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Agência de Jornalismo das periferias

Notícia

Publicado em 16.11.2021 | 17:22 | Alterado em 23.11.2021

Tempo de leitura: 8 minutos
Esta reportagem foi produzida com o apoio da WhatsApp Image 2021-06-29 at 16.57.05 (002)

Ao ouvir falar em acidentes de trânsito, qual é a primeira imagem que surge em sua mente? Colisão entre veículos, talvez? E antes de saber onde, de fato, uma batida ou atropelamento ocorreu, quais são as regiões que você associa aos relatos?

Relatório anual de sinistros da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), mostra que, em 2020, a proporção de casos que levaram à morte (em relação ao total de acidentes) foi maior nas subprefeituras mais distantes do centro, como Perus, Pirituba e Campo Limpo, do que nas regiões centrais.

Por outro lado, as ocorrências não fatais se destacam nas subprefeituras da Sé, no centro, na Penha e na Mooca, ambas na zona leste, e, como exceção, na Capela do Socorro, na zona sul.

Na nona reportagem da série sobre mobilidade nas periferias, a Agência Mural ouviu moradores de diferentes periferias de São Paulo para entender como é o tráfego nessas regiões e o que pode ser feito para melhorar a segurança local no trânsito, de modo que beneficie a todos: pedestres, motoristas, passageiros, ciclistas e motociclistas.

Placa de sinalização de alertas para motoristas de ônibus e ciclistas, na zona norte de São Paulo @Ira Romão/Agência Mural

SEGURANÇA NO TRÂNSITO

Em 2018, a Prefeitura de São Paulo iniciou o Plano de Segurança Viária, que tem o objetivo de reduzir o índice de mortes no trânsito para valor igual ou inferior a três óbitos a cada 100 mil habitantes até 2028. Atualmente, a cidade tem o índice de 6,5 mortes, segundo a CET.

Em toda a cidade de São Paulo, 9.837 acidentes de trânsito foram ocasionados ao longo de 2020. Esse número resultou em 777 sinistros que tiveram vítimas, sendo 469 casos com vítimas dentro dos veículos (colisões, choques, outros/sem informações) e 308 atropelamentos. Ao todo, 809 pessoas morreram.

Foi saindo de casa, no Itaim Paulista, distrito da zona leste, e indo em direção ao trabalho, em Pinheiros, zona oeste, que o analista de segurança da informação Breno Martins, 27, sofreu um acidente de moto por causa de uma condutora sem habilitação.

A situação ocorreu em março de 2020 na Vila Mara, bairro da zona leste paulistana. “Em determinado ponto do trajeto, uma motorista trocou de faixa, sem dar seta ou emitir nenhuma sinalização. Colidi a moto com a traseira do carro”, diz.

O impacto atingiu o analista e quebrou a ponta inferior da patela (osso da frente do joelho). Com isso, Martins precisou de procedimento cirúrgico e fisioterapia durante 30 dias.

“Mesmo em meio à pandemia, consegui o atendimento devido a urgência. Depois fiz mais 30 sessões de fisioterapia”, conta. “Felizmente não fiquei com sequelas; consigo dobrar meu joelho normalmente.”

Rua no distrito de Jaguara, na zona norte de São Paulo @Ira Romão/Agência Mural

Na zona oeste da capital, o distrito do Jaguara teve o maior coeficiente de ocorrências de trânsito com vítimas fatais em 2020: 41,8 óbitos para cada 100 mil habitantes – quase 14 vezes mais do que a meta de redução da Prefeitura. Os dados são do Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo.

Uma coisa que percebo bastante na região é que [os órgãos responsáveis] costumam mexer nas ruas e não colocam sinalizações”, comenta a estudante de gestão financeira Letícia Carvalho, 24, moradora do bairro. “Às vezes, até mudam as faixas por conta de ciclovias e fica aquela bagunça no trânsito. É bem complicado.”

Letícia, que trafega de carro com frequência pela região, avalia que no Jaguara o trânsito é intenso e perigoso. São constantes os sons de buzinas e de pneus cantando, além do “cheiro de queimado”. Ela também conta que é complicado fazer desvios pelas ruas, quando necessário, reforçando que falta sinalização adequada.

Foi justamente por não enxergar um buraco na via que, em janeiro deste ano, Letícia passou por um susto na rua Antônio Ayrosa que lhe rendeu um prejuízo de R$ 3 mil.

A estudante voltava de Osasco, município da Grande São Paulo, em meio a uma forte chuva. “Estava trânsito e vi que os carros começaram a retornar porque tinha um ônibus quebrado. Ao tentar fazer o retorno, a roda direita escorregou para dentro desse buraco”, relata.

“Estava em baixa velocidade, se estivesse em alta, com certeza teria dado um problema ou acidente maior.”

Para tirar o carro do buraco, ela teve a ajuda de outros motoristas e donos de estabelecimentos da região. Eles compartilharam que já haviam alertado sobre o problema.

“Ali é uma subida. Vira e mexe, aquela rua está com problema no asfalto e passa por reformas. Ônibus passa ali, carros, enfim. É uma rua estreita, de mão dupla”, acrescenta Letícia.

Carro estacionado em cima da faixa exclusiva para bicicletas @Ira Romão/Agência Mural

Dos 96 distritos de São Paulo, apenas 15 tiveram menos de três óbitos por 100 mil habitantes segundo o Mapa da Desigualdade. São eles: Marsilac, Vila Mariana, Sacomã e Ipiranga, na zona sul, Jardim Helena, Vila Curuçá, Ermelino Matarazzo, Lajeado, São Miguel Paulista e Vila Matilde, na zona leste, Vila Medeiros, na norte, Perdizes, na oeste, e Bela Vista, Jardim Paulista e Cambuci, no centro.

VIAS MAIS PERIGOSAS

Das dez vias com maiores índices de mortes no trânsito em São Paulo, oito passam por distritos periféricos.

O relatório da CET mostra que as subprefeituras de Perus, com 110 registros, e de Pirituba/Jaraguá com 336, estão entre as que menos contabilizaram sinistros com vítimas. No entanto, com 16% e 13%, respectivamente, elas estão entre as subprefeituras das periferias que concentraram maior porcentagem de acidentes com vítimas fatais no total de sinistros com vítimas por subprefeitura.

“Sempre foi complicado. Tem a questão de trânsito e quantidade de carros”, diz o analista contábil Denival Farias, 36, morador de Perus, zona noroeste da capital. “O pessoal que vai sentido Caieiras, Franco da Rocha e outros bairros do entorno, para não pagar pedágio, acaba cortando caminho por Perus”.

Uma das principais vias utilizadas, por quem deseja passar por dentro do bairro, é a Estrada de Perus, que pode ser acessada pela Rodovia Anhanguera. Via que Denival conhece bem e que foi cenário de um acidente que ele sofreu em dezembro de 2018.

Na época, Denival estava indo sentido Anhanguera, quando outro veículo atingiu seu carro. “Ele estava em alta velocidade e dei passagem. Mas [o motorista] estava embriagado e ao tentar me ultrapassar, bateu na lateral do meu carro, que rodou 360º e percorreu de ré, na contramão, uns 500 metros até [parar] no barranco”.

O acidente ocorreu em uma sexta-feira à tarde. “A minha sorte é que não tinha ninguém na Estrada. Como meu carro foi de ré, poderia ter batido em outro”, narra Denival recordando que, antigamente, pedestres costumavam andar pelo acostamento.

Acidente com pedestres teve 316 mortes em 2020 @Ira Romão/Agência Mural

Para Denival transitar durante a noite nessa mesma via é ainda mais perigoso, pois segundo ele falta iluminação e sinalização. “Moro em Perus há 36 anos e vejo pessoas reclamando dessa Estrada há anos.”

Moradora do Jardim Santa Lucrécia, no bairro do Jaraguá, na zona norte da cidade, Sara Helbok, 39, que atua como compradora, destaca os fatores que ela acredita que podem refletir os dados relacionados ao seu bairro. “Sempre vejo muitos carros quebrados e fluxo intenso [na região]. Além de pedestres atravessando fora da faixa.”

Em setembro passado, ao retornar do trabalho, por volta das 18h, Sara teve o carro atingido na parte traseira. A colisão ocorreu na Estrada de Taipas, próximo à sua casa. Mesmo parando para verificar o veículo, ela não constatou danos e seguiu seu trajeto, sem pegar os dados da motorista que a atingiu.

“Ao chegar em casa, meu marido, que é mecânico, levou o carro [para inspecionar] e viu que internamente tinha danificado”, lembra Sara. “Por fora não riscou nem amassou. Mas por dentro, devido ao impacto, desalinhou o porta-mala, entortou duas peças debaixo do carro e no total, gastei R$ 380.”

Dias após seu carro ser atingido, Sara testemunhou um acidente entre um carro e uma moto, na mesma via. “O carro não sinalizou que entraria à esquerda. O motociclista estava em alta velocidade e deu na lateral do veículo”, relata Sara. “Foi um acidente bem feio porque o rapaz parou muito longe, devido a pancada.”

Maioria das vítimas no trânsito em São Paulo são motociclistas @Ira Romão/Agência Mural

RISCOS

Além da condição das pistas e da sinalização, o consumo de álcool antes de dirigir também costuma estar associado a acidentes. Um estudo do governo estadual indicou mais de 5 mil sinistros de trânsito supostamente causados por embriaguez entre janeiro de 2019 e julho de 2020. Um em cada dez casos resultou em morte.

Segundo uma pesquisa do ONSV (Observatório Nacional de Segurança Viária), realizada pelo Instituto Datafolha em 2019, 68% dos brasileiros deixaram de dirigir após a ingestão de bebida alcoólica, preferindo utilizar aplicativos de transporte.

Outro levantamento, feito em maio deste ano pela 99, aplicativo de mobilidade urbana que patrocina esta série de reportagens, indica que 46% dos usuários de apps se sentem mais seguros contra acidentes de trânsito em transportes por aplicativo. Foram 1.635 usuários.

Em casos de acidentes pessoais durante as corridas, as empresas de transporte por aplicativo oferecem um seguro aos passageiros e motoristas parceiros (válido desde o momento em que se deslocam para buscar o usuário).

Sinalização em rua da zona norte de SP @Ira Romão/Agência Mural

Na 99, a cobertura é de até R$ 10 mil em despesas médicas, hospitalares e odontológicas e, quando necessário, a empresa afirma direciona as vítimas para atendimento psicológico. Em caso de acidentes fatais ou invalidez, o seguro é de até R$ 100 mil.

“Em caso de necessidade, a 99 oferece uma Central de Segurança formada por mais de 190 especialistas, entre psicólogos, engenheiros e ex-militares, que trabalham 24 horas por dia e 7 dias por semana no atendimento imediato e suporte humanizado aos usuários”, diz a empresa.

O seguro da Uber cobre R$ 100 mil em caso de morte acidental, até R$ 100 mil para invalidez permanente total ou parcial, e R$ 15 mil para despesas médicas hospitalares e odontológicas.

Ira Romão

Jornalista, fotojornalista e apresentadora de podcast. Atuou em comunicação corporativa. Já participou de diferentes projetos como repórter, fotógrafa, verificadora de notícias falsas e enganosas. Foi uma das apresentadoras do ‘Em Quarentena” e da série sobre mobilidade nas periferias. Ama ouvir histórias, dançar, karaokê e poledance. Correspondente de Perus desde 2018.

Eduardo Silva

Jornalista e social media. É apaixonado por cultura pop, humor, gatos e boas playlists. Correspondente de São Miguel Paulista desde 2017.

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