‘Não escrevemos para pessoas, escrevemos com elas’, diz Sérgio Vaz sobre Cooperifa

Em 2007, os poetas Sérgio Vaz, 54, e Marco Pezão, 67, atuantes nas periferias da zona sul de São Paulo queriam fazer algo diferente para ampliar a divulgação de artistas do bairro e descentralizar o acesso à cultura: criar uma Semana de Arte Moderna da Periferia.

A referência era o movimento realizado na década 1920 e que marca a história de São Paulo pelo chamado modernismo brasileiro. Foi assim que nasceu a Mostra Cultural da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia).

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“Criamos a mostra com objetivo de revelar os nossos artistas juntando com artistas do centro, sempre com a ideia de agregar e construir pontes”, conta Sérgio Vaz.

Neste ano, a mostra chegou a 11ª edição e terá o show de encerramento no domingo (11), a partir das 15h, na praça do Campo Limpo, com participação de Odair José, Tássia Reis, Lino Krizz e Paulo Miklos.

A mostra teve duração de nove dias e promoveu intervenções artísticas e literárias em espaços públicos dos bairros do Jardim Pirajussara, Capão Redondo, Jardim Guarujá, Piraporinha, Jardim das Flores, Jardim São Luiz, M´Boi Mirim e Jardim Ângela.

Sérgio Vaz é poeta e criador da Cooperifa, que acontece semanalmente na zona sul de São Paulo (Léu Britto/Agência Mural)

Os organizadores contam que as atividades artísticas planejadas para a Mostra Cultural estão sempre comprometidas com a cidadania, já que a cultura é abordada como direito humano fundamental. Os temas refletem dificuldades diárias vividas por quem mora nas periferias.

“A mostra é de nós pra nós, essa é a diferença. Nela conseguimos mostrar pros nossos artistas, pras nossas crianças, pros nossos professores, pras nossas comunidades – são várias -, que nós somos possíveis”, diz Rose Dorea, 45, uma das organizadoras da Mostra e musa da Cooperifa. “O dia que a periferia descobrir a força que tem, ela muda o país”, completa.

RESISTÊNCIA POÉTICA

“O silêncio é uma prece, pessoal”, diz Cocão Avoz, 39. Rapper e poeta, ele usa o microfone instalado em um local estratégico no salão do Bar do Zé Batidão. O respeito à escuta é uma das características do Sarau da Cooperifa, evento realizado todas as terças-feiras, das 20h30 às 22h30, no Jardim Guarujá.

Rose Dorea, 45, é uma das organizadoras da Mostra e da Cooperifa (Léu Britto/Agência Mural)

O sarau antecede a mostra. A estreia foi em 2001 em um bar no Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e nasceu do desejo de ter um espaço para troca de experiências, esperanças e perspectivas usando como instrumento a arte e, principalmente, a poesia.

Em 2003, o evento mudou para São Paulo, no distrito do Jardim São Luís, onde até hoje todas as terças-feiras reúne cerca de 400 adultos e crianças para saborear poesia. “A Cooperifa é consciência e atitude. É uma emoção única ver crianças declamando. Acredito que nós estamos criando nosso futuro, uma nova sociedade”, conta Rose. “A Cooperifa é minha vida, meu porto seguro, onde eu posso dizer o que eu penso e posso respirar”, finaliza Rose.

Joh Contenção, 31, é poeta, compositor e rapper, e frequenta a Cooperifa há dois anos (Léu Britto/Agência Mural)

No último dia 6 de novembro, os organizadores da Cooperifa prepararam uma edição especial para comemorar os 17 anos de existência. Ou resistência, como gostam de dizer. O Bar do Zé Batidão estava cheio, eram mais de 60 poetas e poetisas inscritos para declamar.

Um dos participantes era Joh Contenção, 31. Poeta, compositor e rapper, ele mora no Jardim Letícia, também no distrito do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo. “Frequento a Cooperifa há dois anos e meio e pra mim ela serve como um refúgio da opressão diária”, afirma. “Posso dizer que nesses últimos tempos a Cooperifa tem sido uma mãe e um pai pra mim, porque aqui me sinto acolhido e quando eu saio estou renovado”, ressalta Joh.

Além dos organizadores já conhecidos no sarau, cada semana serve para ver uma renovação e encontrar novos admiradores do espaço. Alguns vêm de longe. É o caso de Thayna Manfredini, 15, estudante, moradora da Vila Gustavo, zona norte de São Paulo. “Sempre adorei a poesia do Sérgio Vaz. É a primeira vez que venho no sarau da Cooperifa e achei sensacional. Independente da distância, pretendo vir outras vezes e trazer mais gente pra conhecer”, conta Thayna.

A estudante Thayna Manfredini, 15, mora na zona norte de São Paulo e visita o sarau da Cooperifa pela primeira vez (Léu Britto/Agência Mural)

UMA ARTE

“A Cooperifa é um lugar onde todo mundo aprende e ninguém ensina”, ressalta Sérgio Vaz. Além da Mostra Cultural e do Sarau, Sérgio Vaz e a Cooperifa também são produtores de outros eventos na periferia da zona sul.

O Cinema na Laje promove exibições gratuitas de documentários e filmes alternativos para a comunidade; o Festival Várzea Poética, que oferece camisas para times de futebol de várzea que se comprometem a participar do Sarau; o Poesia no Ar, que espalha poesias pela cidade de São Paulo dentro de bexigas voadoras no mês de abril; o Chuva de Livros, que faz distribuição gratuita de centenas de livros; e o Ajoelhaço que no dia 8 de março (Dia Internacional das Mulheres) convida homens a se ajoelharem para pedir perdão às mulheres por séculos de machismo.

“Acho que a nossa cara é estar junto com a comunidade, não importa onde ela esteja. Se está na favela, na escola ou no campo de várzea. Nós não escrevemos para as pessoas, escrevemos com as pessoas. Então acho que é isso que a gente está aprendendo: falar com e não para”, finaliza Sérgio Vaz.

Gisele Alexandre é correspondente do Capão Redondo
[email protected]

0 thoughts on “Os anos esquecidos de São Miguel Paulista”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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