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Pedaço do Japão: Alto Tietê tem ‘capital do Pokémon’ e tradição de 70 anos no judô

Depois das Olimpíadas, conheça a região na Grande São Paulo marcada por presença nipônica que vai da agricultura às artes
Templo budista Nambei, em Suzano | Bruna Nascimento/Agência Mural

Os Jogos Olímpicos realizados em Tóquio, encerrados em 8 de agosto, e a Paralimpíada que começa no dia 24, fizeram o tema Japão estar em alta. Quando se fala do país oriental em São Paulo, logo se lembra dos postes vermelhos em estilo oriental, que ornamentam o bairro da Liberdade, no centro da Capital. 

Mas o que pouca gente lembra, ou sabe, é que o bairro da Liberdade não é o único “pedaço do Japão” no Brasil.

A região leste da Grande São Paulo, conhecida como Alto Tietê, também é amplamente influenciada pela cultura nipônica desde 1908, ano em que o navio Kasato Maru trouxe os primeiros imigrantes japoneses para o país. 

A influência nipônica na região é visível em quase todas as áreas: nas artes, nos esportes, na política, na ciência e principalmente na agricultura, o que ajudou no desenvolvimento econômico regional.

Nesta reportagem, a Agência Mural conta um pouco dessa história e como a influência marca a região em temas como esporte, agricultura e política.

MARCAS EM VÁRIAS CIDADES

Parque Centenário é um dos marcos nipônicos da região | Lucas Landin/Agência Mural

Por ser caminho entre o interior e a Capital, Mogi das Cruzes, a maior cidade da região, acolheu imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil.

Nas periferias da cidade, a comunidade japonesa e seus descendentes, os nikkeis, criaram um amplo sistema de produção agrícola de hortaliças, conhecido como “Cinturão Verde”, que ainda hoje ajuda a abastecer o mercado consumidor de São Paulo e do Rio de Janeiro. 

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Com o avanço do século 20, sete distritos se emanciparam de Mogi e deram origem às atuais cidades da região: Arujá, Biritiba-Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Poá, Salesópolis e Suzano. Com essa separação, a colônia japonesa ficou espalhada por toda a região.

Das cidades citadas, seis já tiveram prefeitos nikkeis: Biritiba-Mirim (Walter Tajiri, PTB, 2018-2020), Ferraz de Vasconcelos (Makoto Iguchi, PSDB, 1983-1988), Itaquaquecetuba (Mamoru Nakashima, PSDB, 2013-2020), Mogi das Cruzes (Junji Abe, PSDB, 2001-2008) e Suzano (Paulo Tokuzumi, PSDB, 2013-2016; e o atual prefeito Rodrigo Ashiuchi (PL).

CAPITAL DOS POKÉMONS

Mauricio Sumiya é fotógrafo e também um “mestre Pokemon” | Arquivo Pessoal

A ligação entre o Alto Tietê e o Japão, porém, não se perdeu no tempo. Na região, a cultura antiga trazida pelos japoneses também divide espaço com a cultura pop atual daquele país.

“A região sempre teve uma grande representatividade da colônia japonesa. E você pode ver isso pelos inúmeros templos budistas que tem por aqui”, conta o fotógrafo Maurício Sumiya, 50, filho de japoneses e morador de Suzano.

Ele cita o Parque Centenário [da Imigração japonesa], o Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes, várias associações japonesas espalhadas pelas cidades e a Praça dos Expedicionários, onde estão as misteriosas estátuas dos Pokémons, em Suzano. 

Desde 2018, a praça é decorada por esculturas de personagens do mangá japonês. As esculturas chamam atenção e são chamadas de misteriosas, porque apareceram repentinamente e até hoje o responsável não se identificou pela implantação delas.

Foi quando Suzano passou a ser conhecida como a “capital dos Pokémons”, atraindo fãs do desenho japonês até mesmo de outros estados. Antes disso, o local já era ponto de encontro para os moradores de todos os cantos da cidade que jogam “Pokémon GO”, um jogo para celular baseado no mangá. Sumiya é um dos frequentadores do local.

Mauricio Sumiya nasceu em Mogi das Cruzes e mora há 35 anos em Suzano. O pai e os avôs paternos e maternos são japoneses e ele morou no país durante duas passagens que totalizam 12 anos. 

O fotógrafo é fã dos Pokémons desde a década de 1990, quando morava no Japão. “Tenho um filho e na época ele era pequeno. Então, como toda criança, ele era louco por Pokémon. Era uma febre no Japão, aí eu automaticamente me envolvia”, conta.

Os personagens estavam presentes na vida do pai e filho por meio dos videogames, brinquedos e do PokePark, parque temático japonês com tema Pokémon. O lançamento de “Pokémon GO” chamou atenção de Sumiya, que instalou o aplicativo assim que foi lançado, em agosto de 2016, e desde então não parou mais de jogar.

“No dia que foi lançado já instalei e comecei a jogar. O curioso é que meu filho que era tão viciado no desenho,  não teve aquele entusiasmo todo [com o jogo]. E eu que ficava só acompanhando o anime acabei gostando”, relata.

Surgimento das estátuas em 2018 atraiu fãs do anime | Sabrina Silva/Divulgação

O Pikachu é a criatura favorita de pokémon Sumiya, por conta do jeito companheiro. Mas a pandemia reduziu a intensidade do jogo.

“Nesse período de pandemia a gente está jogando bem menos, porque o objetivo desse jogo era ir para a rua, interagir com as pessoas, caminhar, fazer exercício e com a pandemia isso não está sendo possível”, conta.

Apesar da praça não reunir jogadores como antes, o aplicativo ainda faz parte da rotina porque foi adaptado para ser jogado dentro de casa e o contato entre os jogadores se mantém por meio de grupos no WhatsApp, onde trocam informações, organizam batalhas e exibem os pokémons capturados. 

Os grupos chegam a reunir cerca de 100 integrantes. Mas os jogadores sentem falta de se reunir e ter pequenos atos heroicos com o universo do anime.

“A gente fez várias ações sociais arrecadando alimentos para ajudar pessoas que estavam necessitando, isso também era muito bacana.”, relembra Sumiya. No evento, um item virtual importante no jogo que ajuda a atrair pokémons raros era trocado por um quilo de alimento.

Para Diego Torres, 32, morador do bairro Quaresmeira, em Suzano, a aglomeração diminuiu e os grupos estão um pouco mais afastados e menores por conta da pandemia, mas o aplicativo tem importância desde que começou a jogar, em abril de 2019, até hoje.

“Tenho ansiedade e minha esposa tem depressão. O jogo nos ajuda muito, principalmente quando nos reunimos com a galera com altos papos, risadas e jogatinas”, conta.

JUDÔ

Professor de Judô e ex-aluno aluno da Academia Terazaki, Celso Toshiaki, 56 | Arquivo Pessoal

A tradição no Judô é outro ponto que aproxima o Japão da região. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, 13 atletas representaram o Brasil no Judô. Dois deles, Mayra Aguiar e Daniel Cargnin, voltaram para a casa com medalhas de bronze na bagagem.

Até o momento, o judô é a modalidade individual que mais rendeu medalhas olímpicas na história da participação brasileira na competição. São 4 medalhas de ouro, 3 de prata e 17 de bronze. Não há dúvidas que a arte marcial de origem japonesa está bastante difundida no Brasil. E a cidade de Suzano teve seu papel nisso.

Em 1952, Tokuzo Terazaki fundou o Clube Recreativo de Judô, mais conhecido como Academia Terazaki, na Vila Urupês, em Suzano. A instituição foi uma das primeiras academias de judô no país.

Tokuzo era um imigrante japonês mestre em judô e jiu jitsu que veio para o Brasil na década de 1930 para dedicar-se à agronomia. Enquanto trabalhava no campo, começou a construir a academia Terazaki. O objetivo do judoca era difundir a arte marcial. Na época, não cobrava mensalidade e priorizava o acesso de todos.

Tokuzo Terazaki, fundador do Clube Recriativo de Judô | Arquivo Pessoal

Celso Toshiaki, 53, é professor de judô. Ele foi aluno de Tokuzo Terazaki e após se graduar passou a ministrar aulas na academia até o início de 2020.

“No clube Terazaki, todos dividiam o tatame, sem diferença. Tinha pessoas da periferia, do centro, jovens, idosos, descendentes e não descendentes. O importante eram os ensinamentos”, afirma.  

Celso e outros professores passaram a dar aulas no local nos anos 1980 e continuaram com o legado do mestre, que morreu em 1975. 

“Aqui na cidade tem outras academias, mas a mensalidade é alta e nem todos têm condições de pagar. Por isso sempre priorizei os alunos com baixa renda para facilitar o acesso de todos”, conta. 

O professor Evandro Nascimento, 46, mora no bairro Boa Vista, periferia de Suzano. Ele e o filho, foram alunos de Celso. Evandro conta que matriculou o filho na academia Terazaki em 2012 e meses depois começou a fazer aulas também.

“Sempre admirei a história do local e o método de ensino. Além do Celso, também tive um professor negro. Isso me animou bastante”, conta.

Para Evandro, as aulas de judô foram fundamentais na formação do filho. Ele relata que Matheus ganhou autoconfiança e fez boas amizades.

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A aposentada Arlete Bando, 58, moradora do bairro Casa Branca, também foi ex-aluna da Academia Terazaki. Ela começou a fazer aulas em 1980 e parou um ano depois.

Apesar de não ter permanecido por muito tempo, Arlete participou de diversas competições, entre elas o Campeonato Paulista, o Torneio Municipal de Suzano e também o Campeonato de Cocuera.

“Eu ganhei algumas medalhas, mas o mais importante era o relacionamento entre alunos e professores. Era maravilhoso”, conta.

A arquiteta e restauradora Beatriz Gouvêa, 28, escolheu a história do Terazaki como tema do Trabalho de Conclusão de Curso da especialização. Ela afirma que a academia de Judô foi responsável por disseminar a arte marcial, não apenas em Suzano, mas também no Brasil. 

“O Terazaki não é apenas um marco na imigração japonesa em Suzano, mas um símbolo da importância do esporte em uma sociedade”, relata.

Atualmente as aulas na academia estão paralisadas por conta da pandemia e para garantir que a instituição continue funcionando, Beatriz promoveu um abaixo assinado que contou com quase 3 mil assinaturas em março do ano passado.

“A área que a academia está localizada é bastante visada pelos empreendimentos imobiliários. Para evitar o interesse de construtoras fiz esse abaixo assinado”, explica.

*CORRIGIMOS: Texto alterado em 16 de agosto, às 15h08, para informar que Tokuzo Terazaki morreu em 1975 em vez de ‘se aposentou em 1986’ como publicado inicialmente. 

Bruna Nascimento

Fotojornalista, correspondente de Suzano desde 2019. Sonhadora, observadora e ouvinte de 'causos' profissional. Corinthiana maloqueira e sofredora (graças a Deus), boa sujeita, pois gosta de samba e tal qual Candeia na voz de Cartola, precisa se encontrar e vai por aí a procurar.

Suzano

Lucas Landin

Estudante de políticas públicas e correspondente de Poá desde 2015. Amante da política, das ferrovias e dos felinos. Entusiasta do transporte público.

Itaquaquecetuba

Renan Omura

Jornalista, correspondente de Suzano desde 2019. É autor do livro-reportagem Caputera: chacinas em Mogi das Cruzes e finalista do 12° Prêmio Santander Jovem Jornalista. Apaixonado pela escrita, acredita que a comunicação é uma ferramenta para diminuir as lacunas sociais.

Suzano

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