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No Capão Redondo, trabalhadores temem coronavírus no emprego

Na zona sul de São Paulo, as dificuldades de quem precisa seguir no trabalho, mesmo com casos de suspeitas de contágio do vírus

A vida de alguns trabalhadores mudou desde que o Governo de São Paulo anunciou a intensificação das medidas de enfrentamento ao novo coronavírus, mas não a de todos.

Para muitos profissionais que moram nas periferias o isolamento ou distanciamento social, uma das estratégias indicadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para evitar a contaminação comunitária, é um privilégio e não um direito.

Para o promotor de vendas, João da Silva*, 60, morador do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, a situação da pandemia e as recomendações de isolamento foram recebidas com muita preocupação, já que usa o transporte público para se locomover e tem contato com um número grande de pessoas em seu trabalho.

Silva já passou por problemas sérios de saúde como hepatite C.  

Quando percebeu que não seria dispensado do trabalho, resolveu conversar com o superior, mas teve que superar o medo da demissão há poucos meses de se aposentar. “Era uma questão de direito, falaram que as pessoas com mais de 60 anos tinham que se afastar e como eu tinha férias vencidas eu resolvi pedir”, conta.

 

 

Crédito: Léu Britto/Agência MuralEstação do Capão Redondo, na zona sul de SP

No caso do João, a orientação foi que procurasse o serviço de saúde para pedir o afastamento médico, o que não é o indicado. A orientação do governo do estado é que busquem a rede de saúde apenas os pacientes em situação grave. 

“Me sinto mais protegido em casa, mas pelo que se sabe talvez daqui uma semana, se eu não tiver ficado doente nem nada, é porque eu estou seguro, caso contrário não tem como saber se estou protegido”, completa João. 

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A situação tem se repetido em algumas periferias, onde os moradores com receio da perda da renda têm trabalhado mesmo em locais onde há suspeitas de contaminação do vírus.

Também moradora do Capão Redondo, a atendente de pizzaria Kathellyn Silva de Lacerda, 18, vive essa situação. De acordo com Kathellyn, o dono do pequeno estabelecimento nem cogita a possibilidade de dispensar os funcionários, mesmo sabendo que um dos colaboradores está isolado com suspeita de ter contraído o novo coronavírus.

“O motoboy que trabalha com a gente no fim de semana fez o teste do coronavírus e está isolado há quatro dias”, conta. “Eu fico preocupada porque a gente recebe pessoas, pega em dinheiro e cartão, tenho medo de ser contaminada, principalmente porque eu tenho asma e arritmia cardíaca”, conclui a Kathelyn.

De acordo com o levantamento do Ministério do Trabalho feito por meio do cadastro RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), 54% de todos os trabalhadores da cidade atuam no segmento de serviço, ou seja, são profissionais de limpeza, segurança, portaria. 

A segunda maior fatia de trabalhadores, com 18%, está no segmento do comércio, que inclui profissionais que trabalham em restaurantes, bares, lojas, supermercados, padarias, farmácia. Dessa forma, mais da metade da força de trabalho atua em funções que são essenciais para o funcionamento da capital.

O garçom, José dos Santos*, 38, morador do Campo Limpo, também na zona sul, trabalha em um restaurante de luxo no bairro de Moema, onde atende dezenas de pessoas, inclusive estrangeiros, mas mesmo com o movimento fraco, o estabelecimento continua funcionando em horário normal. 

De acordo com ele, funcionários mais antigos foram dispensados, mas como ele está há três meses no cargo, continua trabalhando, mesmo estando entre as pessoas mais vulneráveis a complicações do covid-19.

“Considerando minha saúde eu acho que deveria ser dispensado, porque eu tenho problemas respiratórios e estou correndo risco de ser contaminado”, conta José.

*Os nomes foram alterados a pedido dos funcionários, com receio de represálias.

Gisele Alexandre

Jornalista, correspondente do Capão Redondo desde 2018. É pós-graduada em Políticas Públicas e Projetos Sociais. Integrante da Rede de Jornalistas das Periferia, também é consultora de comunicação no CDHEP - Centro de Direitos Humanos e Educação Popular do Campo Limpo. Libriana, adora crianças e acredita na comunicação como instrumento de transformação social, por isso atua como voluntária dando aulas de comunicação para jovens da periferia.

Capão Redondo, São Paulo

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