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Aldeia do Jaraguá tenta se proteger da Covid-19

População indígena fecha entrada para pessoas de fora da aldeia; contágio pode ter impacto maior nos povos que vivem diversas tradições coletivas

Quem chega nas terras indígenas do Jaraguá, na região noroeste de São Paulo, logo se sente acolhido e convidado a entrar pelo povo Guarani Mbya que ali vive. 

Mas diante da pandemia do coronavírus (Covid-19), que tem assolado todo o mundo, a menor terra indígena do Brasil, com 512 hectares (5 milhões de m²), também precisou se isolar. 

Formada por casas feitas de madeira e muito próximas umas das outras, o local é propício a um rápido alastramento do vírus, caso alguém se contamine.

Fechamos a entrada para os não indígenas. Somos uma população de risco, não só na questão biológica, mas também em nossa tradicionalidade. Nosso modo de vida é comunitário”, diz Thiago Henrique Karai Djekupe, 26, liderança e apoiador de saúde indígena na UBS (Unidade Básica de Saúde) localizada dentro do território. 

Antes mesmo de tomar a decisão, os indígenas das aldeias do Jaraguá se reuniram na casa de rezas e ouviram de Nhanhanderu (Deus, em tupi-guarani) a urgência de se recolher. 

Crédito: Luca Meola/DivulgaçãoThiago fala sobre ações do Jaraguá

“Nossos xeramõi (os mais velhos da aldeia) sempre que vão rezar contam histórias. Mesmo sem estudo, eles veem que a natureza dá muitos sinais”, explica Thiago. 

Desde crianças, eles aprendem histórias ligadas ao meio ambiente, o que os ensinam e preparam para momentos de crise como o que se está sendo vivido agora. 

“O Juruá (o não indígenas) está caminhando o mundo para o fim, levando o mundo para um desastre que vai ser irreversível. Falta de água, deslizamentos e chuvas muito fortes são sinais que a própria natureza vai dando para tentar se regenerar, como um corpo vivo que está com uma inflamação e precisa se curar”. 

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TRADIÇÕES 

Os povos indígenas guarani têm diversas tradições ligadas à coletividade. O petygua, um cachimbo sagrado, é fumado em conjunto. As crianças vivem em irmandade, chamam-se de parentes e se veem como uma grande família. 

“Nossas casas são pequenas e não têm divisão de cômodo, com mais de cinco pessoas. Não dá para ficar de quarentena dentro de casa. A aldeia é a nossa casa. As pessoas são muito livres”.

Crédito: Luca MeolaComunidade compartilhar de rituais e está mais suscetível ao contágio

Ele conta que sempre ouviu dos mais velhos uma história em que as pessoas não conseguiam mais sair de casa e os pássaros eram os únicos que observavam os humanos de longe. 

“A gente acredita. O homem branco não acredita nas coisas que os antigos falam. Ficam apegados na crença capitalista, não param pra ver quanto sofrem com tudo isso”, afirma. “Não tem equilíbrio entre capitalismo e a própria terra e o meio ambiente. O capitalismo, onde passa, ele destrói. É isso que acaba acontecendo”, ressalta.

DESAFIOS

Dentro da aldeia, há uma UBS (Unidade Básica de Saúde) que atende exclusivamente a população da aldeia. Segundo Thiago, o espaço ainda é muito precário e precisa ser ampliado para atender a todos. 

Pensando nisso e também em como proteger os idosos e crianças com doenças respiratórias – grupos de risco da Covid-19 – os indígenas reivindicam à Secretaria Municipal de Saúde uma readaptação do centro de cultura existente na aldeia para ser ocupado caso haja algum caso na aldeia que precise ficar isolado. 

Porém, afirmam que não houve retorno. Procurada, a secretaria não respondeu à Agência Mural. 

“Estão esperando alguém morrer para tomar alguma providência. Isso que nos deixa tristes”, afirma Thiago. Ele enfatiza que a comunidade também tem questionado o Ministério Público, e a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), órgão federal responsável pela questão indígena. 

No momento, não há nenhum caso de Covid-19 no território, apenas pessoas com tosse e com alguns dos sintomas, como gripe e febre. 

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RENDA BÁSICA PARA INDÍGENAS

Uma das preocupações é em relação a renda, já que muitos jovens precisam sair para trabalhar. Alguns trabalham como jovem aprendiz na SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), na Vila Clementina, precisam tomar transporte público. “Algumas pessoas ainda queriam sair para vender artesanato, mas a gente está barrando”.

Por esse contexto, Thiago crê que a renda emergencial poderia ajudar os povos indígenas, principalmente para terem condições de ficar em casa. No entanto, também se questiona sobre o processo. O projeto que prevê R$ 600 como ajuda para o período da pandemia ainda não tem data para começar a ser pago. 

“A gente precisa ver como vai ser trabalhado, nem todo mundo tem celular pra cadastrar, nem todo mundo sabe ler, falar português, como a Funai e CRAS vai trabalhar essa questão na aldeia”.

Aldeia Tekoa Pyau, no Jaraguá (Cleber Arruda/Agência Mural)

A CGY (Comissão Guarani Yvyrupa) reuniu todos os povos indígenas da região sudeste para ajudar no combate ao coronavírus, tendo como principal objetivo ajudar no sustento dos seus e proteção de todos. 

Para que esse projeto dê certo e alcance todos que precisam, está sendo feito um mapeamento das aldeias e todas as necessidades básicas nesse momento.

No Jaraguá, os indígenas também estão pedindo doações de máscaras e de alimentos. Para evitar qualquer tipo de contágio, as lideranças locais pedem que os colaboradores entrem em contato por meio das redes sociais, que são o perfil no Instagram “Luta Parque Jaraguá” e a página no Facebook “Existe Guarani em SP“.

Jéssica Moreira

Jornalista, correspondente de Perus desde 2010.

Perus, São Paulo

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