‘Faltam negros em campo’, dizem atletas de futebol americano das periferias

Sábado, 12h, sol estalando. Enquanto as ruas do Jardim Keralux, na zona leste de São Paulo, estão cheias por conta dos comércios, um time pratica futebol americano nos gramados do centro de treinamento da Portuguesa.

Dos 33 atletas em campo, apenas quatro são negros. Nesta semana, o esporte completou 10 anos da primeira partida oficial no Brasil com todos os equipamentos. No entanto, a modalidade avançou pouco na questão da diversidade e na difusão em espaços periféricos.

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Um dos atletas da Lusa é Nathan Santiago, 28, morador de Itaquera, que teve em 2007 a oportunidade de conhecer um time de futebol americano na zona leste.

Depois do início, ele parou de jogar por causa do trabalho mas retornou há três anos, após convite do técnico da Lusa.  A equipe é a segunda colocada no grupo Oeste da Conferência Sudeste da BFA 2018 (Brasil Futebol Americano).

“É um esporte para poucos negros [no Brasil], o inverso do que acontece no esporte original. Se você olha nos EUA, os melhores jogadores são negros”, pontua Santiago.

O publicitário Ingo Silva, 23, de Itaquera, é outro jogador negro no time. Ele começou a praticar depois de conhecer a equipe do Corinthians. 

“Hoje a torcida dos times é composta de amigos e familiares, então, se tem menos negros em campo vão ter menos negros na torcida”, explica. “As famílias negras não vão na arquibancada, nem os amigos negros, quando não tem um igual jogando”, completa.

Para o atleta, é importante que os times no país se desenvolvam a ponto de permitir que os mais pobres também consigam acessar o esporte. O preço de itens como coletes e chuteiras são apontados como empecilhos para a prática da modalidade. Eles estimam o custo de R$ 2.000 para entrar no esporte.

Apesar do crescimento no Brasil, a adesão ao esporte não foi o suficiente para a produção em massa de equipamentos do futebol americano, o que dificulta o acesso. Quem se interessa precisa recorrer a amigos que viajam ao exterior para trazerem os itens, a preços menores e com maior durabilidade.

Equipe tem quatro negros (Arte: Paula Rodrigues/Agência Mural)

“Ninguém tem grana pra jogar, assim à vista, de um dia pro outro. Isso é barreira de entrada para galera começar a jogar”, comenta Ingo. “O que acontece muito é que tem gente que começa sem equipamento, vai entrando e aí, se realmente curtir, faz um esforço para comprar, ou eventualmente larga o esporte por não ter dinheiro”, exemplifica.

ALTA

Em fevereiro de 2017, uma pesquisa do Ibope Repucom apontou que 15,2 milhões de pessoas se declararam fãs do esporte no Brasil. 

Morador de Guarulhos, Leandro Silva de Oliveira, 22, ocupa a posição de safety – responsável por ficar na última linha de defesa e não deixar que os atacantes permaneçam com a bola.

O atleta levou dois anos para comprar todos os itens necessários para jogar. Primeiro, juntou dinheiro e comprou o capacete e o shoulder – ombreira que protege o peito e ombro – e meses depois conseguiu adquirir tudo o que precisava para seguir jogando.

“O equipamento é uma barreira mesmo no esporte. Em Guarulhos, não tem muito apoio, tem que buscar fora [da cidade]”, resume.

Ingo é morador de Itaquera, na zona leste de São Paulo (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Com o aumento da visibilidade no Brasil, Silva diz acreditar que os clubes passarão a crescer e com isso ter estrutura suficiente para manter as despesas exigidas pelo esporte.

Não vai precisar ter dinheiro para jogar, você vai jogar, mesmo que não seja seu o equipamento, mas pelo menos as pessoas vão ter como entrar, sem pedir emprestado. Trocar é complicado, eu mesmo batalhei para pedir emprestado”, relembra.

Outra questão em comum entre os jogadores é a profissionalização, o que não deve ocorrer em curto prazo. “Eu sei que minha geração não vai jogar profissionalmente, a gente está trabalhando para o futuro das próximas gerações, que consigam jogar profissionalmente, mas a minha eu sei que não. Jogo porque gosto”, declarou Oliveira. “Somos o pilar de uma geração que pode ser profissional”, vislumbra Santiago.

Lucas Veloso e Rômulo Cabrera são correspondentes de Guaianases e Suzano

Galeria: Futebol americano na zona leste

Os desafios dos corredores de rua nas periferias

0 thoughts on “Cerveja artesanal na periferia”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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