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Prefeitura tira verba de obra antienchente em bairro que ficou ilhado na zona leste de SP

Dinheiro foi remanejado para outros setores e causou protesto de mais de 100 moradores na região; em março, população teve de improvisar um barco na região
Moradora do Itaim Paulista, Rita Ferreira protesta contra corte de verbas para obrasDanielle Lobato/Agência Mural

A chance de resolver o problema das enchentes no Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, ficou mais remota. Enquanto as atenções estão voltadas ao combate do novo coronavírus, a Prefeitura cancelou o repasse de um pouco mais de R$ 8,4 milhões que seriam destinados a serviços de combate às enchentes.

A decisão causou indignação dos moradores que decidiram fazer uma manifestação, no último sábado (18), pela manhã, na praça Valdomiro Macena Farias.

Aos gritos de respeita a zona leste, cerca de 100 pessoas compareceram com máscaras e cartazes com ditos: “Bruno Covas devolva nosso dinheiro”, “Limpe o Rio Tietê”.

“Respeita a zona leste é um grito de socorro. Não poder ter bens materiais ou qualidade de vida, por conta de uma obra que não sai do papel é muito triste”, diz Antônia de Cássia, 65.

A região foi fortemente afetada neste ano pelas chuvas. Na época, a prefeitura decretou estado de emergência, o que permitia a administração fazer obras para conter os danos.

Após pressão dos moradores, a prefeitura destinou a verba de R$ 8 milhões para a execução do projeto de contenção das margens do córrego Itaim. Além disso, previu R$ 411 mil para melhorias nos bairros Jardim Helena, Vila Seabra, Vila Itaim, Vila Aymoré e Chácara Três Meninas.

No entanto, em 16 de junho, a prefeitura publicou o decreto para o remanejamento da verba para cobrir despesas nas secretarias municipais de subprefeituras e da Pessoa com Deficiência.

“A nossa espera pela obra já dura anos, mesmo com um planejamento orçamentário, que só fica na promessa, móveis são levados pela água, sonhos e até vidas”, diz a líder comunitária Clarice Ferreira, 36. Em junho, uma nova chuva voltou a alagar as vias da região.

A expectativa era de que o projeto melhorasse a situação do bairro e outros da região, como a Vila Alabama, onde moradores instalaram uma sirene para alertar sobre os riscos de alagamento.

CASA À VENDA

As enchentes têm feito que parte da população avalie deixar o bairro. Moradora da Vila Seabra, a vigilante Juscelia Souza, 40, conta que colocou a casa à venda devido aos alagamentos. “Quando vejo que a previsão é de chuva, não consigo dormir. Fico ansiosa e com muito medo”, relata Juscelia.

Todo ano a rua Tite de Lemos, onde Juscelia mora, vira manchete. Por lá, para se locomover sob a água, os moradores precisam improvisar com teto de kombi ou caixa d’água, num período de três meses porque a água não baixa.

“Peguei trauma de enchentes, não quero mais ficar aqui. Já perdi muita coisa com as cheias. Saúde mental, paz, emprego e bens materiais”, conta Juscelia.

Em 2018, a vigilante de monitoramento fez um procedimento cirúrgico histerectomia vaginal – a retirada do útero. Ela se recorda que a cirurgia teve complicações e precisou ser retirada de casa em uma caixa d’água como mostra o vídeo.

“Os moradores improvisaram a caixa d’água para eu poder ir ao hospital porque meus pontos estouraram”, relata Juscelia. “Na época, eu fiquei sozinha, durante três dias, porque meu filho não conseguia entrar dentro de casa”.

Manifestação na zona leste questiona demora no projeto

Manifestação na zona leste questiona demora no projetoEuclides Mendes e Vítor Hugo

Quem também possui traumas é Alex Souza, 36, segurança e morador da Vila Itaim. Em janeiro, deste ano, ele teve que carregar o amigo nas costas até o hospital Santa Marcelina, que fica a 5 minutos da sua moradia.

“O meu vizinho levou um choque ao retirar a geladeira da tomada para não queimar o motor. Mas a carga foi tão grande e ele acabou falecendo antes mesmo de chegar ao hospital”, diz Souza. “Uma das piores cenas que já presenciei e que não quero mais passar”.

NOVELA ANTIGA

Há 11 anos, o ex-governador José Serra lançou o projeto do Parque Linear na região. O programa tinha como objetivo aumentar a capacidade de absorção de água na bacia do Alto Tietê. No entanto, de acordo com depoimentos dos moradores, o projeto foi alterado e aumentou o número de queixas de enchentes.

“Na época da construção era campo, quadras, clube, a coisa mais linda. Depois foram vendo as dificuldades e acredito eu, para não gastar mais, foram apenas construindo paredes em todo lugar”, conta o líder comunitário, Euclides Mendes.

Cartaz da manifestação realizada no último sábado (16)Danielle Lobato/Agência Mural

“Quando chove a água não tem para onde escoar por conta da construção do parque e fica parada. Quem sofre mais são as pessoas que moram ao redor”.

De acordo o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), as intervenções consistem na construção de um muro de contenção no córrego Itaim pela subprefeitura do Itaim Paulista. Os moradores relatam, que a previsão dada a eles, anteriormente, era para março.

Em contrapartida, a Subprefeitura do Itaim Paulista informou que não há previsão para o início das obras e nem retorno da verba retirada.

Danielle Lobato

Jornalista, correspondente de Itaim Paulista desde 2016.

Itaim Paulista, São Paulo

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