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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Jessica Bernardo

Notícia

Publicado em 17.12.2021 | 8:32 | Alterado em 04.01.2022 | 16:37

“Professora, demora muito a hora da janta?” A frase de um estudante do CEU (Centro de Educação Unificado) Casa Blanca, na Vila das Belezas, na zona sul de São Paulo, chamou a atenção da professora Regiana Aparecida Costa Paixão, 48. Estranhando o comentário do aluno, ela decidiu perguntar se estava tudo bem com ele. “Na minha casa não tem gás, então de manhã eu só comi bolacha”, respondeu o estudante.

O menino de 6 anos esperava ansioso pelo primeiro prato de comida do dia. Na escola o jantar é servido às 17h30, mas um lanche é entregue aos estudantes já no início do turno.

Para saciar a fome do aluno, Regiana passou a antecipar os horários da merenda. “Eu percebo que ele vem [pra escola] sem comer. Toda vez quando ele chega, eu já falo ‘você quer ir lanchar?’”.

No Brasil, mais da metade da população vive com algum grau de insegurança alimentar, ou seja, sem ter acesso pleno e permanente a alimentos. Os dados são da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).

Alunos ansiosos pela merenda têm sido comum na volta às atividades presenciais @Magno Borges/Agência Mural

O problema é classificado pelos nutricionistas em três níveis: leve, moderado e grave. Os dois primeiros acontecem quando a pessoa, por falta de dinheiro, substitui alimentos como legumes e frutas por outros de menor valor financeiro e nutricional, como os ultraprocessados (bolachas recheadas, sucos em pó, etc.). O nível mais grave é quando a pessoa passa fome.

A preocupação com o tema aumentou em meio a crise sanitária. Histórias de moradores que não conseguiam mais bancar o botijão de gás se multiplicaram pela Grande São Paulo, além da dificuldade de conseguir alimentos em meio a alta dos preços.

A pediatra Maria Paula de Albuquerque explica que na primeira infância, entre os primeiros meses de vida e os 6 anos, a insegurança alimentar pode trazer impactos graves, como deixar crianças mais vulneráveis a doenças, e até a morte. Além disso, pode gerar efeitos a longo prazo: “Vão ter maior risco de serem adultos doentes, com obesidade, hipertensão, diabetes”.

A merenda distribuída em escolas e creches entra nesse cenário como uma aliada no combate à fome e à má alimentação. O cardápio, por lei, deve passar pelo crivo de um nutricionista e priorizar alimentos in natura, como verduras. Mas durante a pandemia o acesso ao benefício ficou comprometido.

Cozinha de casa na Favela da Tribo, na Brasilândia @Léu Britto/Agência Mural

Estômago vazio

Uma pesquisa do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) realizada em 2020 mostrou que no Brasil 42% das famílias que recebem até um salário mínimo deixaram de ter acesso à merenda escolar na pandemia.

Maria Paula explica que a pandemia intensificou a insegurança alimentar nas famílias das crianças que vivem nas periferias.

“As crianças que eram desnutridas ficaram mais, e aqueles que tinham algum acesso, por uma questão de renda, também optaram por alimentos de menor qualidade”

Maria Paula Albuquerque

A médica trabalha hoje como gerente clínica do CREN (Centro de Recuperação e Educação Nutricional), instituição que é referência na área de educação nutricional e atua em bairros periféricos de São Paulo, como Grajaú e Cidade Tiradentes.

Na casa de Alessandra Silva*, 34, os dois filhos ainda estão acompanhando as aulas online. Yuri*, 6, e Bárbara*, 12, são do grupo de risco para a Covid-19 e receberam atestado dos pediatras para continuarem isolados, apesar da obrigatoriedade do retorno ao ensino presencial na cidade.

A família mora no Jardim Umuarama, bairro da zona sul da capital, e sobrevive de bicos e do dinheiro do Bolsa Família. Em alguns dias, o prato dos filhos chegou a ficar vazio. “É muito ruim, desespera muito a gente, mãe e pai”.

Alessandra conta que chegou a procurar a escola do filho mais novo para se inscrever no programa “Merenda em Casa”. O projeto do governo estadual oferecia auxílio de R$ 55 às famílias em situação de vulnerabilidade. O pagamento, no entanto, caiu na conta dela por apenas um mês. Em maio o “Merenda em Casa” foi extinto.

Segundo a Secretaria Estadual de Educação, o programa foi uma medida emergencial para garantir a alimentação durante o período de suspensão das aulas.

Em setembro, a gestão do governador João Doria (PSDB) anunciou outra iniciativa, o “Merenda Extra”, para complementar a alimentação dos alunos da rede. Mesmo cadastrada no programa novo, Alessandra não recebeu o benefício.

Com os produtos mais caros no mercado e sem a ajuda da merenda escolar para os filhos, ela e o marido precisaram substituir os alimentos que costumavam comprar. “Agora a gente compra a bolacha que estiver mais barata”.

Frutas e legumes só entram no cardápio da família quando parentes fazem doações. “Eu não vou mais na feira”. Carnes bovinas também são raras nos almoços.

Crianças em comunidade da Brasilândia @Léu Britto/Agência Mural

Questionada, a Secretaria Estadual de Educação afirmou em nota que Alessandra não tinha respondido ao questionário de interesse em retirar o Kit Alimentação, do programa Merenda Extra. A pasta orientou que a mãe procurasse a escola onde o filho está matriculado para solicitar o recebimento excepcional do benefício.

Nesta quarta-feira (15), depois da entrevista para esta reportagem, Alessandra contatou a escola e recebeu duas sacolas com alimentos como arroz, macarrão e frango.

Futuro

A redução da desnutrição na cidade de São Paulo está entre as metas do Plano Municipal Pela Primeira Infância. O documento traz estratégias para garantir os direitos e o desenvolvimento integral das crianças nesta faixa etária.

Com os impactos atuais da pandemia, a médica Maria Paula explica que para avançar no combate à insegurança alimentar é preciso também investir em uma integração entre os diferentes segmentos da rede pública. “A creche tem que estar mais próxima da saúde no pós-pandemia”.

*Os nomes da mãe e dos filhos citados na matéria são fictícios e foram trocados para não expor as crianças.

Esta reportagem foi produzida com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e Porticus

Jessica Bernardo

Jornalista, cria de uma família de cearenses. Apaixonada por São Paulo, bolos e banhos de mar. Correspondente do Grajaú desde 2017.

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