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Como é andar de transporte público na pandemia; ouça o podcast

Trabalhadoras das periferias relatam a rotina dentro dos coletivos e compartilham o que têm observado

Embora a quarentena siga valendo no estado de São Paulo, nem todo mundo pode ficar em isolamento dentro de casa. Muitos trabalhadores seguem se deslocando todos os dias para trabalhar.

E diante dos riscos de contaminação do coronavírus, como será que está sendo enfrentar o transporte público?

O Em Quarentena” conversou com trabalhadoras das periferias que contaram como anda a rotina de quem precisa encarar ônibus e trens diariamente. 

Ibene, 49, mora com o marido e o filho em Guaianases, no extremo leste da cidade. Há três meses, ela começou a trabalhar como atendente de telemarketing, na Lapa, na zona oeste. 

Ela compartilhou como tem sido essas 3 horas e 20 minutos que gasta para ir e voltar do serviço todos os dias.

“Em Guaianases eu pego o trem até a estação da Luz. Lá faço baldeação e para pegar outro trem, sentido Francisco Morato. Desço na Lapa, onde pego um ônibus fretado da empresa que gasta cinco minutos para levar a gente até local de trabalho”. (ouça a partir de 01:03)

Ela afirmou que desde o início do mês de abril o transporte público tem ficado cada dia mais cheio. Com isso, ela está cada vez mais preocupada, inclusive, com a falta de cuidado de algumas pessoas.

“Esta semana eu resolvi até fotografar, na linha 7 Rubi, que vai da Luz até Francisco Morato. Flagrei pessoas sem máscaras. E fui questionar com os seguranças, porque imaginei que eles iriam tomar alguma atitude. […] Eles só ficaram me olhando. Como se a louca fosse eu”. (a partir de 01:31)

Desde o dia 7 de maio o uso de máscaras é obrigatório em todo espaço público, incluindo o transporte. E entre os dias 11 e 18 foi testado um novo esquema de rodízio para carros, intercalando placas pares e ímpares. Porém, o esquema não surtiu efeito no índice de isolamento da cidade. 

O prefeito Bruno Covas desistiu da medida, voltando com o rodízio tradicional, mas alertou a todos sobre a importância das medidas de segurança por meio de um pronunciamento. 

“Isso não pode ser desculpa para as pessoas se sentirem à vontade para retomar a circulação pela cidade. Precisamos ampliar o isolamento. Precisamos rápido e estamos ficando sem alternativas”. (ouça em 02:56)

Priscila, que mora no Jardim Guanabara, na zona sul de São Paulo, trabalha como recepcionista em Moema e demora cerca de uma hora e vinte no ônibus. Ela também informou que tem percebido um aumento considerável do número de pessoas no transporte público neste período de pandemia.

“Na parte da tarde, eu tenho percebido um aumento, bem grande aliás. Comecei a trabalhar no laboratório no dia 16 de março deste ano e esta semana foi a primeira que eu vim em pé. Até então, eu nunca tinha vindo”. (em 02:03)

A recepcionista relatou, inclusive, a falta de segurança no transporte. Ao longo do percurso que faz, ela já foi assaltada, justamente num dia em que tinham poucas pessoas dentro do coletivo. 

“Tinham no máximo cinco pessoas no ônibus e eu estava na última porta, acabei sendo assaltada. Essa pessoa me agarrou e abriu minha bolsa. Não tive reação nenhuma. Estava de máscara, muito longe do cobrador, então fiquei com receio dele acabar não me ouvindo”. (em 03:52)

Ela ainda reforçou outro problema, relacionado à limpeza dos coletivos. E não tem nada a ver com a falta de higienização, mas sim com a não finalização da limpeza.  

“Nesta semana, quando a gente foi embarcar, o ônibus tinha sido lavado e não teve tempo de secar. Era daqueles com ar-condicionado e estava um cheiro muito forte de água sanitária, o chão e os bancos estavam muito molhados. Então tivemos que secar com nossas roupas”. (em 04:28)

Ingrid Mello compartilhou que ver o ônibus cheio virou rotina. Ela é psicóloga, mora no Jardim Veloso, em Osasco, e trabalha em Alphaville, que é polo comercial situado em Barueri, na cidade vizinha.

“Há duas semanas o transporte público está muito cheio. Como trabalho em Alphaville, onde têm muitas empresas, já está formando trânsito no fim do dia. Então acredito que as empresas estão voltando a trabalhar [normalmente]”. (em 05:13)

Ela também comentou o que tem observado durante o uso do coletivo. “O ônibus está superlotado, alguns não tem álcool gel, outros têm, principalmente da EMTU. Ontem, aconteceu uma situação em que um moço quis entrar sem a máscara e não pode entrar”. (em 05:37)

Wadila mora no Jardim Monte Kemel, na zona oeste de São Paulo. Ela trabalha como secretária em um consultório de dermatologia e cirurgia plástica no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo. Ela disse que a empresa na qual trabalha optou por custear transporte particular aos funcionários.  

“Na última semana de abril voltei a trabalhar. Estou indo trabalhar todos os dias, mas não estou pegando transporte público. A empresa quer que a gente continue indo de 99 e uber, até segunda ordem”. (em 06:20)

A secretária enfatizou que o fato de não precisar encarar o transporte público faz ela se sentir mais tranquila e segura. Ela também comentou que aproveitou para fazer as corridas com uma motorista que mora perto de sua casa. 

“Logo que voltei a trabalhar, peguei corrida com uma mulher e conversando descobri que ela mora uma rua acima da minha. Então perguntei se ela tinha interesse em vir me buscar e trazer todos os dias. Ela topou”. (em 06:50)

O podcast da Agência Mural finalizou o episódio reforçando alguns cuidados como: uso de máscara; manter abertas as janelas do ônibus (aqueles sem ar-condicionado); se possível manter um metro de distância das pessoas dentro do coletivo; ao chegar em casa lavar bem as mãos e higienizar os objetos pessoais que foram tocados durante o trajeto; lembrar de não tocar ou coçar os olhos, nariz e boca enquanto estiver na condução. 

Ouça este bate papo completo no Em Quarentena #36: Como é andar de transporte público na pandemia.

Podcast Em Quarentena

Viver em meio ao coronavírus não deve estar sendo fácil para ninguém. Imagina então para quem vive nas periferias. 

O “Em Quarentena” é o podcast especial que a Agência Mural de Jornalismo das Periferias criou neste momento da pandemia. Queremos informar, com notícias do dia a dia, quem mais precisa se virar meio a esse caos.

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Redação

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