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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Gabriela Santos | Tatiane Araújo

Notícia - Edição: Tamiris Gomes

Publicado em 31.03.2022 | 18:19 | Alterado em 06.04.2022 | 17:27

“Se tu ama essa cultura como eu amo essa cultura, grita: hip-hop!”. A frase é repetida como um mantra, em alto e bom som, pelos MC’s competidores e pelo público que assiste mais uma batalha de rima numa noite quente de sexta-feira, na zona leste. A Praça Brasil, em Itaquera, é o lugar que abriga semanalmente a Batalha da Zil, agora presencial.

Conhecida como uma das maiores da região, ela foi criada em 2017 e chama a atenção pelo rápido crescimento desde o retorno, em julho de 2021 – período marcado pelo andamento mais efetivo da vacinação contra a Covid-19.

A batalha já chegou a reunir de 100 a 300 jovens na famosa praça do bairro. Ali eles acompanham as disputas entre diversos MC’s, desde os novatos até os mais conhecidos da cena, como o MC DuRap.

MC DuRap já foi 10 vezes campeão da Batalha da Aldeia, em Barueri @Fernando Coelho/Divulgação

Igor Franulovic, 22, principal organizador e apresentador do evento, conta que os registros de participação da Batalha da Zil aconteciam sem que a organização planejasse uma expansão – o que resultou em um período de hiato indeterminado.

Igão, como é conhecido, comenta da responsabilidade de estar à frente da disputa semanal. Por isso, ele decidiu que seria muito mais do que um encontro musical, e sim “um projeto social na periferia para revelar artistas”.

Igão (à direita) durante apresentação da batalha @Murilo Albert/Divulgação

O estudante Felipe de Souza, 18, que também atua como organizador ao lado de Igão, vai além e diz que a batalha “é um espaço de desabafo, de conhecermos outras realidades, além de ser um ambiente que acolhe”.

Felipe trabalha com as filmagens, no contato com os MC’s, na elaboração da “folhinha”, que é o organograma das participações, entre outras atividades.

Outra batalha que aposta na transformação da quebrada é a BDA (Batalha da Aldeia), uma das principais do Brasil, segundo os próprios organizadores e membros de outras batalhas espalhadas pelo estado de São Paulo. Acontece toda segunda-feira na Praça dos Estudantes, em Barueri, na Grande São Paulo.

Bob 13, fundador da Batalha da Aldeia @Fernando Coelho/Divulgação

Sempre lotada, a BDA surgiu da dedicação de Bruno Angelo de Souza, 32, mais conhecido como Bob 13. O fundador morava em Tupã, interior de São Paulo, e se mudou para Barueri em 2016.

Foi neste período que percebeu uma ausência de ações de rua voltadas para os jovens e uniu o sonho de viver da rima com a necessidade de inserir o movimento do rap no município.

Os desafios durante as restrições da pandemia

Na época, a média de público que frequentava a BDA era de mais de 2.000 pessoas por noite. Mas em 2020 começou a pandemia e os planos mudaram.

No ápice das restrições de eventos com público, a organização da batalha se viu obrigada a explorar novas estratégias e decidiu fortalecer o trabalho no espaço digital, lugar no qual já estavam presentes desde 2016. Mas Bob 13 conta que, no início da pandemia, ficou totalmente inseguro.

“Que momento desesperador, todas as batalhas do país chegaram a nível zero, sem poder de ação e sem trabalho”

Bob 13, da Batalha da Aldeia

Ainda assim, um dos principais questionamentos dele era “como fazer uma batalha de rima sem público e sem MC’s frente a frente?”. Foi a partir deste pensamento que surgiu a ideia de fazer uma disputa de rimas a distância, por meio do aplicativo Discord, que usa somente a voz dos participantes.

A questão é que faltava a energia singular do presencial, diz o organizador. Resultado: o público não gostou do formato e o canal perdeu milhares de visualizações.“As batalhas que tinham mais de 100 mil acessos no YouTube passaram a ter menos de 10 mil”, explica Bob.

Com o avanço da vacinação e queda dos números drásticos da pandemia, passaram a colocar MC’s em estúdio para registrar imagens e, assim, garantir que o público assistisse às performances.

Aniversário da BDA em 2017 @Divulgacão

Em 5 de maio de 2021, dia em que a BDA comemorou cinco anos, teve até confraternização em uma casa de shows na região central de São Paulo. Na ocasião, estavam presentes nomes como MC Marechal e Thaíde, e o evento teve premiação de R$ 60 mil para os vencedores.

Agora em 2022, a batalha retorna ao presencial gradativamente, com eventos na Praça dos Estudantes. “O público está voltando 100% com a gente, as visualizações estão voltando também e vamos continuar trabalhando”, afirma.

Bob 13 também vem preparando o aniversário de seis anos da BDA, um interestadual das batalhas de rima e planeja um evento a nível nacional. A ideia é levar a disputa de Barueri para o país todo.

Um espaço de diversidade

Ainda que as batalhas de rima tenham se tornado um importante movimento cultural nas periferias, a cena segue majoritariamente tomada por participantes homens.

Nisque MC fala da importância da pluralidade nas batalhas @RdeRock/Divulgação

Monique Fortes, 21, conhecida como Nisque MC, é artista independente e participa diariamente de diversas batalhas espalhadas pela capital, entre elas a da Zil.

Quando iniciou neste universo, há oito meses, a participação masculina era muito mais intensa e até agressiva, diz ela. Felizmente, está mudando com o tempo.

“Vi, e ainda vejo, muitas minas com receio de batalhar com homens, por isso é importante fortalecer a comunidade feminina e LGBTQIA+”

Nisque MC

A própria Batalha da Zil, por exemplo, passou a promover a Batalha da Diversidade, com o objetivo de inserir mais mulheres e mais pessoas da comunidade LGBTQIA+ no cenário.

“Iniciativas como essas fazem a diferença, porque quebram barreiras e colocam mais pluralidade”, afirma Nisque.

Millena Magalhães, 22, que atende por MC Mi Maya, se identifica como pessoa não-binária e também já foi uma das participantes da edição voltada à pluralidade.

Mi Maya atua como MC permanente da Batalha da 16, no Morro Doce, zona noroeste de São Paulo, mas participa de outras, como é o caso da Zil.

Segundo Millena, a Batalha da Diversidade pode ser um porta-voz da comunidade LGBTQIA+ nos eventos. Também pode ser um lugar de aprendizado para todos os envolvidos, dos rimadores ao público. Entender os detalhes pode fazer toda a diferença, como respeitar pronomes. “É um ambiente onde nos sentimos à vontade.”

MC Mi Maya na Batalha da Brasilândia, zona norte @Divulgacão

A edição da diversidade está em processo de reformulação. Igão explica que a ideia é promissora, mas é necessário organizá-la da melhor maneira para que todos os participantes se sintam representados.

A Batalha da Aldeia, além de acumular números expressivos, também promove edições que fortalecem o envolvimento feminino. É o caso da Batalha das Venenosas, que já acumula mais de 14 milhões de visualizações no YouTube.

Fortalecimento cultural nas quebradas e suporte aos MC’s

“A batalha nos transforma. É sinônimo de liberdade de expressão. Te ajuda a construir pensamentos diferentes, aborda assuntos que as pessoas têm medo de falar e te mostra vivências diversas”, opina Igão. Para amadurecer esse trabalho, ele conta que na Batalha da Zil o suporte aos MC’s é considerado um dos principais pilares.

O esforço do trabalho volta para a comunidade, para a cultura do bairro. Para isso, a Zil arca com as despesas de viagem, ao convidar os MCs, sejam eles de São Paulo ou de outras cidades e estados.

Em alguns casos, oferece hospedagem e outras estruturas, para que o MC tenha condições de crescer e se consolidar no cenário da rima. Atualmente, a batalha conta com 15 MCs confirmados, além dos sorteados.

Batalha da Zil em evento presencial, em 2022 @Gabriela Santos/Agência Mural

O valor gasto provém da monetização dos vídeos do YouTube e da ajuda dos próprios organizadores. Igão e Felipe explicam que, hoje, se dedicam a criar uma forte identidade nas redes sociais. A estratégia é atrair mais público e, futuramente, patrocinadores que podem possibilitar o pagamento de prêmios aos MC’s e remunerar a equipe.

Além disso, uma das metas da Zil é atingir 20 mil inscritos no YouTube ainda em 2022. Até o momento da publicação desta reportagem, o canal da batalha contava com 11,4 mil inscritos e o Instagram com 8.426 seguidores.

Uma das referências é a própria BDA que, na pandemia, fortaleceu o trabalho nas mídias. Agora, a BDA soma 3,67 milhões de inscritos no YouTube e 1,2 milhão de seguidores no Instagram.

BDA realiza os primeiros eventos depois da pandemia @Tatiane Araújo/Agência Mural

Nisque, que é moradora da zona leste, enxerga neste crescente movimento um caminho de novas perspectivas para os moradores das periferias.

“Na quebrada, a opção parece ser futebol ou crime, sempre. Com a batalha, levamos coisas diferentes para as comunidades e alguma transformação através do rap. Passamos a visão para os moleques”, conclui.

Gabriela Santos

Estudante de Jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunição (FAPCOM). Apaixonada por ouvir e contar histórias, o que mais gosta no jornalismo é a possibilidade de dar visibilidade às narrativas daqueles que, durante muito tempo, não tiveram voz. Ama livros, principalmente os de não-ficção, música, cultura brasileira, pesquisar coisas aleatórias... gosta de dias quentes e de conversar. Correspondente de Itaquera desde 2021.

Tatiane Araújo

Jornalista apaixonada por contar e ouvir histórias, ama a rua, gatos, música e produções audiovisuais. Correspondente de Barueri desde 2021.

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