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Agência de Jornalismo das periferias

Notícia

Publicado em 24.11.2021 | 17:17 | Alterado em 01.12.2021

Tempo de leitura: 8 minutos
Esta reportagem foi produzida com o apoio da WhatsApp Image 2021-06-29 at 16.57.05 (002)

Há dois anos, Flávia Menha, 30, começou a montar um negócio em casa, em Pirituba, na zona norte da capital. A ideia era vender brigadeiros para complementar a renda e foi o que ajudou a passar pela fase mais grave da pandemia de Covid-19.

Para garantir as vendas, ela faz entregas com o próprio carro, com a contratação de motoboys ou de motoristas de aplicativo. “Temos todo cuidado no transporte para que o produto chegue intacto até o cliente”, frisa Flávia.

Ela é um exemplo de como moradores das periferias têm utilizado as possibilidades de mobilidade urbana para apostar em negócios próprios, por meio dos serviços de delivery.

O serviço sempre esteve presente na vida dos paulistanos. Mas, diante da necessidade de manter isolamento social, as entregas ganharam ainda mais notoriedade em bairros periféricos, para a venda de diversos produtos.

Por um lado, as possibilidades de entrega apontam novas possibilidades de negócios caseiros. No entanto, trabalhadores desse segmento, como motoboys, indicam a dificuldade de garantir renda e os riscos de acidentes.

Na décima reportagem da série sobre mobilidade nas periferias, a Agência Mural conversou com empreendedoras e entregadores de bairros distantes do centro de São Paulo para saber como têm sido os serviços de delivery nessas regiões.

Carro próprio ou motoboy

Flávia Menha utilizava as redes sociais para divulgar os produtos, direcionando as vendas dos brigadeiros pelo WhatsApp. Ao lado do marido e com o carro da família, assumiu as entregas nos bairros mais próximos, repassando o frete aos clientes – cobra entre R$ 6 e R$ 15.

Quando a demanda é maior do que conseguem assumir, ela costuma contratar os serviços de um motoboy. “Tenho um conhecido que faz entregas. Conseguimos negociar valores que ficam bons para ambas as partes”.

Almejando alcançar mais clientes, em 2019 mesmo, ela se inscreveu como MEI (Microempreendedor Individual), se cadastrou em um aplicativo de delivery de comida e passou a vender os doces também durante a semana. “À noite, quando eu chegava do trabalho ligava o aplicativo e fazia as vendas também por ele”.

Mesmo cadastrada em um aplicativo, a maior dificuldade que enfrentou foi conseguir motoboys que atendessem a região. “Nenhuma plataforma que procurei [na época] atendia. Foram de três a quatro meses para conseguir liberar os aplicativos que atendessem a região”, narra Flávia.

Mesmo quando o aplicativo começou a aceitar o delivery, ela enfrentou desafios. “Demorava de 30 a 40 minutos para encontrar um entregador que retirasse o produto”, lembra a empreendedora. “Hoje em dia, é questão de 10 a 15 minutos. É muito mais rápido”.

Do lado dos entregadores, dificuldades para conseguir renda e o desgaste são alguns dos problemas enfrentados no dia a dia. No ano passado, a classe realizou uma paralisação em São Paulo, por melhora nas condições de trabalho. Esse cenário veio em meio ao aumento de motociclistas no setor.

A AmaBR (Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil) estima que o número de motoboys na cidade de São Paulo tenha crescido 30% desde o começo de 2020, chegando a 70 mil entregadores.

O presidente da associação, Edgar Francisco da Silva, conta que a expansão do mercado de entregas não alavancou o salário dos motoboys.

“Nós que vivíamos disso, não vimos um aumento individual. Na pandemia a gente ganhou menos”.

O motoboy Lucas Lemos, 23, morador da Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, trabalha desde 2017 no setor. Trafega nos extremos leste e sul da capital, retirando aparelhos de TV e modems para diferentes operadoras. Ele relata que nessas regiões as vias são precárias e que há falta de segurança. Por outro lado, destaca que são nessas áreas que recebe atenção da população local.

“Quando, por exemplo, você não encontra um número em uma rua, dois ou três [moradores] já vêm para te ajudar”, discorre o motoboy. “Vem a senhorinha te oferecendo uma água e você começa a conversar e nem percebe a hora passar. Acaba fazendo amizade. Esse é o carinho e o cuidado que a periferia tem e traz para quem trabalhar dentro dela”.

O motoboy iniciou prestando serviços em “pizzaria, hamburgueria e outros aplicativos”. Neste ano, o trabalho de entrega virou a renda principal. “Comecei aqui onde moro, como renda extra. O delivery onde a pessoa mora traz bem mais segurança e conforto pra ela ir aprendendo como trabalhar no trânsito e com as entregas”

Porém, cita que atuar na área “é um desafio”, sobretudo, no trânsito. “Temos que nos esquivar de tudo: buraco, chuva e também de outros motoristas”.

Motociclistas apontam alta no trabalho, mas redução na renda @Ira Romão/Agência Mural

Edgar, da AmaBR, também alerta para o fato de que o número de acidentes com motociclistas cresceu no último ano no estado. Entre abril de 2020 e junho de 2021, o aumento foi de 45,5%, segundo dados do Infosiga – de 4.877 acidentes para 7.097.

Entre os casos fatais, o número passou de 133 para 151, um salto de 13,5%. Na última reportagem desta séria, a Agência Mural traz mais dados sobre acidentes no trânsito na cidade de São Paulo.

Para Edgar, os dados refletem a necessidade dos novos profissionais passarem por cursos de práticas no trânsito e se regulamentarem. Na capital paulista, é possível se regulamentar fazendo um curso em uma escola autorizada pelo Detran e cadastrando a moto na Prefeitura.

Outros tipos de entrega

Entre alguns motoristas de aplicativos, a sensação é a de que o movimento de alta nas entregas de encomendas já passou. O motorista William Batista Dias da Silva, 40, morador do Grajaú, zona sul da capital, conta que percebeu que o volume de chamadas cresceu nos meses de maior isolamento.

William começou no Uber em 2016. Hoje trabalha também com a 99, atendendo moradores de todas as regiões.

“No foco da pandemia aumentou muito, porque as pessoas não podiam sair. Agora praticamente não se ouve falar mais em entregas”.

No carro dele foram transportados itens como bolos, produtos eletrônicos e até flores. Boa parte deles para presentear aniversariantes que estavam em isolamento. Agora, os chamados desse tipo são mais raros, e o transporte de pessoas continua sendo o principal motor do trabalho.

A 99, aplicativo de mobilidade urbana que patrocina essa série, afirma que desde junho do ano passado, realizou mais de 7 milhões de corridas por conta do serviço 99Entrega. Do total, 30% foi na Grande São Paulo. “Cerca de 30% das corridas do 99Entrega feitas para micro e pequeno empresários”, afirma a empresa.

Celia Damasceno entrega produtos nas estações de trem e metrô @Ira Romão/Agência Mural

Outra alternativa desses vendedores das periferias têm sido utilizar as próprias estações de trem para fazer as entregas.

Foi o que fez a empreendedora Célia Damasceno, 35, moradora do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Após ficar desempregada em meio à crise sanitária, ela encarou o desafio de abrir um negócio com a entrega sendo feita na própria catraca.

“Tenho uma loja online em que vendo acessórios para pet”, conta Célia. “Comecei em janeiro deste ano vendendo primeiro para minhas amigas, para o pessoal aqui da rua e por indicação”.

O passo seguinte da empreendedora foi publicar os produtos nas redes sociais, o que atraiu clientes de diferentes regiões da capital paulista e da Grande São Paulo. Surgiu então a necessidade de usar as estações de trem e metrô para realizar as entregas, alternativa que chegou a representar 80% das vendas.

“Onde eu conseguia chegar de metrô e trem, eu fazia entrega. Cobrando apenas uma taxa mínima de R$ 5 para ajudar no meu custo”, relembra.

Com a expansão online, ela ganhou também clientes em outros estados e agora envia produtos pelos Correios. A mudança de perfil dos clientes alterou também a dinâmica das entregas nas catracas, que diminuíram.

Ela também oferece aos clientes de São Paulo a opção de entregas por motoboy, que contrata de modo particular.

“As entregas via Correios é [cobrada] referente ao CEP. Então o cliente calcula direto nas plataformas digitais. Via motoboy também é de acordo com o endereço do cliente, geralmente o entregador cobra de R$ 1,50 a R$ 2 por quilômetro”.

Para quem tem vendido via delivery, a esperança é aproveitar o momento para conseguir investir. Flávia, que abre este texto, conseguiu abrir um espaço físico em outubro onde os clientes podem retirar os doces que compõem o cardápio, que também aumentou.

“Começamos com um cardápio com brigadeiros [de diferentes sabores] e hoje em dia temos bolo de pote, sobremesas no copo e chocolates”, descreve. “O que era para ser só uma renda extra, virou em um cantinho focado no delivery. É um espaço pequeno, só pra retirada mesmo”.

A confeiteira continua fazendo entregas e usando aplicativos. “Apesar dessa pandemia, conseguimos abrir nosso espaço e estamos muito felizes”.

Ira Romão

Jornalista, fotojornalista e apresentadora de podcast. Atuou em comunicação corporativa. Já participou de diferentes projetos como repórter, fotógrafa, verificadora de notícias falsas e enganosas. Foi uma das apresentadoras do ‘Em Quarentena” e da série sobre mobilidade nas periferias. Ama ouvir histórias, dançar, karaokê e poledance. Correspondente de Perus desde 2018.

Jéssica Bernardo

Jornalista, cria de uma família de cearenses. Apaixonada por São Paulo, bolos e banhos de mar. Correspondente do Grajaú desde 2017.

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