Acontece na Escola: Alunos constroem máquina que reduz desperdício de comida no Jaraguá

Henrique de Sousa
Colaborou Jéssica Bernardo

“A educação é uma maneira de transformar a realidade”. É assim que  Vânia Costa, 40, descreve por que escolheu ser professora quando ainda estava na faculdade de bacharelado em física. Agora doutora em Engenharia e Tecnologias Espaciais pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a professora, que cresceu no Jardim Damasceno, zona norte de São Paulo, incentiva estudantes a chegarem cada vez mais longe. Ela é educadora na Etec Jaraguá e criou no ano passado, junto com seus alunos, um biodigestor para combater o desperdício de alimentos no almoço e explicar, de um jeito diferente, o conteúdo da aula de matemática.  

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O projeto foi criado com a turma de alunos do então 2ª série do ETIM (Ensino Técnico Integrado ao Médio) em Eletrotécnica da Etec do Jaraguá. A ideia surgiu em 2017 quando a professora conversou com um dos funcionários da escola e ficou sabendo que na hora do almoço havia muito desperdício . “Depois de pesquisarmos sobre o assunto, eu queria que fizéssemos algo para transformarmos esse alimento que era desperdiçado em algo útil”, conta Vânia. Foi aí que os estudantes decidiram aplicar o conteúdo de estatística na prática.

Turma e professora responsável pela criação do projeto do Biodigestor (Alex/Arquivo pessoal)

Usando os conceitos das aulas de matemática, os alunos calcularam quanto de comida cada estudante jogava fora ao término do almoço. O desperdício representava 11% de tudo que era servido, mais exatamente 9,64 kg de comida. Para mudar essa realidade, a turma adaptou dois tonéis de água e construiu um sistema que permite transformar em adubo os alimentos que eram descartados, como restos de arroz e feijão. Surgia ali o primeiro biodigestor da escola.

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Os estudantes tiveram que supervisionar o que estava sendo colocado no biodigestor, uma vez que alguns alimentos não poderiam ser usados, como restos de estrogonofe, por exemplo. Alimentos com leite não podiam ser aproveitados porque o sistema construído pela turma não era adaptado para dar escape aos gases produzidos na fermentação destas comidas.

“O resultado do projeto superou as minhas expectativas”, diz a professora. Para ampliar essa ideia, a turma também realizou um movimento de conscientização dentro da escola criando cartazes, vídeo e posteriormente uma apresentação no auditório para todos os alunos sobre este tema.

Professora Vânia, usou as aulas de estatística para ensinar a turma a construir o biodigestor (Henrique de Sousa/Acontece na Escola/Agência Mural)

João Vitor Rosado, 17, apresentava dificuldade com matemática e depois do projeto conseguiu entender melhor o conteúdo da matéria:  “Se os outros professores aderissem a isso teríamos bons resultados.” Também aluno da turma, Richard Sousa, 17, vai além e diz que gostaria que os projetos englobassem mais áreas. “Os professores deveriam aderir, porém interdisciplinarmente”, comenta o adolescente.

O biodigestor produziu sete litros de adubo. Inspirada pelo projeto e com vontade de fazer o resultado dele ir para além dos muros da escola, a estudante Thainara Caroline Ramos, 17, levou parte dele para casa. Como a avó tinha um pequeno jardim, Thainara usou o fertilizante para adubar as plantas dela. “Foi bom porque a gente aprendeu estatística e foi interessante para ajudar o próximo e a escola”, diz a aluna, que garante que a avó gostou da surpresa. A outra parte do adubo foi doada para um professor da escola.

Alunos no processo de criação do Biodigestor (Abner Albuquerque/Arquivo pessoal)

Inovação

Para aderir a atividades como essa, que apostam em uma didática diferente, a professora Vânia demorou cinco anos. Foi quando ela percebeu que nem todo mundo aprende do mesmo jeito. No Brasil, 71,67% dos alunos do Ensino Médio apresentaram nível insuficiente de aprendizado em matemática, segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2017. “Acredito que os outros professores do Ensino Médio deveriam aderir à ideia”, comenta Thainara.

O projeto do biodigestor não é o único ao qual os estudantes da Etec Jaraguá têm acesso. Apesar de reconhecer que ainda são poucos os professores que inovam na forma de ensinar, a coordenadora pedagógica da escola, Eliete Galdino, 45, afirma que a inovação é uma de suas metas para a Etec. “A Etec Jaraguá possui [como objetivo] em seu projeto político pedagógico que nós sejamos reconhecidos em competições externas”, diz a coordenadora, que incentiva os professores a criarem novas formas de ensinar.

Apenas no ano passado a escola já conseguiu 11 premiações diferentes, entre elas  a medalha de ouro na categoria nacional da Olimpíada Internacional de Matemática Sem Fronteiras (Olimpíada Internacional “Mathématiques sans frontières”), conquistada pela mesma turma desta notícia.

Henrique de Sousa é estudante da 3ª série do ensino médio na Etec Jaraguá
Jéssica Bernardo é correspondente de Grajaú

Essa reportagem foi produzida por um participante do programa de bolsa de jornalismo Acontece na Escola da Agência Mural, no qual estudantes do ensino médio de escolas públicas da região metropolitana de São Paulo produzem conteúdo jornalístico sobre temas do cotidiano escolar. A iniciativa integra o projeto Mural nas Escolas.