Suzano é mais do que as palavras massacre e tragédia

Cidade da Grande São Paulo completa 70 anos de emancipação nesta terça-feira (2) quando se desvinculou de Mogi das Cruzes

O município de Suzano, na Grande São Paulo, foi tema dos noticiários nas últimas semanas após o atentado ocorrido na escola estadual Raul Brasil, em 13 de março, na região central. Mas não serei eu a remoer esta história mais uma vez. Neste 2 de abril é comemorado o aniversário de 70 anos da emancipação de Suzano do município de Mogi das Cruzes.

Fiquei incumbido de escrever sobre a cidade, mas não conseguiria fazê-lo de outra forma que não “flanando”, definição esta utilizada pelo carioca João do Rio na obra “A alma encantadora das ruas”, no século passado.

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Em outras palavras, perambulando pela rua, me metendo nas rodas com estranhos, deixando-me levar por diálogos de terceiros aqui e ali, e gozando de conversas com pessoas comuns, dessas miúdas que encontramos de passagem – às vezes uma única vez.

Como Rosineide Francisca, 45, que senta-se quase todos os dias num dos bancos da Praça João Pessoa, “a praça da Igreja Matriz” (como é mais conhecida), para pedir R$ 1 a quem quer que passe. “Você tirou foto do meu vestido, menino? Ah, que bonito. Mas vai revelar a foto pra mim, né?”, questiona, logo após se ver na telinha da câmera. Ela continua: “Estou aqui na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta… e no sábado também”.

Rosineide está todos os dias na praça central de Suzano (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Por ali também está Erivam José, 51, morador da vizinha Ferraz de Vasconcelos, cabra entendido na Bíblia e que leva a palavra de Deus a qualquer um que esteja na praça. Ele afirma, quase sem respirar: “Porque-como-já-dizia-Paulo-aos-Efésios: honra-a-teu-pai-e-a-tua-mãe-para-que-te-vá-bem, e-vivas-muito-tempo-sobre-a-terra”. Pausa para tomar ar, e conclui: “As pessoas passam por muito sofrimento, entendeu? O povo precisa de uma palavra de incentivo pra poder viver”.

O mais popular na região é o engraxate José Edinaldo, 39, que trabalha próximo à entrada da igreja há mais de 20 anos. Ele é, talvez, quem mais “participou” de casamentos na cidade. Diz ele que já presenciou um bocado de coisas na praça, mas “a coisa mais bizarra que vi foi o dia que um cara passou com um tanquinho nos ombros”.

“O rapaz foi embora. Depois apareceu um sujeito que se disse gerente da loja que foi assaltada e perguntou se eu vi alguém passando com o tal tanquinho. Eu disse que vi um rapaz passando avoado com o trem no ombro, e lá se foi o gerente correndo daqui.”

A praça fica a poucos metros da Estação Suzano da linha 11-coral da CPTM. A linha férrea, aliás, contribuiu para o surgimento de povoados nas imediações, no final do século 19. Apesar de creditarem a fundação da cidade ao português Antônio Marques Figueira, o nome “Suzano” é uma homenagem ao engenheiro Joaquim Augusto Suzano Brandão, responsável pela construção da estação de passageiros, em 1894.

Erivam prega com uma bíblia todos os dias (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Suzano é um local de coisas que passam despercebidas, como o lava rápido “Bob Esponja”, que substituiu o finado lava rápido “Skinão”, imóvel que fica no cruzamento das ruas Kaneji Kodama e Afonso Nicola Redondo, na Vila Figueira.

Não bastasse a curiosa homenagem ao icônico personagem de calça quadrada, perto dali pode-se encontrar a “La Casa de Boneca”, na rua Baruel, com nome inspirado na série “La Casa de Papel”. Referências à cultura pop são uma tendência entre os novos empreendimentos do município.

Os suzanenses sabem mais sobre um senhor fardado e sem uma das pernas da rua Tiradentes, que diz ter sido soldado da guerra no Vietnã, do que sobre o monumento de 11 metros de altura erguido na Praça Cidade das Flores, ao lado da prefeitura. Oficialmente é a Dama das Flores (nas décadas de 1980 e 1990, a cidade era conhecida por produzir e exportar flores), mas nada me tira da cabeça a imagem de um dinossauro.

Suzano é uma cidade de pequenas curiosidades, como o relógio da já referida Praça João Pessoa, na região central, cujos ponteiros há muito pararam às 2h20, para quem vem da Glicério, e às 9h40, para quem vem da Estação Suzano.

Relógio parou e mostra horários diferentes dependendo do lado da torre (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Perto dali está a Praça dos Expedicionários, onde o soldado de ferro fundido (uma homenagem aos soldados da cidade que integraram as forças aliadas contra o avanço das tropas nazistas na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial) divide espaço com taxistas, moradores em situação de rua, inúmeros vira-latas, cinco selvagens pokémons (até hoje não se sabe quem os colocou ali), e jovens repórteres em busca de histórias.

Suzano é uma cidade de outros tantos anônimos, como o vendedor de cachorros-quentes bom de papo, no cruzamento da rua General Francisco Glicério com a Travessa Mirambava, versado em perrengues universitários, beisebol, discos de vinil, pontos turísticos e baladas em Jericoacoara, no Ceará – e, claro, em cachorros-quentes.

É município do velho Elias Batista, 65, que aos domingos joga basquete com moleques com mais da metade de sua idade no Parque Max Feffer. É a cidade da professora Sandra Gonçalves, que enfrentou e venceu o câncer por duas vezes; do casal Natanel e Cléo Souza, que construíram uma biblioteca comunitária num dos cômodos da própria casa, na comunidade do Rio Abaixo; e dos aposentados Manoel José da Silva e Antônio Bando: o primeiro, velho fuçado nas artes do “faz-tudo”, e o segundo que, por causa duma caipirinha, quase derrubou os Rolling Stones, na Argentina.

O engraxate José trabalha há 20 anos em frente`à igreja matriz (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

A cidade também acolheu o haitiano Rony Cadet, um marreteiro simpático e conhecido na rua Benjamin Constant por vender chocolates com uma retórica carregada de sotaque: “Senhoras-senhores, eu desejo a vocês uma ótima semana, paz, luz e amor incondicional. Eu escolhi trabalhar assim com vocês oferecendo uma barra que custa R$ 1 a unidade. Se alguém tem como comprar um pacote me ajuda muito, é uma grande força, um grande apoio vocês me dão por isso. É uma barra crocante com cobertura e recheio-chocolate”, diz.

Suzano é bem maior do que as palavras “tragédia”, “assassínio”, “massacre” e “atirador” podem definir. Sua definição só pode vir das pessoas comuns, responsáveis por construí-la dia a dia.

A definição vem das ruas, e não dos noticiários sensacionalistas, ou de palavras vazias na internet. Vem da rua que, como afirmou João do Rio, “é um fator vivo da cidade, a rua tem alma”; alma esta composta por mais de 290 mil pessoas, anônimas em sua maioria. Portanto, hei muito que flanar ainda.

Rômulo Cabrera é correspondente de Suzano
[email protected]

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