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Roberta Ferreira, a educadora que trabalha a autoestima de alunos negros e periféricos

Professora de administração em cursos técnicos, o objetivo dela é quebrar os muros sociais que surgem para os estudantes das quebradas

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Por: Caê Vasconcelos

Notícia

Publicado em 28.06.2022 | 20:17 | Alterado em 29.06.2022 | 17:28

Tempo de leitura: 4 min(s)

Cria de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, Roberta Ferreira Domingos, 29, encontrou na educação um futuro para ela e para os jovens que frequentam suas aulas. Há 11 anos atuando como educadora, ela vai além do ensino formal e trabalha também o empoderamento e a autoestima dos alunos.

Atualmente, Roberta é professora de administração em cursos técnicos de escolas públicas estaduais, a partir do projeto Novotec. Durante as aulas, ela conta que traz conceitos da administração e provoca os alunos sobre as vivências enquanto jovens periféricos, e em sua maioria negros.

O objetivo principal dela é quebrar os muros sociais que surgem para os estudantes das quebradas, indicando a eles possibilidades de carreiras e sonhos. “A primeira coisa que eu faço é fortalecer os passos que eles deram até chegar ali”, explica.

Para o aprendizado, a educadora inclui música (como hip-hop) na didática e outros elementos culturais com olhar interseccional de gênero, raça e classe.

“Costumo dizer para eles: ‘vocês têm 16 anos e são 16 anos de história, não é pouco’. É muita história, são muitos anos, muitas coisas que eles passaram.”

Roberta Ferreira trabalha com educação há 11 anos @Reprodução/Instagram

E essa paixão pela educação começou cedo, na adolescência de Roberta. “Com 13 anos, me vi como voluntária de creche, com crianças de meses e até cinco anos. Isso já me instigou para o educar, estar na sala de aula para passar conhecimento”, relembra.

Administradora por formação, ela chegou a trabalhar em escritórios, mas sentia que faltava algo. “Alguma coisa me inquietava. Falei: ‘eu preciso estar na frente das pessoas e ver os olhares’. Fui caminhando, sendo educadora primeiro de formação humana e depois educadora de administração.”

Depois da experiência em empresas, percebeu que podia mesclar a arte de educar com a administração. Nesse caminhar, Roberta já deu aulas para jovens de três regiões periféricas de São Paulo: zona norte, zona leste e agora zona sul.

E nasce uma escritora

Em 2020, na pandemia, ela se descobriu escritora. Hoje, com um livro lançado, é criadora da página Uma Deusa Africana, canal para divulgar contos e poesias.

“Foi um caos. Mesmo dando aula no sistema um pouquinho mais limitado, eu consegui um tempo maior para escrita e passei por um processo formativo de escrita”, conta. Na época, a educadora atuava em um projeto social.

Com essa orientação mensal, a escrita foi se fortalecendo. “No final de 2020 eu olhei para mim e falei: ‘sim, você é escritora, bem-vinda Roberta Ferreira Domingos ao mundo editorial’.”

O processo formativo fez parte de uma ação da Flup (Festa Literária das Periferias), que foi coordenada por Ana Paula Lisboa, escritora e jornalista carioca. “Ser acompanhada por uma mulher, também preta e empoderada no mundo da escrita, me fortaleceu”, diz Roberta.

Nesse processo, a educadora homenageou a escritora Carolina Maria de Jesus, sua grande inspiração. E em 2022, Roberta fez parte da coletânea “As Áfricas Dentro de Mim”, com três contos de sua autoria.

Os contos falam de três encontros diferentes. “O primeiro encontro é com a minha deusa, depois o encontro com o príncipe, a realeza, e por último o encontro com a minha alma”, conta.

“São três encontros em que enxergo muito de África. Essa relação com a espiritualidade, a relação com o outro, de onde a gente vem, e a relação com a minha alma, que tem a ver com as emoções”, completa.

Conhecimento ninguém tira da gente

Apesar de nascer em Vila Nova Cachoeirinha, Roberta estudou o ensino fundamental em Santana, por ser mais próximo do metrô. Além disso, a mãe dela, Elisabete Ferreira dos Santos, 60, conseguia buscá-la na saída do trabalho.

Roberta e a mãe, Elisabete Ferreira dos Santos @Reprodução/Instagram

A princípio ela estudou em uma “obra social”, um espaço onde as crianças ficavam no período contrário à escola, para fazer lição de casa, aula de costura, mídia e consumo, educação ambiental, educação física, brincar, entre outras atividades. O lugar chamava-se Projeto Maín.

E depois conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio particular. Foi quando ela sentiu pela primeira vez a diferença social. “Foi um baque muito grande numa escola particular porque eles tinham outros recursos”, aponta.

“Não fui no primeiro dia de aula porque não tinha uniforme. Quem me deu o uniforme foi a minha tia. Eu tinha nove anos de idade.”

Com essa primeira barreira, Roberta sentiu como seriam as coisas por lá. “Tinha consciência de que eu estava em uma escola particular como bolsista e tinha que mergulhar nos livros, nos estudos. E fui me fortalecendo”, conta.

Quando acabou o ensino médio, entrou como bolsista na Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde cursou administração. Durante toda a vivência escolar, lembrava de uma frase da mãe: “conhecimento ninguém tira da gente”.

“Essa frase me fortalece bastante. Sei que isso ninguém me tira. A maneira que eu absorvo conhecimento, que eu interpreto ele, que eu quero passar para os outros.”

Roberta foi inserida em circuitos culturais durante a vida toda pela mãe. “Minha mãe é da bandeira da cultura para todos. Então, eu fui criada indo para teatro, para exposições, museus, apresentações culturais. Desde pequena esses espaços me pertenciam”, diz ela.

Agora, a educadora sente que tenta passar a mesma ideia para seus alunos. “Quero fazer com que os alunos entendam que ninguém vai tirar o conhecimento deles. Eu tô na educação para fortalecer essa mentalidade, estudar e ser quem você quiser, em qualquer lugar.”

Caê Vasconcelos

Jornalista, homem trans e bissexual. Autor do "Transresistência" e repórter especializado em direitos humanos e na editora LGBT+. Correspondente de Vila Nova Cachoeirinha desde 2017.

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