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Na zona leste de São Paulo, paróquia oferece curso sobre maconha medicinal

Família conta que uso ajudou crianças com autismo e paralisia cerebral e relatam dificuldades para conseguir o produto por causa da pandemia

“Na minha casa pode faltar arroz e feijão, mas nunca a cannabis”. Andreia Rodrigues, 43, é evangélica, mora em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. 

Mãe das gêmeas Isadora e Isabela, 6, ela – que até um ano atrás nunca tinha tido qualquer contato com a maconha– espera pelo dia que possa ter a própria plantação.

Soube do uso medicinal por causa de um curso na paróquia São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital. A utilização melhorou a vida das crianças, que têm autismo, paralisia cerebral e apneia do sono.

“Fico me perguntando o que seria das meninas e do meu pai na quarentena sem a cannabis. A nossa vida era no hospital, a Isadora já chegou a ter 50 convulsões, em um dia. Já a Isabela que tem paralisia cerebral está começando a caminhar. O meu pai que tem parkinson teve uma melhora”, diz Andreia. 

Crédito: Arquivo PessoalAndrea e a família. Ela conta que o uso ajudou no tratamento das gêmeas

Ela conta que foram sete anos de noites mal dormidas, desesperadas com as crises das meninas. Após a primeira aula do curso, deu o óleo de cannabis para as crianças, e, em 15 minutos elas dormiram. 

Para não ficar sem a erva na quarentena, Andreia, se precaveu, comprou um lote a mais. “Nós usamos a artesanal e o preço subiu, teve a demora na entrega pelos Correios, com medo de faltar comprei uma boa quantidade”, conta Andreia. 

O curso sobre cannabis medicinal tem cerca de 200 alunos. Mas, por conta do coronavírus, as aulas presenciais foram suspensas e, agora, são realizadas na página do facebook MovReCam. As atividades têm a participação de especialistas que estudam o tema. 

À frente da paróquia há 38 anos, quem organiza o curso é o padre Ticão, que também é presidente da comissão Movimento pela Regulamentação da Cannabis Medicinal. 

O grupo discute na Câmara Federal a legalização da erva. O uso recreativo da maconha é criminalizado no país. No caso medicinal, há etapas burocráticas para as famílias que precisem. 

Crédito: DivulgaçãoPadre Ticão participa da frente que discute a regulamentação do uso da planta

“Já é comprovado cientificamente que pessoas doentes têm melhoras com o uso da planta e até chegam a ser curadas”, diz Padre Ticão. “Mas, ainda assim, com todos os estudos, demonizam a cannabis”. 

Atualmente, há autorização no Brasil para a fabricação de produtos com base na cannabis. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou há cinco meses a exportação, mas diz que ainda faltam estudos para ser considerado um medicamento.

CURSO

A 3 mil km de distância do Ermelino Matarazzo, em João Pessoa, na Paraíba, mora a estudante de odontologia Lanna Lidia, 20. Por lá, assiste às aulas sobre a erva terapêutica. “É muito bom, pois mesmo de longe, tenho acesso à informação de valor”, conta Lanna. “Pessoas preconceituosas participam do curso e mudam seu pensamento como eu”. 

O interesse da estudante veio após o pré-requisito do projeto de extensão, chamado Pex Cannabis, da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), onde Lanna estuda. 

“Pude ter acesso a explicação de especialistas na área da saúde, trabalhos científicos para download, depoimentos de pessoas com autismo, câncer e epilepsia que fazem o uso da maconha em seus tratamentos”. 

Para Fernando Eliziário, 50, coordenador do curso, a discussão da legalização da planta é importante, principalmente, no momento em que o país vive a pandemia do novo coronavírus

“Recebo muitos depoimentos de pessoas que precisam da planta medicinal, mas, ainda, não conseguiram a autorização para o plantio em casa. É difícil e caro importar medicamentos a base da maconha medicinal”, conta Eliziário. 

“O medicamento nas farmácias pode chegar a mais de R$ 1.500. Nessa pandemia é mais difícil ainda, pois o valor está subindo, no Brasil e no mundo”.

Por conta da necessidade para o tratamento de um tumor, a biomédica Gisele Thame, 61, moradora do litoral paulista, conseguiu a autorização do plantio em casa. Ela é a primeira mulher no litoral de São Paulo a ter a permissão.

Antes da liberação, passei dois anos plantando ilegalmente correndo o risco de ser presa ou processada por cultivar uma planta que fez meu tumor no cerébro regredir de tamanho”, conta Gisele.  

Crédito: Éric SaldanhaGisele Thame fez o uso para tratamento e acompanhou o curso dado pela paróquia

Foi por meio do filho Raul Thame, 36, que Gisele teve acesso à informação sobre o curso oferecido pelo Padre Ticão. “Sabia dos benefícios da canabidiol e sempre falava para a minha mãe, mas ela relutava quanto ao uso. Só depois de ver depoimentos de pessoas comuns e até de um padre, que decidiu experimentar”.

A psiquiatra e diretora geral da SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis Sativa Foco no Medicinal), Eliane Nunes, conhece o caso de Gisele. “A única opção “possível” era a cirurgia, mas a paciente optou por não fazer e seguir o tratamento com canabidiol”, afirma a psiquiatra. “Gisele ingere uma mistura que é feita de um óleo integral com o extrato da planta”, explica.

Com esta forma de extração, o canabidiol atua em conjunto com outros componentes para melhores resultados. “Além das propriedades do CBD, há na solução flavonoides, que têm efeitos anti-inflamatórios”, ressalta.

O alto custo da compra e a necessidade fez com que Andrea entrasse com um pedido de autorização judicial para conseguir o plantio em casa. “Faz um mês que dei a entrada. Minhas filhas tomam todos os dias o remédio Por uma prescrição médica, em oito em oito horas, vejo melhoras”.

REGULAMENTAÇÃO 

Há cinco meses, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância em Saúde) decretou que para a importação de canabidiol é apenas necessário receita médica, a qual deve ser feito no Portal de Serviços do Governo Federal. 

“A devolutiva de análises dos pedidos para a importação, atualmente, é de 10 dias. Porém, se o pedido tiver alguma pendência a ser resolvida (ex. documento ou informação faltando), esse prazo passa a depender do solicitante e da solução da pendência por ele”, afirma Anvisa. 

Em relação ao valor do medicamento que teve um aumento de R$ 500, a Anvisa diz que isso não é regulado por ela. 

Em abril, a agência autorizou o primeiro produto à base de cannabis para ser comercializado no país. Contudo, ressaltou que o “atual estágio técnico-científico em que se encontram os produtos à base de cannabis no mundo não é suficiente para a sua aprovação como medicamentos”.

Sobre o plantio dentro da lei é preciso ter um HC (habeas corpus). Depois fazer o pedido  na Justiça, demonstrando a necessidade do uso do medicamento e um relatório médico que ateste a evolução do quadro clínico no caso de a pessoa já fazer uso do medicamento.

Danielle Lobato

Jornalista, correspondente de Itaim Paulista desde 2016.

Itaim Paulista, São Paulo

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