• Informações apuradas pela Agência Mural por meio de dados e entrevistas, buscando ouvir todos os lados envolvidos e seguindo nossa linha editorial.
    Notícia

Mulheres usam arte em prol da visibilidade lésbica nas periferias baianas

Cantora, tatuadora e poetisa contam sobre suas descobertas, medos e como fazem o Dia da Visibilidade Lésbica ser algo cotidiano por meio dos seus trabalhos
A cantora e compositora Allana Sarah, a Dama do Pagode | Joyce Melo/Agência Mural

Música, poesia, arte visual e uma mensagem: “existe amor entre mulheres”. No domingo (29), é o Dia da Visibilidade Lésbica e entre lançamentos de clipes, livros e desenhos, estas vivências homoafetivas ganham rimas, cores e ritmos para representar mulheres que amam outras mulheres.

“Tudo o que eu canto é o que acredito, é o que penso e é o que quero fazer com que as mulheres acreditem também”, disse a cantora e compositora Allana Sarah, 26, de São Cristóvão, em Salvador, conhecida como a Dama do Pagode. 

“Tcheca com tcheca” é possivelmente o único hit com letra assumidamente sapatão do pagode baiano. A música, apesar de não ter ganhado clipe ou lançamento individual, tem mais de 11 mil visualizações no canal do YouTube da cantora. Já as canções “Pra te provocar” e “Tara” têm clipes musicais, nos quais Dama contracena com mulheres, evidenciando uma relação lésbica. Juntos totalizam mais de 52 mil visualizações.

Mas, a maior parte das letras da Dama retratam relações heterossexuais, o que gera muitos questionamentos do público. “Eu costumo dizer pra elas: ‘velho, eu tô cantando pra mulheres, a minha voz é dada para mulheres’. Quero passar uma coisa legal para as mulheres independente delas gostarem de homem, de mulher, eu tô falando do todo, do relacionamento, tanto homoafetivo quanto heterossexual, sem exceções”, observa a artista.

A poetisa Maiara Silva, 26, autora do livro “Escrevivências de uma preta” | Divulgação

Assim como a Dama, a poetisa Maiara Silva, 26, do bairro de Sussuarana, busca provocar reflexões com seus versos. Ao recitá-los, espera provocar mudança nas pessoas. “Que elas saiam com uma reflexão, com algum tipo de incômodo, alguma crítica a construir a partir dos meus versos, a partir do que eu trouxe das minhas vivências”, explica Maiara.

Com um capítulo do seu livro “Escrevivências de uma preta” dedicado ao amor por sua companheira Marina, a poetisa, que se diz orgulhosamente preta, de axé e periférica, afirma estar no caminho certo ao escrever sobre esse sentimento. 

“Foi muito feliz, foi muito certo escrever essas poesias, colocá-las para que o mundo pudesse conhecer o meu trabalho, dividir a minha história, as minhas vivências com tantas pessoas e alcançar diversos lugares, diversas mentes, sabe?”, observa Maiara. 

E pontua: “É pensar esse lugar de mulher lésbica de outra forma, de uma forma positiva e de que sim as mulheres podem se amar”.

Poesia da Maiara Silva dedicada ao amor pela sua companheira | Divulgação

Para a tatuadora, pesquisadora e ativista, Bruna Bastos, 30, da Fazenda Grande do Retiro, ou apenas Bastos, como prefere ser chamada, o preconceito é algo presente em diversas situações. “Qualquer lugar coletivo que você precise existir, é como se a gente não pudesse estar visível porque as pessoas são extremamente lesbofóbicas”. 

Bastos faz questão de enfatizar a sua identidade nos diversos campos em que atua. “Enquanto ativista a minha sexualidade é ponto focal em todas as discussões políticas, como pesquisadora, na academia, pesquiso letramentos de resistência sapatão. Enquanto tatuadora, a minha sexualidade também reverbera muito nos meus desenhos e em tudo que eu produzo”, contou Bastos.

Mas também espera que sua arte seja consumida por todos e que a lesbofobia deixe de colocar sua sexualidade acima do seu talento. “Não é porque eu sou um corpo sapatão, não é porque eu sou uma mulher que a minha arte é voltada apenas para mulheres. A minha arte é pro mundo”.

MEDO, ACEITAÇÃO E LUTA

Antes de representarem força e serem referência para suas iguais, o medo também as impediu de se assumirem como lésbicas mais cedo. Dentre os medos: a lesbofobia – nome dado à homofobia direcionado às mulheres – o medo do apagamento, fetichização ou objetificação, além da negligência na área da saúde e do estupro corretivo – violência sexual que se propõe a “consertar e a corrigir” a sexualidade da mulher.

De acordo com levantamento da Gênero e Número, a partir de dados obtidos no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação, do Ministério da Saúde), via Lei de Acesso à Informação, em média, seis lésbicas foram estupradas por dia em 2017, um total de 2.379 casos registrados. 

Em 61% dos casos notificados, a vítima foi estuprada mais de uma vez, pois é dentro de casa que as mulheres lésbicas são violentadas. Em 61% dos casos, a agressão ocorreu na residência, enquanto 20% aconteceram em vias públicas e 13% em “outros locais”. Os homens aparecem como autores em 96% das agressões sexuais.

A tatuadora Bastos conta que não encontrou acolhimento ao conversar com a mãe, o que foi uma surpresa, já que, segundo ela, havia um consenso entre as duas sobre sexualidade. 

Bruna Bastos, tatuadora, pesquisadora e ativista | Divulgação

“Dentro de casa é tudo muito mais complicado, né? Então, acho que o primeiro momento marcante pra mim são as primeiras brigas com minha mãe e para coibir ela começou a me cercear. A não me deixar sair, a resumir algumas amizades, alguns rolês e tals, uma tentativa de reverter esse processo”, explicou. 

Bastos conta que a situação com a mãe foi resolvida depois com tempo e diálogos. “Hoje, a relação é muito boa, muito fluida, e a gente se dá muito bem. Hoje, somos parceiras”.

Já para a poetisa Maiara Silva esse processo foi diferente. Quando ela decidiu conversar com suas irmãs sobre a atração e o amor por outra mulher, as familiares disseram que já sabiam, mas que estavam esperando seu processo de entendimento e aceitação.

“Esse processo vem de sempre, sabe? Porque não acredito que ninguém vire algo ou a gente nasce com algo, ou a gente descobre algo. E foi isso que aconteceu comigo. Eu nasci, depois eu descobri. Após o amadurecimento, após o processo de aceitação”, contou Maiara.

Mesmo sendo criada por duas mulheres, sua mãe e a esposa dela, a cantora Dama do Pagode conta que teve receio de se assumir, mas aos 15 anos quando revelou para a família encontrou mais força. 

“Eu tive o acolhimento da minha família, eles respeitaram e entenderam. E aí eu compreendi que não precisava ter medo da rua, porque dentro da minha casa eu era acolhida, então nunca senti medo”, disse.

A partir da sua experiência, a cantora acredita que a melhor forma de romper a barreira do medo é fazer com que primeiramente a família aceite e respeite, pois assim as pessoas de fora devem fazer a mesma coisa. “Se você não tem medo dentro de casa, você não precisa ter na rua”.

No trabalho foi diferente. No início da sua carreira como cantora, Dama diz que foi incentivada a esconder a sua sexualidade. “Eu tinha um empresário que me disse que não era legal expor minha orientação sexual, para poder conseguir ser aceita tanto pelas mulheres quanto pelos homens e tal”. 

Mas, àquela altura, cerca de três anos atrás, assumir seu amor por mulheres já era algo inegociável e ela se negou a seguir a instrução.

Para a artista, seu trabalho não apenas impacta, como também muda a vida das mulheres. “Tenho muitas mensagens de mulheres dizendo assim: ‘pow, Dama depois de ouvir suas músicas, depois de ouvir você eu me tornei uma pessoa melhor, sabe? Uma mulher de mais coragem, mais determinada’”.

VEJA TAMBÉM:
Rainhas trans do Samba Junino de Salvador têm trajetórias contadas em documentário
Após sofrer homofobia e racismo, jovem cria movimento e dá exemplo de diversidade

Bastos também diz ter sofrido discriminações. “Nossa sexualidade parece que é colocada como uma barreira em relação ao nosso trabalho e a gente precisa fazer dez vezes mais do que qualquer outra pessoa”, desabafou a tatuadora. 

Ela relata que trabalhou durante cinco anos numa empresa de ônibus e, quando se assumiu aos 21 anos, começou a vivenciar perseguições no trabalho. 

“O assédio aumentou muito mais, porque acaba se criando um fetiche muito grande em relação a esse corpo sapatão. Como o corpo que não foi acessado por outros homens e que enfim necessita desse acesso ou até o acesso pelo fetiche mesmo”, contou Bastos. 

Em um dos seus posts na rede social Bastos ressalta: “Eu, sapatona negra, não sou responsável em nenhum nível pela lesbofobia que sofro”. Como ativista lésbica que não performa a feminilidade padrão ela entende que, devido a estética, é impossível “disfarçar para ser aceita”, pois, segundo ela, a sua sexualidade chega antes de qualquer palavra.

Joyce Melo

Jornalista, correspondente de Sussuarana em Salvador, BA, desde 2021. Taurina que ama um desapego e pagodeira. Conecta seus conhecimentos em comunicação à sua vocação ao empreendedorismo com propósito e inovação social.

Salvador/BA

Comentários