineide Bandeira

LINCOLN PÉRICLES

Quando se fala em cinema feito na periferia, o nome de Lincoln Péricles, 31, chega logo na conversa. O editor, roteirista e diretor é morador do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista, e ocupa uma das cenas mais prolíficas do cinema brasileiro na atualidade.

Ele assina a direção de nove curtas-metragens e um longa. As obras têm em comum a sustentação no território, cada qual sempre mencionando local de realização, seja a quebrada do Capão ou de Itaquera, na zona leste, onde o artista também já filmou.

Lincoln foi mencionado em fevereiro de 2020 na Cahiers du Cinéma, revista de cinema francesa mais respeitada do mundo, por conta de “um cinema longe do imaginário ligado às favelas, que inventa sua própria forma, áspera e necessariamente imperfeita, entre intervenção e arquivo visual do bairro”.

São filmes experimentais que vão do retrato de uma família num domingo de sol na quebrada (“Um Filme de Domingo”, 2020), até entrevistas com relatos de enquadros policiais, optando por filmar nas ruas, e não os rostos dos envolvidos (“Enquadro”, 2016).

Além das tarefas técnicas do audiovisual, Lincoln também é educador popular, articulando seus projetos junto a movimentos sociais em processos de formação em cinema, além de atuar em cursinhos e escolas das periferias. A maioria de seus filmes está disponível em seu canal no YouTube.

E Lincoln faz questão de mandar o recado: tem interesse em colocar algum filme dele em cineclubes ou bater papo sobre o tema? Chama na astuciafilmes@gmail.com.

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O diretor coleciona prêmios do Festival de Cinema de Gramado @Reprodução/Instagram

FABIO RODRIGO

Algumas obras são premiadas em festivais e mesmo assim possuem pouco conhecimento do grande público. É o caso dos filmes de Fabio Rodrigo, 38, diretor premiado várias vezes no Festival de Gramado por conta dos curtas “Lúcida” (2015), “Kairo” (2018) e “Entre Nós e o Mundo” (2020). Ele é formado em produção audiovisual em uma universidade privada, com bolsa de programa social.

A partir de uma linguagem poética sobre o local e seus familiares é que o realizador constrói a filmografia. “Lúcida”, realizado com Caroline Neves, retrata o cotidiano de uma mãe solo na periferia. Pode ser visto no canal de Fabio no Vimeo, assim como trechos de passagens por festivais.

Outro de seus trabalhos, “Kairo”, foca na difícil decisão que uma criança periférica tem que fazer na escola. O curta está disponível na Wolo TV, plataforma voltada para exibição de produtos audiovisuais negros.

O seu mais recente curta, “Entre Nós e o Mundo”, é um documentário realizado na Vila Ede, zona norte de São Paulo. O filme parte da memória que ficou do assassinato racista de Theylor, filho de Erika, para criar uma história cheia de vida que alinha a preocupação com o outro filho e o cuidado com a gravidez.

A obra fez parte da seleção do 14º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, Africa, Caribe e outras diásporas, realizado em outubro deste ano.

Os curta-metragens do diretor possuem uma forte ideia de contar histórias de dentro da periferia, sejam ligadas com o seu passado, família ou recorrentes em seu território.

Inclusive, um dos projetos de Fabio se chama “Ira Negra – filmes do gueto para o gueto”, cujo objetivo é formar profissionais de cinema nas periferias e incluir essas pessoas na formação das produções do grupo.

Agora o diretor e roteirista finaliza em Guarulhos, na Grande São Paulo, o curta “Contando Aviões”, junto com o coletivo de cinema Kinoferico.

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Vinícius também foi assistente de direção no documentário “Eleições”, sobre as disputas para o grêmio estudantil de secundaristas @Caio Mazzilli

VINÍCIUS SILVA

Dos quatro filmes que Vinícius Silva, 31, participa, apenas três são direção e o outro é co-direção. Mesmo assim, ele ainda é um nome que a cena de cinema nacional está de olho nessa última década. Coleciona mais de 70 prêmios em festivais nacionais e internacionais.

Morador de Cohab 1 em Artur Alvim, na zona leste, ele é o primeiro da família a entrar na faculdade, tendo cursado cinema na Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul (RS). Atualmente ele faz mestrado em roteiro na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), uma das escolas de cinema mais requisitadas do mundo, em Cuba.

O TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de Vinícius foi seu primeiro curta, Deus” (2017), onde o título incorpora Roseli, mãe solo que cuida de seu filho, Breno, na periferia de São Paulo.

Em 2018, “Liberdade” é lançado em parceria com Pedro Nish e ambientado no bairro do título, em São Paulo, e promove um encontro de diferentes vidas e lugares numa mesma região.

Já em 2019 ele traz o trabalho “Quantos Eram Pra Tá?“, uma ficção que retrata a primeira geração de jovens negros a entrar na USP (Universidade de São Paulo).

Todas obras citadas possuem ampla passagem e menções em festivais mundo afora.

O último filme de Vinícius foi feito a convite do IMS (Instituto Moreira Salles), no Programa Convida — projeto que convoca realizadores e coletivos a desenvolverem projetos durante a quarentena.

Vinícius também é membro fundador da Irmandade Filmes, coletivo de cineastas negros que reúne David Aynan e Everlane Moraes como membros.

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Thais tem mais de 14 obras no currículo e ganhou prêmio na Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso @Reprodução/Instagram

THAIS SCABIO

E a modalidade de animação também está representada nas periferias. Quem assinou a produção de “Graffiti Dança”, vencedor de melhor curta brasileiro do AnimaMundi, importante festival de animação, foi Thais Scabio, 44, moradora de Cidade Ademar, zona sul de São Paulo.

Formada em Rádio e TV, após ser selecionada num projeto de bolsas da Educafro, Thais é fundadora da Cavalo Marinho Audiovisual, produtora da região de Cidade Ademar e Pedreira, junto com seu companheiro, Gilberto Caetano.

A diretora, roteirista e produtora executiva está em fase de desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem.

E não é só na produção que os dois atuam. A área educacional é forte na Cavalo Marinho, com formação audiovisual voltada para jovens da periferia, ministrando oficinas e cineclubes, como a oficina JAMAC Cinema Digital, no Jardim Miriam e o Mascate Cineclube, na região onde o casal mora.

São mais de 14 assinaturas de direção no currículo de Thais e entre elas está o curta-metragem de ficção “Barco de Papel” (2018), voltado para um retrato das crianças em situação de rua, entre o lúdico e o perigo da realidade.

O filme foi vencedor da 5ª Mostra de Cinema Negro de Mato Grosso e está disponível na plataforma Todes Play, voltada para o streaming de produções feitas por pessoas negras onde a realizadora é gestora de negócios.

O documentário “Imagem Mulher” também está na filmografia de Thais, com a ideia de virar o olhar que a mídia tem da mulher, focando na rotina de três personagens.

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Janaína estreia em setembro o curta “Obrigada”, com equipe técnica composta apenas por mulheres @Rafael Vieira

JANAÍNA REIS

E que tal um retrato diferente do que é divulgado sobre a pandemia? É o que propõe o curta “Minha vida em quarentena”, dirigido por Janaína Reis, 33, exibido na Mostra Guarulhense de Cinema, na Grande São Paulo. A ideia do filme é retratar de forma cômica o impacto desse período.

Janaína é de Guarulhos, pedagoga, atriz com formação livre em audiovisual e já trabalhou nas funções de direção, roteiro, produção, preparação de elenco, direção de arte e fotografia. Tudo isso na Companhia Bueiro Aberto, grupo cujo lema é “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça surge um cinema nascido na quebrada, buscando estórias escondidas no submundo”.

Além de botar a mão na massa, há também o Zine Gueto-Metragem, publicação mensal virtual com a proposta de discutir os modos de produção e as diferentes formas desse cinema de quebrada.

O último filme de Janaína é o longa-metragem documental “Cabuçu Brasil Arte e Resistência na Pandemia“, com o Movimento Cabuçu, voltado para a proteção da área ambiental de Cabuçu Tanque-Grande, em Guarulhos.

A produção foi feita durante os eventos da 12ª Mostra de Teatro de Rua de Guarulhos e traça um panorama do impacto da Covid-19 no setor das artes de rua.

No canal da companhia Bueiro Aberto no YouTube, vários debates feitos nesse último ano foram transmitidos, vídeos explicando as funções técnicas do cinema, fora as produções próprias do grupo, como a série “Letras de uma cidade dormitório”, apresentando histórias de escritores da cidade de Guarulhos.

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Nay Mendl, Rosa Caldeira,e Wellington Amorim (da esquerda à direita) fazem parte do Maloka Filmes @Vini Click

MALOKA FILMES

Um dado que se repete muito quando se trata de cinema feito nas periferias é a disposição de se juntar a outros semelhantes em prol de um trabalho em comum.

O Maloka Filmes é um dentre vários outros que atua na frente da produção, distribuição de filmes, criação de cine clubes comunitários e eventos culturais na periferia paulistana.

O grupo, formado por jovens LGBTQIA+ periféricos de São Paulo, atua a partir de um sistema próprio de construção comunitária, sempre em conjunto com pessoas periféricas.

O curta-metragem mais recente, “Perifericu” (2019), recebeu mais de 30 prêmios, incluindo Festival de Tiradentes, Curta-Kinoforum e Festival Mix Brasil, esse último voltado para o público LGBTQIA+.

“Perifericu” tem na direção os nomes de: Rosa Caldeira, 23, morador do Jardim Ângela, cineasta trans que atualmente estuda na EICTV; Nay Mendl, 27, cria do Grajaú, transmasculino, formado em cinema e audiovisual pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) com intercâmbio em Cine y Tv na Universidad Nacional de Colômbia; e Wellington Amorim, 26, também morador do Jardim Ângela, na produção executiva e direção de fotografia.

Stheffany Fernanda e Vita Pereira foram parceiras no curta, sendo esta última integrante do Irmãs de Pau, dupla de funk cujo clipe “Travequeiros” foi dirigido pela Maloka Filmes.

No momento, “Perifericu” concorre ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2021 e está disponível para assistir noPorta Curtas.

Outras obras de destaque do grupo são o longa “Raízes” e as webséries “Babado Periférico” e “Pandemia na Quebrada”, disponíveis no canal do YouTube da Maloka.

Depois dessa lista — que com certeza é mais longa — voltamos para um dos títulos mencionados, o curta de Vinícius Silva: “Quantos eram para tá?”. A pergunta cabe aqui também, afinal, existem muitos outros diretoras e diretores pelas quebradas de São Paulo, batalhando para finalizar um filme, concorrendo a algum prêmio ou exibindo sua produção de forma online e gratuita.

Há ainda o debate de como chamar esse cinema: de quebrada, vídeo popular, periférico… Independente do nome, a verdade é que ele existe (e resiste). Agora é apoiar.

2. Imagem do parque, zona leste Foto: @Lucas Marques

O baile mais esperado

Depois das 22h de sábado, um movimento de jovens começa a ser visto em Guaianases, na zona leste de São Paulo. Os pequenos grupos se reúnem em busca de alguma festa.

A situação era comum antes da pandemia de Covid-19, com aglomerações que duravam a noite inteira, mas, com o vírus, as orientações médicas passaram a ser o distanciamento social. Porém, para muitos, as festas continuam.

A situação era comum antes da pandemia de Covid-19, com aglomerações que duravam a noite inteira, mas, com o vírus, as orientações médicas passaram a ser o distanciamento social. Porém, para muitos, as festas continuam.

A situação era comum antes da pandemia de Covid-19, com aglomerações que duravam a noite inteira, mas, com o vírus, as orientações médicas passaram a ser o distanciamento social. Porém, para muitos, as festas continuam.

O estagiário explica que, nos primeiros três meses de pandemia, seguiu as recomendações de isolamento até onde deu. Mas, depois disso, cansou.

Ele comenta que ‘a vida não pode parar’ e que as pessoas ricas se isolam porque têm condições de ficar em espaços com opções de lazer. “E a gente aqui? Se isola e fica num cômodo com a família toda. Acho que é mancada com os pobres”.