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Ponto a Ponto

Mulheres desviam de preconceito e assédio

Nos ônibus de São Paulo, elas representam 3% de todos os trabalhadores que dirigem os coletivos da capital

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Notícia

Publicado em 18.11.2021 | 19:26 | Alterado em 23.11.2021

Tempo de leitura: 6 minutos

Quando Marcileide Pereira Lopes, 52, decidiu ser motorista de ônibus, a decisão não foi bem vista por parte da família no Nordeste. “Você está doida, como você vai dirigir um ônibus daquele tamanho?”, questionou o pai dela, José Medeiros, 78, que foi enfático. “Não é pra você, é para homem”.

Marcileide não se intimidou. “Papai, eu gosto, eu quero”. Ela é uma das motoristas de carros grandes, como gosta de definir, da zona sul de São Paulo.

Moradora do Grajaú e dirigindo pela região de Cidade Ademar, ela antes trabalhou com faxina, como cobradora, manobrista, motorista do Atende (serviço da prefeitura que oferece transporte para pessoas com deficiência) até alcançar o objetivo.

“De repente, de uma simples diarista passei a motorista, para mim é uma vitória imensa”.

Marcileide trabalha na zona sul de São Paulo @Jacqueline Silva/Agência Mural

Marcileide não está sozinha, apesar de ainda ser uma exceção à regra. Segundo dados obtidos pela Agência Mural, via LAI (Lei de Acesso à Informação), dos 30 mil motoristas cadastrados na SPtrans, empresa que gere o serviço de ônibus da capital, 3% são mulheres – são 724 condutoras.

As regiões leste e sul concentram a maioria delas (36% e 30%, respectivamente), seguido da zona norte (27%) e da zona oeste (6%).

Essa presença é sentida no dia a dia. “Dificilmente uma mulher passa pela outra e não buzina, às vezes não sabe nem o nome, mas faz coraçãozinho”, relata Marcileide.

Diariamente, elas driblam preconceitos e o assédio para seguir na profissão. “Tinha gente que entrava no ônibus e quando olhava pra minha cara descia”, desabafa Islania Coelho dos Santos, 31, motorista que também atua na zona sul.

Islania conta as dificuldades de dirigir em São Paulo @Jacqueline Silva/Agência Mural

“Teve uma mulher que entrou e deu uma crise de riso nela. Um motoqueiro me deu o dedo e me chamou de vaca. Fiquei muito chateada.”

Ela começou no ramo do transporte público como cobradora do motorista Marciano, 32, com quem se casou há cinco anos e tem um filho de três anos.

O marido foi um dos seus principais incentivadores. Islania já dirigia carros de passeio, mas afirma que só depois de dirigir ônibus coletivo percebeu o que era estar à frente de uma direção.

Para ela, tornar-se motorista foi algo inesperado. Segundo conta, após quatro anos na função de cobradora, soube que o cargo poderia ser extinto e recebeu a oferta para ser condutora. Com o tempo, aprendeu a ter jogo de cintura no novo ramo.

“Você vai pegar um dia que a pessoa vai sair atrasada de casa e vai querer colocar a culpa em cima de você pra você fazer ela chegar a tempo. Tem que trabalhar a mente”, ressalta.

Ela explica que para impedir assédios, evita assunto com os passageiros “a pessoa me pergunta, eu respondo o necessário e falo para perguntar o restante para o cobrador. Acho que corta bastante”.

No caso de Simone Soares Barbosa da Silva, 35, até mesmo colegas faziam brincadeiras de mal gosto, como fechar o carro em que ela dirigia. “Os passageiros falavam coisas pra gente escutar”, diz sobre indiretas que já ouviu no ônibus.

Simone dirige há 12 anos e já passou por diversas linhas da zona sul de São Paulo. Conduz um ônibus articulado com cerca de 22 metros de comprimento, o maior da frota.

A inspiração para tornar-se motorista veio da família, com pai, Joel Barbosa, 56, e o irmão, Flavio Soares, 41, exercendo a mesma profissão.

“Gosto dos meus passageiros, ganho muito presente, consigo fazer bastante amizade com algumas pessoas. Muitos me conhecem pelo nome”, revela.

Entretanto, uma das coisas mais gratificantes para essa profissional é poder ser referência para outras mulheres com o mesmo desejo. “Sinto muito orgulho porque elas falam que passaram para o ônibus porque me seguiram, porque eu era um exemplo pra ela”, conclui.

Simone dirige há 12 anos na capital @Jacqueline Silva/Agência Mural

Quase 33 mil mulheres possuem CNH (Carteira Nacional de Habilitação) da categoria D, correspondente ao transporte em veículos que acomodem mais de oito passageiros, como os ônibus. Porém, pouco mais de 50% exercem atividade remunerada no estado, segundo dados do Detran (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo).

Para nossas entrevistadas, embora o número de mulheres nessa função ainda seja pequeno, há um caminho para entrar na área. O principal apontado por elas é a transição de carreira.

Quando você é cobradora, a própria instituição te dá oportunidade, porque o cobrador está no dia a dia do motorista, acompanhando”, explica Simone.

Ela também alerta que existe uma tendência de aumento do público feminino na profissão, pois hoje as pessoas encaram de forma mais natural mulheres condutoras.

Islania, contudo, diz acreditar que as chances são menores para as mulheres que desejam dirigir veículos maiores como caminhões. Lá fora, eles dão mais oportunidade para os homens, até mesmo por causa da profissão, a imagem de caminhoneiro que pega estrada, eles pensam mais em colocar um homem ali.”.

Para Marcileide, não existe competição entre homens e mulheres, mas o gênero feminino acaba tendo que provar muito mais a sua capacidade. Ela que já ouviu frases como “Vai pro tanque”, “Vai pro fogão”, “Mete marcha mulher”, “Anda”, “Fecha a porta”, garante que muitas vezes o preconceito vem das próprias mulheres.

Isso mesmo com as estatisticas que mostram que as mulheres dirigem com mais cuidado, apesar do rótulo do passado: “mulher no voltante, perigo constante”. Na verdade, 78% das ocorrências de trânsito no Estado de São Paulo envolvem homens, segundo dados do Infosiga.

Para Islania, a prudência da mulher garante a segurança. “Se ela falar “ali não passa”, pode vir todo mundo falando “passa”, mas ela não vai, e o homem eu já acho que arrisca mais”, explica.

“Todos os dias saio de casa pensando em dar o melhor para evitar algum acidente. Eu não tiro atenção dos retrovisores, nem dos carros que estão na minha frente para evitar colisão, freadas bruscas que é uma coisa perigosa”, complementa Marcileide.

Com seis anos na profissão, Marcileide hoje consegue passar melhor para a família a importância de seu trabalho. O pai, que é mecânico, hoje tem uma visão diferente daquela de quando ela contou a novidade de trabalhar como motorista.

Quando eu vou na minha cidade, ele faz questão de me levar na empresa que ele trabalha”, diz Marcileide.

“Essa é a motorista de ônibus em São Paulo”, diz o pai, José, aos colegas com orgulho sobre o desafio da filha. “Dirige ônibus naquele trânsito.”

Jacqueline Maria da Silva

Jornalista formada pela UNINOVE. Capricorniana raiz. Poetisa. Ama natureza e as pessoas. Adora passear. Quer mudar o mundo e tornar o planeta um lugar melhor por meio da comunicação. Correspondente de Cidade Ademar desde 2021.

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