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Rede de empreendedoras negras capacita negócios da periferia de SP

Preta Comprando de Preta surgiu com três amigas da universidade e atua nas redes sociais e com cursos para empresárias

De acordo com o IBGE, as mulheres negras, contingente que reúne pretas e pardas, representam 28% da população brasileira – maior grupo populacional do país. 

Mesmo assim, a jornalista Thaís Borges, 26, carioca moradora do Butantã, na zona oeste de São Paulo, já ouviu algumas vezes que quase não tem mulheres negras exercendo algum tipo de profissão ou prestando serviços de diversas áreas. 

Para mudar esta percepção, ela criou junto com as amigas Leila Evelyn, 24, nascida e criada na Cidade Tiradentes, e Alyne Cristine, 23, do Aricanduva, ambos na zona leste, o ‘Preta Comprando de Preta’, um grupo no Facebook que é uma rede de troca, compra e venda entre empreendedoras negras de todo o Brasil.

“Com essa rede, aproximamos muitas mulheres e pudemos conhecer estilistas, costureiras, trancistas, psicólogas, dentistas, ginecologistas e tantas outras mulheres que são donas do seu próprio negócio”, relata.

Em 2015, Leila cursava relações públicas e Thaís estudava jornalismo na Fapcom (Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação), onde se conheceram. Ambas começaram a questionar as referências que elas estavam estudando e em quem o mercado de comunicação tinha como inspiração: a maioria pessoas brancas de classe média alta.

Crédito: Felipe CardosoLeila, Alyne e Thais criaram grupo para tratar de empreendedorismo na periferia

Com este questionamento, elas iniciaram um movimento na faculdade nomeado ‘Enegrecendo a Comunicação’, que tinha o objetivo de trazer para aquele ambiente, por meio de painéis e palestras, discussões e conteúdos do mercado com um olhar de profissionais negros.

O movimento se consolidou, e no ano seguinte, elas começaram a disponibilizar espaços para que afroempreendedoras pudessem vender e expor produtos durante os painéis que aconteciam no semestre. 

Para facilitar o contato, criaram um grupo no Facebook. A página começou a crescer além do esperado e Alyne, que estudava jornalismo na mesma faculdade, conheceu a iniciativa e começou a ajudá-las na moderação das mensagens.

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Atualmente são mais de 8.000 mulheres negras que abriram negócios compartilhando diariamente suas histórias, produtos, expertises e dicas. 

ELA FAZ HISTÓRIA

Em 2019, devido ao crescimento do grupo, Leila, Thais e Alyne foram convidadas pelo Facebook para o projeto “Ela Faz História”, uma iniciativa da rede social que busca contar histórias de mulheres empreendedoras e conectá-las com outras mulheres mentoras que gerenciam negócios pelo Brasil.

Foi neste momento que elas se entenderam como empreendedoras e começaram a realizar consultorias sobre comunicação e marketing. “A nossa atuação é utilizar a nossa expertise de comunicadoras para fazer com que essas mulheres hackeiem o sistema utilizando as ferramentas que têm no próprio smartphone”, diz Thaís.

Crédito: DivulgaçãoGrupo em evento de um dos clientes

Hackear o sistema é importante para estas mulheres. Saber como utilizar as ferramentas disponíveis é um dos desafios desses novos negócios, em um universo repleto de desigualdades.

Um levantamento de 2019 do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) mostrou que elas são apenas 17% dos empreendedores do país e ganham uma média de R$ 1.384 por mês. O valor equivale a cerca de metade do que as empreendedoras brancas recebem (R$ 2.691) e apenas 42% do valor recebido por homens empreendedores brancos, de R$ 3.284. 

Além disso, a atuação em marketing digital supre uma demanda que é estrutural dos afroempreendedores do país.

De acordo com o Instituto Locomotiva, apenas 23% dos empreendedores negros se consideram aptos a trabalhar com ferramentas digitais, enquanto mais da metade acha que possui um perfil “pouco digital”.

As redes sociais são a principal ferramenta digital destes empreendedores, sendo que o Whatsapp lidera com 64% de uso, em seguida vem Facebook com 24% e Instagram com 5%. 

Além disso, entre os desafios dessas mulheres, elas citam a autoestima. A questão de acreditarem no potencial de um projeto e de como podem utilizar novas ferramentas para crescer.

A confeiteira Agricia Ribeiro, 20, abriu a confeitaria há seis meses. Ela entrou no grupo por meio da indicação de uma amiga.

Ela recebeu consultoria de como decidir os preços dos produtos, qual a melhor plataforma digital para o negócio, como gerenciar o tempo e a rede social da empresa.

Crédito: Arquivo PessoalAgricia Ribeiro participou de cursos promovido pela rede

Moradora de Cachoeirinha, na zona norte, ela participou de palestras em espaços que até então dificilmente teria oportunidade de conhecer. “No grupo, me sinto em casa, sabe? Senti como se fosse capaz de tudo”, diz.

Roseléia Passos da Silva, 39, é sócia de uma empresa de comidas saudáveis junto com a irmã. Elas  preparam refeições e também prestam serviços em eventos.

Ela conta que a experiência com o ‘Preta’ trouxe uma visão de negócios para ela completamente nova: até então a ideia de estar em uma rede com empreendedoras negras e fazer o capital da população preta girar entre si era algo que não passava por sua cabeça.

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Após a parceria com o Facebook, Leila, Thaís e Alyne começaram a realizar trabalhos com grandes marcas nacionais. Ja fizeram um Workshop de comunicação em uma startup do ramo de alimentos, e estrelaram uma propaganda sobre micro-empreendedorismo de um banco.

Elas dizem que querem ir ainda mais longe. Os próximos planos é esboçar uma ampliação da rede para também alcançar homens negros que empreendem: “Nossa ideia é devolver para comunidade negra o que aprendemos nas nossas experiências em agências e na faculdade.”, diz Alyne.

Gabriel Lopes

Designer de formação, publicitário de carreira e correspondente do Aricanduva desde 2019. Ama séries, música e ouvir histórias das pessoas. É corinthiano, pisciano e, claramente, sofredor.

Aricanduva, São Paulo

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