• Informações apuradas pela Agência Mural por meio de dados e entrevistas, buscando ouvir todos os lados envolvidos e seguindo nossa linha editorial.
    Notícia

Para pagar contas, moradores mudam de ramo e abrem novos negócios na pandemia

Pelas periferias de São Paulo, moradores tiveram de buscar novas alternativas; trabalhar com lanches, entregas e roupas foram opções

Maurício e Graciela, de Pirituba, na zona norte de São Paulo, e Tainara e Anderson, em Cidade Tiradentes, na zona leste, são exemplos de casamentos que também se tornaram parcerias de trabalho. Mas a pandemia de Covid-19 impôs um novo desafio: como driblar a crise para equilibrar as contas?

A alternativa para eles foi mudar o rumo dos negócios que mantinham em um período marcado pelo receio do desemprego e as dificuldades de quem depende do trabalho informal.

Até março, Maurício Luís Silva, 35, tinha como principal fonte de renda uma empresa de audiovisual. Com a queda nos serviços por causa do novo coronavírus, migrou para o ramo de lanches. 

A esposa Graciela Rocha, 33, também virou sócia e juntos investiram na criação da Pirituba Burguer & CIA, apostando no delivery. Além dos lanches, o cardápio inclui bolos caseiros, tortas e batatas fritas com acompanhamentos também são algumas das opções do menu.

“Abrir esse novo negócio no meio da pandemia foi um desafio para nós”, afirma. “A gente teve que estudar receitas e estudar o mercado. Tivemos que verificar se era sustentável ou não”.

Lanche da hamburgueria aberta por Mauricio e Graciela

O novo negócio do casal nasceu oficialmente em maio e tem como carro-chefe hambúrgueres feitos na brasa e pães artesanais. “Começamos a estudar [a ideia] e a verificar como funcionava as receitas dos hambúrgueres. Fizemos várias receitas para poder chegar no ponto do nosso hambúrguer”, explica Maurício.

No ramo de audiovisual há 15 anos, Silva abriu a própria empresa em 2012. Com a pandemia do novo coronavírus, teve que reduzir em 80% o quadro de funcionários fixos e prestadores de serviços com quem contava. 

Com a situação, decidiram investir nas habilidades do novo negócio. Fizeram cursos online para aprender a fazer os hambúrgueres e os pães, e tiveram que adaptar uma área goumert em casa para poder preparar tudo. “A gente teve que investir numa churrasqueira legal, para poder fazer o lanche, e um forno também para fazermos os pães”, pontua.

“Estamos agregando novidades no cardápio, que os clientes estão solicitando como hambúrguer de frango e hambúrguer vegano”.  

Mauricio e Graciela querem manter dois negóciosArquivo Pessoal

Apesar do pouco tempo no mercado, a hamburgueria já está sendo vista por seus gestores como um negócio em expansão. Uma franquia foi aberta em Perus e uma segunda está em processo de abertura na cidade de Caieiras, na Grande São Paulo. 

A expectativa de Maurício é conseguir retomar o negócio anterior e manter o atual. “Nessa pandemia, a gente viu a necessidade de ter um segundo negócio”, diz. 

DA ESCOLA PARA O MERCADO

Em Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, o casal Tainara Castro, 35 e Anderson Castro, 41, estão unidos no amor e também na labuta desde antes da pandemia. 

Ambos trabalhavam com o transporte escolar para uma escola particular do bairro há 14 anos, mas, com as aulas suspensas, a renda da família também quase zerou, pois alguns pais deixaram de pagar a matrícula e os que mantiveram o acordo pagam apenas 50% do valor.

Tainara e Anderson levavam alunos para as escolas em Cidade Tiradentes; agora entregam produtosArquivo Pessoal

A saída foi manter a van, mas com uma mudança. A parte traseira teve os bancos removidos. E, em vez de crianças, eles levam os produtos que retiram de uma distribuidora e entregam em diversos mercados. 

As entregas vão desde alimentos até produtos de limpeza. “Quase se compara ao valor do transporte escolar que tenho um ganho maior, mas que também exige muito mais responsabilidade”, comenta Tainara.

“Estou pensando até em trocar definitivamente para esse ramo. São 21 anos de casados e a nossa união está nos ajudando muito a passar por isso”, comenta.

VEJA TAMBÉM:
Motoboys das periferias relatam cuidados para se proteger da Covid-19
Se sair, não leve o coronavírus para casa; Veja orientações
Sepultadores relatam pressão no trabalho e o preconceito contra a profissão

Outra mudança é que, em vez de ficarem restritos ao bairro, agora eles se deslocam até a Rodovia Ayrton Senna, para cidades da região metropolitana de São Paulo, onde retiram as mercadorias que são entregues em mercados de diferentes regiões da capital.

“Passamos algumas dificuldades na adaptação, como comer marmita aquecida no motor da van, encontrar banheiros e conhecer outros bairros”, revela Tainara.

CLOSETS

Quem também achou uma saída mudando o ramo de trabalho em meio à pandemia de Covid-19 foi a recepcionista Tainá Martins, 24, que reside em Pirituba, zona noroeste da capital. Com o horário de trabalho reduzido para meio período o seu salário também foi cortado pela metade em um acordo com o empregador.

“Fiquei muito preocupada, pois tinha minhas contas e nesta situação em que o mundo está seria difícil arrumar outro emprego”, diz.

Tainá aproveitou a redução na jornada para trabalhar com a venda de roupasArquivo Pessoal

A situação fez ela investir no sonho de vender roupas. Tainá já tinha a página ‘Closet da Tai’ no Instagram e usou o salário para investir em algumas peças. 

Apesar do medo de investir a renda nas roupas, Tainá conseguiu boas vendas por meio das redes sociais e recuperou o dinheiro aplicado. “Em duas semanas de venda eu já tinha feito o triplo do meu investimento’, revela ela.

“Trabalhava período integral e era bem cansativo, não tinha tempo para pensar e produzir tanto como estou agora com a minha nova rotina de empreendedorismo. Sempre estou estudando melhorias para minha página e para atender sempre com um diferencial”, comenta.

Tainá também revela a preocupação com a renda nesse momento de pandemia de novo coronavírus. “Estava com esse desespero e consegui fazer com que isso me ajudasse a pensar em algo em que eu dependesse de mim mesma”, comenta.

As entregas de Tainá são feitas todas de carro e ela toma todos os cuidados, como higienizar as mãos e os produtos. Sendo parte do grupo de risco, ela tem uma patologia inflamatória crônica. “Tenho uma doença autoimune que se chama doença de still, então se eu pegar o risco é maior”, comenta.

Tainá Martins está animada com o crescimento do negócio. “Pretendo sair do meu emprego fixo o mais breve possível e quero investir no meu closet e ser a minha própria patroa”, comenta ela.

Ira Romão

Jornalista e fotógrafa, correspondente de Perus desde 2018. Atuou quase 10 anos em comunicação corporativa, dedicando-se à responsabilidade social e jornalismo corporativo. Apaixonada por contar histórias e registrar pessoas e momentos por meio da fotografia.

Perus, São Paulo

Giacomo Vicenzo

Jornalista, correspondente da Cidade Tiradentes desde 2018. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social. Iniciou sua carreira profissional no Datafolha, já publicou no UOL TAB e Revista Galileu. Gosta de contar e ouvir boas histórias. Adora seus gatos de estimação e não consegue viver sem senso de humor.

Cidade Tiradentes, São Paulo

Comentários