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Projeto de educação sexual da zona sul tem anúncio banido nas redes sociais

Em Cidade Dutra, região sul de São Paulo, criadoras da Vulvárias reclamam de bloqueio após conteúdo ser confundido com pornografia

No começo do ano passado, as psicólogas Dayana Almeida, 26, e Elânia Francisca, 35, postaram em duas redes sociais um anúncio com a imagem de uma vulva de plástico, acompanhada de um livreto informativo sobre sexualidade.

As duas são criadoras da Vulvárias, iniciativa que usa a tecnologia com o objetivo de quebrar padrões corporais. Apesar de serem materiais educativos, minutos depois da publicação, o conteúdo foi banido do Facebook e Instagram. 

O anúncio tinha palavras como vulva, vagina e clitóris, além da imagem de uma genitália, feita de plástico em uma impressão 3D. 

Projeto desenvolve vulvas educativas de plástico | Reprodução/Facebook

Moradoras do bairro Jardim Ana Lúcia, distrito de Cidade Dutra, zona sul de São Paulo, elas ficaram na dúvida sobre o motivo da ação. 

“Não sabemos se as palavras foram o motivo do bloqueio do anúncio ou se a imagem da vulva educativa gerou tal ação”, diz Dayana. “De qualquer forma, acreditamos que toda palavra que remeta à região genital gere esse bloqueio.”

“Tínhamos pensado que as palavras vulva e vagina poderiam ter sido as motivadoras, mas hoje pensamos que pênis e ânus também são palavras que podem ser bloqueadas”, comenta Elânia. “Contudo, nosso material era de cunho educativo e não visava a promoção de conteúdo pornográfico”, completa.

Parte do trabalho da dupla é construir vulvas educativas e clitóris de formatos variados para a educação sexual, além de promover o autoconhecimento e a diversidade dos corpos humanos. 

Os materiais produzidos são utilizados em escolas, oficinas sobre sexualidade ou em clínicas ginecológicas.  

Dayana Almeida e Elânia Francisca são as criadoras da Vulvárias | Reprodução/Facebook

Segundo a dupla, o bloqueio do anúncio pode ter acontecido pela questão ser unicamente relacionada à erotização de corpos com vulva ou de corpos com pênis que não sejam cisgênero. 

“Junto com a questão de gênero está também a questão de tratar a sexualidade como algo relacionado unicamente com a pornografia”, inclui Elânia.

Elas comentam que uma prova disso são os comentários que recebem via redes sociais. Alguns dizem querer produtos de “carne humana” ou perguntam se podem penetrar os produtos. 

“Ainda existe uma ideia de que vagina é sinônimo de vulva e que se é ‘um buraco’ está a serviço de algo que possa penetrá-lo”, afirma Dayana. 

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Outro exemplo citado por elas é a questão dos mamilos. “Os mamilos de pessoas com seios são proibidos nas redes sociais, mas os mamilos de homens cisgênero, está tudo bem mostrar”, acrescentam.

As psicólogas consideraram entrar em contato com o Facebook e Instagram com um pedido de reavaliação, mas desistiram. 

DIRETRIZES DE PUBLICAÇÃO

Em suas políticas disponíveis aos usuários, o Facebook avisa que nudez ou outro conteúdo de sugestão sexual, discurso de ódio, ameaças a um indivíduo ou grupo, conteúdo que possua autoflagelação ou excesso de violência e perfis falsos violam as diretrizes da plataforma. 

No item “Padrões da Comunidade”, a empresa afirma que restringe a exibição de imagens com nudez ou atividade sexual porque algumas pessoas podem ser especialmente sensíveis a esse tipo de conteúdo. “Removemos por padrão imagens sexuais para impedir o compartilhamento de conteúdo de menores ou não consentido”, diz um trecho. 

Por outro lado, a regra não se aplica a conteúdos educativos, como no caso da Vulvárias. “As restrições relativas à exibição de atividade sexual também se estendem ao conteúdo digital, salvo quando publicado por motivos educativos, humorísticos ou satíricos.”

O Facebook diz ainda que as políticas a respeito de nudez ficaram mais flexíveis com o passar do tempo. De acordo com  a rede social, a nudez pode ser compartilhada por variadas razões, como forma de protesto, conscientização sobre uma causa ou por motivos médicos e educacionais. “Quando tal intenção fica clara, abrimos exceções para o conteúdo”, garante. 

No caso dos mamilos, a plataforma admite que permite somente em casos específicos. “Mamilos femininos descobertos, salvo no contexto de amamentação, parto e momentos pós-parto, situações relacionadas à saúde (por exemplo, mastectomia, conscientização sobre o câncer de mama ou cirurgia de confirmação de gênero) ou um ato de protesto.” 

Comprado pelo Facebook em abril de 2012, as diretrizes do Instagram indicam os mesmos critérios. 

A Agência Mural procurou as plataformas, mas até o fechamento do texto não obteve resposta. 

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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