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Agência de Jornalismo das periferias

Léu Britto/ Agência Mural

Por: Jacqueline Maria da Silva

Notícia

Publicado em 01.04.2026 | 19:08 | Alterado em 07.04.2026 | 7:42

Tempo de leitura: 4 min(s)

Transtornos de personalidade, bipolaridade e borderline foram alguns dos diagnósticos recebidos por Kell França De Lamare, 25, atriz, produtora cultural e influencer. Moradora da Casa Verde, na zona norte da capital paulista, ela enfrentou tentativas de suicídio e passou por três internações psiquiátricas traumáticas.

Somente aos 21 anos, com ajuda financeira de uma familiar, Kell conseguiu pagar uma avaliação neuropsicológica que identificou o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O que parecia ser crises psiquiátricas intensas eram, na verdade, manifestações ao transtorno.

“Era contida nas internações durante crises de meltdown e, quando ficava muito sobrecarregada, tinha shutdown. Isso gerava uma disfunção executiva, as pessoas, inclusive família, achavam que era preguiça. Fui submetido a intensos tratamentos medicamentosos, que me causavam efeitos colaterais”, desabafa.

Kell sai de casa com abafador e com a carteira do TEA para evitar situações de discriminação e lidar com o excesso de som no transporte público. @Léu Britto/ Agência Mural

O sofrimento de Kell se repete em outras jovens diagnosticados tardiamente. São vidas marcadas pela invalidação de sentimentos, comportamentos e de interação consideradas “atípicas”.

O atendente de loja Sírius Lorenzo Lima de Oliveira, 28, cria de Itaquera, apresenta seletividade alimentar e hipersensibilidade aos sons desde a infância. Ele teve atraso na fala, que começou a se desenvolver apenas aos 6 anos, além da dificuldade de socialização.

Tratamentos para depressão, ansiedade e até transtorno de déficit de atenção e hiperatividade não tiveram sucesso. Faltava, segundo ele, um olhar mais atento, sensível e preparado para um diagnóstico preciso.

“Os médicos diziam que eu estava com ‘manha’, e os colegas que eu era antissocial. Tive anemia na infância por conta dessa seletividade alimentar e sofria pressão para me alimentar. Também não gostava de contato físico ou brincadeiras que pareciam agressivas. Atualmente eu tenho uma linguagem disfuncional, insônia e desenvolvi alguns traumas”, comenta.

Meltdown é uma crise explosiva intensa que pode envolver choro, gritos e agressividade, em que a pessoa tem dificuldade de controlar impulsos e emoções.

Já o shutdown é uma crise interna, em que a pessoa desliga do ambiente, com redução da comunicação, isolamento ou imobilidade..

Ambas estão ligados à sobrecarga sensorial e emocional.

Fonte: Instituto TEA

As barreiras no acesso ao cuidado por autistas

Kelvin e Sirius têmTEA nível 1 de suporte. O termo “Síndrome de Asperger” deixou de ser utilizado em 2013.

Atualmente, parece haver mais casos, mas não é isso, especialistas apontam que mais pessoas têm se reconhecido e buscado diagnóstico.

O nível leve pode permitir mais autonomia, o que pode atrasar a busca por investigação, explica a neuropsicóloga Rayane Martins Lima, moradora Grajaú e especialista em ABA [tipo de tratamento para pessoas autistas].

A população periférica enfrenta desafios maiores. Quando surge a suspeita, muitas pessoas dependem do SUS ou de convênios básicos, que nem sempre cobrem exames específicos caros e teste neuropsicológicos, que podem custar em torno de R$3 mil. Mesmo após o diagnóstico, falta uma rede especializada de atendimento.

Sirius passou por tratamentos inadequados na infância e adolescência que culminaram em traumas para a vida toda @Arquivo pessoal/Divulgação

Outro obstáculo são os estereótipos sobre o autismo. No imaginário popular, a pessoa autista costuma ser vista como alguém com alto comprometimento ou como um “gênio”. Esse olhar invisibiliza jovens da periferia com TEA nível 1, cujas dificuldades muitas vezes passam despercebidas diante das pressões do dia a dia, como trabalhar e sustentar a família acabam sobressaindo no cotidiano.

Rayane destaca que, por muito tempo, o autismo foi considerado mais comum em homens. Hoje, essa ideia é questionada: mulheres podem ser subdiagnosticadas e sofrer mais impactos devido ao masking (camuflagem social), prática de esconder características para evitar rejeição social.

“A sociedade espera muito delas, pois ela tem que ser inteligente, gostosona, tem que prover. As mulheres passam por muitas questões culturais e morais desde cedo, que as inibem e as obrigam a não mostrarem vulnerabilidade ou fraqueza, a serem empoderadas. Não à toa, existem mais diagnósticos entre homens”, acrescenta.

A diferença entre gênero e classe no diagnóstico tardio de TEA 

1

O Censo Demográfico do IBGE de 2022 foi o primeiro a analisar dados específicos sobre autismo e constatou que a cada 100 pessoas, ao menos uma é autista

Os dados  indicam maior diagnóstico em homens na infância e maior identificação  e em mulheres após os 50 anos

2

A pesquisa Associação do Transtorno do Espectro Autista com Fatores Socioeconômicos e Demográficos mostrou que mulheres brancas com acesso a pré-natal privado tiveram 49% mais chances de ter filhos diagnosticados com autismo em comparação a mães não brancas

Do alívio do diagnóstico ao capacitismo

Para os entrevistados, o diagnóstico trouxe melhora na qualidade de vida e maior compreensão sobre si mesmos. Sentimentos como culpa e inadequação deram lugar a pertencimento.

‘Hoje, passei a ter noção de quais desafios lidar em sociedade, além de trazer essa clareza para as pessoas sobre minhas dificuldades e limitações, sobre o que sou capaz de entregar’

Sirius Lorenzo, atendente

Mas, junto com o alívio do diagnóstico, também vêm os desafios. Muitas pessoas ainda não compreendem ou respeitam o autismo, sobretudo quando os sinais não são visíveis.

A discriminação pessoas com TEA nível 1 vai desde a negação de direitos, como fila preferencial e assento no transporte público, até falas capacitistas como “você não parece autista” ou “todo mundo é um pouco autista”.

Na tentativa de conscientizar e combater estereótipos, especialmente sobre pessoas das periferias, Kell usa o Instagram para falar sobre o tema e combater o capacitismo.

“Sou muito reivindicadora das causas, principalmente como uma pessoa neurodivergente, periférica e LGBT, que enfrenta mais dificuldade no acesso a direitos”, destaca Kell.

Segundo a neuropsicóloga, Rayane Martins, o autismo leve também é romantizado em contextos mais elitizados. Já entre pessoas em situação de maior vulnerabilidade, o diagnóstico nem sempre torna a vida mais fácil.

No Brasil, o TEA é reconhecido pela lei como deficiência, mas o acesso a laudos ainda é um dos principais obstáculos. Além disso, faltam políticas públicas que garantam avaliação e acompanhamento especializado, sobretudo para adultos e pessoas com nível 1 de suporte.

Pessoas com autismo podem ter direito ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago pelo INSS a quem comprova baixa renda e deficiência.

O pedido pode ser feito pelo site ou aplicativo Meu INSS, além de unidades do CRAS. Confira mais no webstory.

Na capital paulista, um Centro TEA foi inaugurado em abril de 2025 em Santana, zona norte, para atender crianças e adultos. No entanto agendamentos estão suspensos devido à alta demanda.

Há previsão de abertura de outras duas unidades, nas zonas oeste e leste, até 2028. Já em dezembro de 2025, foi sancionada a Lei Federal nº 12.764, que incentiva a realização da investigação diagnóstica do TEA em pessoas adultas e idosas.

“Tenho vários amigos, inclusive do grupo trans como eu, com suspeita de autismo que acompanham pelo SUS. No público não existe teste, não tem preparação. E, quando chegam ao psiquiatra para laudar, ainda escutam que o teste não serve”, conclui.

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Jacqueline Maria da Silva

Jornalista, vencedora de prêmios de jornalismo como MOL, SEBRAE, SIP. Gosta de falar sobre temas diversos e acredita do jornalismo como ferramenta para tornar o planeta melhor.

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