APOIE A AGÊNCIA MURAL

Colabore com o nosso jornalismo independente feito pelas e para as periferias.

DOE MENSALMENTE PELO CATARSE

OU

MANDE UM PIX qrcode

Escaneie o qr code ou use a Chave pix:

30.200.721/0001-06

Agência de Jornalismo das periferias
Rolê

Referência no vôlei sentado, Suzano atrai atletas e coleciona medalhas em Jogos Paralímpicos

Cidade do Alto Tietê contou com cinco atletas na seleção brasileira feminina de vôlei sentado, medalhista de bronze em Tóquio; e elas já miram Paris 2024

Image

Notícia

Publicado em 18.10.2021 | 19:53 | Alterado em 23.11.2021

Tempo de leitura: 6 minutos

Já conhecida como “capital do vôlei” graças aos títulos paulistas conquistados nas décadas de 1990, Suzano não deixou de ser referência nos saques e voleios, apenas mudou a altura da rede. No vôlei sentado, versão adaptada para atletas com deficiência, a cidade do Alto Tietê também coleciona títulos e medalhas.

Nos Jogos Paralímpicos deste ano, em Tóquio, cinco das 12 atletas convocadas para a seleção feminina vieram do Sesi Suzano — time 14 vezes campeão brasileiro da modalidade. No começo do mês de setembro, elas venceram o Canadá e conquistaram o bronze paralímpico pela terceira vez consecutiva.

Image

Atletas da seleção brasileira de vôlei sentado exibem medalha de bronze e mascotes dos Jogos de Tóquio. Da esquerda para a direita: Laiana Rodrigues, Nathalie Filomena, Gizele Costa Dias e Ana Luísa Soares @Bruna Nascimento/Agência Mural

A cidade conta com nomes que vieram de muito longe para se integrar ao time, como é o caso da Laiana Rodrigues, de Manaus (AM), mas também de crias da região, como Gizele Costa Dias, de Mogi das Cruzes, também na Grande São Paulo.

Gizele, 43, é a mais experiente da seleção e esteve presente em todas as importantes conquistas do país na modalidade: três medalhas de prata em Jogos Parapan-Americanos e dois bronzes em Jogos Paralímpicos.

De 43 anos de vida, 32 foram dedicados ao vôlei indoor. Ela jogou profissionalmente por diversos times de São Paulo até 2009, quando precisou passar por uma cirurgia no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo.

“Nessa cirurgia aconteceu uma intercorrência, não é bem erro médico, e eu fiquei com um pedacinho do nervo fibular dilacerado. Portanto, fiquei com o pé caído”, relembra a líbero da seleção.

No mesmo ano em que passou pela cirurgia ela foi apresentada ao vôlei sentado. “Nem sabia que eu me caracterizava como uma deficiente física.”

Além de ter a atleta mais experiente da seleção, Suzano também tem a caçula do time. Ana Luísa Soares, 20, é a central da equipe e conheceu o esporte praticamente neste ciclo paralímpico, em 2016.

Image

Ana Luísa Soares, 20, é a central da equipe de Suzano @Bruna Nascimento/Agência Mural

“Não conhecia a modalidade, cheguei um dia aqui só para conhecer, nem sabia se queria ficar, achava estranho. Mas aí eu falei ‘vou ficar para ver’, gostei e estou aqui até hoje”, conta Ana, que sequer gostava de jogar vôlei nas aulas de educação física.

Ana é de Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Ela ficou com uma limitação de movimento e perda de força na perna direita após um acidente de moto aos 14 anos.

Por conta da indicação de uma psicóloga, ela conheceu o Sesi e passou a praticar o vôlei sentado. Em 2019, com apenas três anos no esporte, já havia sido convocada para a seleção.

“Foi uma loucura, eu amei. Aprendo muito com as convocações da seleção. Tem vezes que eu paro olhando [para as atletas do time] e falo: ‘olha só quem são minhas amigas, duas vezes medalhistas paralímpicas’”, diz Ana, também medalhista.

QUATRO HORAS DE TRENZÃO PARA TREINAR

Entre as atletas de São Paulo, a ponteira Nathalie Filomena, 31, era a que mais sofria para ir ao Alto Tietê. Parte do time desde 2006, quando tinha 16 anos, ela morava no Campo Limpo, zona sul da capital, e enfrentava quatro horas de viagem para chegar ao Sesi em Suzano.

“Na época da faculdade, eu ia de trem no horário de pico, demorava quatro horas para chegar. Tinha dia que nem chegava. E para acordar cedo no outro dia? Os professores já sabiam da história, deixavam eu ir à tarde. Aí eu ia dormir. Eles passavam o maior pano para mim”, relembra.

< >

Nathalie Filomena, 31, durante treinamento no SESI Suzano @Bruna Nascimento/Agência Mural

Nathalie Filomena, 31, durante treinamento no SESI Suzano @Bruna Nascimento/Agência Mural

Nessa época, as linhas 4-Amarela e 5-Lilás do metrô ainda não haviam sido inauguradas e as linhas da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) ainda não eram tão acessíveis quanto hoje em dia.

“Namoro com um cadeirante. Se fosse ele no meu lugar não teria vindo, é punk você pegar trenzão e não ter ninguém para te ajudar, a distância entre a plataforma e o trem é gigantesca. Se não tem ninguém ali para te empurrar você cai no buraco, até hoje.”

Nathalie nasceu com uma lesão no plexo braquial, uma rede de nervos entre a coluna cervical e o ombro esquerdo, além de uma paralisia branda neste mesmo lado. Porém, nada disso a impediu de jogar vôlei convencional desde criança.

“Não foi fácil, mas com meu jeitinho e com a ajuda do meu técnico, o Hélio, aprendi todos os movimentos. Hoje me destaco por conta disso, de ter batalhado muito, treinado muito para aprender. Para quem tem uma deficiência no braço não é fácil jogar vôlei”, diz Nathalie, citando seu técnico nos tempos de AABB, clube da região do Campo Limpo.

Foi neste mesmo clube que acabou conhecendo o vôlei sentado: “Um árbitro que apitava tanto em jogos do vôlei em pé quanto do vôlei sentado me descobriu e pediu para o Ronaldo [Oliveira, Orientador de Esportes do Sesi] me conhecer. Era uma quadra aberta quando cheguei.”

RUMO A PARIS

Sobre o futuro, Ana Luísa visa se preparar não só para Paris em 2024, mas também para os Jogos de 2028. “Sabe quando você realmente vê que você ama aquilo? Foi assim a experiência em Tóquio, é uma coisa surreal. Eu quero muito estar em Paris e espero estar em Los Angeles também, estou treinando muito para isso.”

No caso de Nathalie, foi a terceira vez que ela viveu a experiência dos Jogos e garante que foi a mais diferente de todas. Sem público, elas contaram com o apoio dos voluntários, que abraçaram a seleção brasileira como favorita deles, com direito a festa e musiquinhas.

Image

Nathalie Filomena, nascida e criada no Campo Limpo, exibe o bronze conquistado em Tóquio. Foi a segunda medalha dela em Jogos Paralímpicos @Bruna Nascimento/Agência Mural

Ela afirma que pretende estar nos próximos Jogos Paralímpicos. “Pretendo jogar minha quarta Paralimpíada. Depois que a gente ganhou a medalha, foi só uma semana de folga. Já estamos em busca do ouro em Paris”, conta.

Gizele, que terá 46 anos em 2024, também está na expectativa de disputar mais uma edição. “Enquanto eu conseguir identificar que tenho saúde física, saúde mental e que consigo ajudar as minhas companheiras em quadra, eu pretendo sim.”

LEIA TAMBÉM:
Paralimpíadas 2021: conheça atletas das periferias de SP que podem brilhar em Tóquio

Agência Mural faz série sobre atletas olímpicos das periferias

Cléberson Santos

Jornalista, não sabe chutar uma bola direito, mas se aventura no jornalismo esportivo há alguns anos, e também já escreveu sobre tecnologia e impacto social. Ama playlists aleatórias e tenta ser nerd, apesar das visitas visitas ao Netflix estarem cada vez mais raras. Correspondente do Capão Redondo desde 2019.

Bruna Nascimento

Fotojornalista, sonhadora, observadora e ouvinte de 'causos' profissional. Corinthiana maloqueira e sofredora (graças a Deus), boa sujeita, pois gosta de samba e tal qual Candeia na voz de Cartola, precisa se encontrar e vai por aí a procurar. Correspondente de Suzano desde 2019.

Republique

Faça com que essa história chegue para mais pessoas.

Republique o nosso conteúdo gratuitamente.

Regras:

Os títulos podem ser modificados desde que não mude o contexto;

Os textos devem ser publicados como estão na versão original, sem edição ou cortes;

Todas as republicações devem dar crédito para a Agência Mural e também os créditos dos profissionais envolvidos em sua produção, conforme aparece na publicação original;

As fotografias e outras imagens/artes podem ser republicadas com os devidos créditos;

Os vídeos republicados não devem passar por nenhum tipo de edição, devem conter os créditos da Agência Mural; para transmissão na TV, é preciso enviar um pedido para contato@agenciamural.org.br.

Reportagens publicadas no site www.agenciamural.org.br não podem ser revendidas.

Se possível, os materiais republicados devem mencionar o perfil da Mural nas redes sociais.

Reportar erro

Quer informar a nossa redação sobre algum erro nesta matéria? Preencha o formulário abaixo.