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Impedidos de guardar carros em condomínio, moradores acumulam prejuízo em Osasco

"Falta humanidade das autoridades", diz Izaneide. Ela vive no residencial Miguel Costa, onde não foi liberada a entrada dos veículos dos moradores

“Os carros ficaram boiando nas ruas, porque não podemos passar para dentro do condomínio”. A frase é de Izaneide de Souza, 36, moradora do Conjunto Residencial Miguel Costa, em Osasco, na Grande São Paulo, que viveu nesta semana um novo capítulo de uma novela. 

Ela, junto com outras centenas de famílias, teve prejuízos com o veículo por conta dos alagamentos que atingiram a cidade desde a noite do último domingo (9). O veículo da moradora foi atingido por lama e comprometeu o motor. “A gente estava seguro dentro de casa, mas nossos carros não”, lembrou.

Os proprietários dos automóveis vivem em moradias que foram entregues apenas após decisão judicial. O motivo foi um impasse entre prefeitura, Exército, CEF (Caixa Econômica Federal) e CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) desde 2018.

Com os prédios já terminados, o Exército questionou a construção ao lado do 4º Regimento de Infantaria e disse que não foi consultado, assim como a CPTM, a qual afirma que haveria riscos com o aumento de circulação ao longo da linha do trem. A situação só foi notada depois que tudo estava de pé.

Os imóveis foram liberados em junho do ano passado, quando a Justiça Federal determinou a entrega das chaves. O espaço está localizado ao lado da estação Quitaúna da CPTM. Apesar da entrega liberada, a entrada de carros particulares não foi permitida desde então, até que a prefeitura construísse um bolsão de estacionamento. 

Condomínio Miguel Costa recebeu 900 famíliasAna Beatriz Felicio/Agência Mural

As chuvas fortes de segunda-feira atingiram os veículos que estavam fora do condomínio – a região de Quitaúna e do km 21, onde fica o residencial, foi uma das mais afetadas em Osasco. “Não sei quantas pessoas foram vítimas disso, mas não foram poucas, pois somos obrigados a deixar nas ruas e isso causa muito sofrimento”, relata.

Para ela, o problema poderia ser evitado se um acordo entre a prefeitura, o Exército e a CPTM tivesse sido firmado. 

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“Sabemos que [os carros] ficaram mergulhados na lama, mas isso poderia ter sido evitado. Vamos pagar por uma coisa que poderia ter sido economizada, se não fosse a falta de humanidade das autoridades”, reclama. “Nem dá para entender o porquê de não poder atravessar a linha do trem”. 

No ano passado, a Justiça determinou que a prefeitura construísse um viaduto até abril de 2021. Orçada em R$ 17 milhões, as obras não começaram ainda, segundo informações dos moradores.

Terminal alagado no km 21, entre Carapicuíba e Osasco, fica próximo ao residencial Miguel CostaPaulo Talarico/Agência Mural

As instituições envolvidas foram procurados pela reportagem para falar sobre o caso. A CPTM respondeu que a Justiça determinou, em setembro de 2019, que a empresa permitisse a passagem, pelo portão da Linha 8-Diamante, somente de veículos oficiais, de emergência e de prestadores de serviços públicos essenciais. A Companhia diz cumprir a decisão.

A nota também afirma que veículos particulares não têm permissão para atravessar a via férrea e é dever da Prefeitura de Osasco garantir as condições de mobilidade para os moradores.

A Prefeitura, por sua vez, pontua que o impasse é causado pelo Exército e pela CPTM no acesso ao conjunto residencial. A nota disse que, para permitir aos moradores a ocupação de seus imóveis, o órgão municipal apresentou uma proposta de viaduto de acesso, com custo em torno de R$ 20 milhões, mas que depende de recursos financeiros. 

No ano passado, o Comando Militar do Sudeste disse que o empreendimento não obedeceu o decreto-lei 3.437/1941 que determina que novas construções devem ser feitas com a distância de 33 metros em torno de fortificações militares.

Na época, a CPTM alegou que a preocupação maior é a integridade. “O objetivo da Companhia é garantir a segurança de todos e manter a circulação atual de trens na Linha 8-Diamante”, disse a companhia. 

Prefeitura diz que Governo Federal atrasou repasses; ministério rebate que obra não avançou para repassesPaulo Talarico/Agência Mural

CHUVAS NA CIDADE

As fortes chuvas de domingo para segunda-feira (10) atingiram fortemente a cidade, que teve decretado estado de calamidade pública. Além dos problemas no transporte, como a interrupção da circulação dos trens na linha 8-diamante e 9-esmeralda, a zona norte de Osasco foi fortemente afetada. 

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Houve deslizamentos no Morro do Socó, onde três pessoas ficaram feridas e casas ficaram destruídas. Outras 81 famílias ficaram desabrigadas. Uma página foi criada pela prefeitura para quem quiser fazer doações. A gestão municipal anunciou que o valor do auxílio aluguel passará de R$ 300 para R$ 400.

O Morro do Socó fica na zona norte de Osasco, região tradicionalmente atingida pelas enchentes. Nela ficam os piscinões como o do Rochdale e do Baronesa. Porém, reclamações sobre a falta de manutenção são recorrentes.

Além disso, há outros impasses. No ano passado, a Agência Mural mostrou que obras previstas para resolver a situação não foram concluídas e estavam ao menos em três anos. É o caso da canalização do braço morto do rio Tietê.

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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