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Desempregados e sem auxílio, jovens vendem máscaras nas ruas de Itaquera

Comercialização do produto atrai quem está desempregado e com dificuldades para receber seguro-desemprego e auxílio emergencial.

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Por: Everton Pires

Notícia

Publicado em 04.08.2020 | 13:13 | Alterado em 22.11.2021 | 16:00

RESUMO

Comercialização do produto atrai quem está desempregado e com dificuldades para receber seguro-desemprego e auxílio emergencial.

Tempo de leitura: 4 min(s)

Sentados na esquina de uma rua de Itaquera, na zona leste de São Paulo, dois amigos conferem no celular se o auxílio emergencial foi liberado. Enquanto o sistema carrega, David Silva, 25, já planeja em voz alta o que fazer caso a sorte apareça. “Vou pagar meu aluguel, e ainda vai sobrar uns R$ 80”. 

Em poucos instantes, David e o companheiro de vendas, Lucas Almeida, 23, seguem o caminho do Terminal Metrô Itaquera para vender máscaras de proteção.

Desempregados desde o começo do ano, a venda do material se tornou a opção de renda durante a época de pandemia do novo coronavírus.

Lucas trabalhava há três anos em um supermercado como balconista. Pediu as contas em fevereiro, querendo encontrar um ofício melhor. Só não esperava a chegada da Covid-19. “Depois que entrou essa pandemia, complicou mais a situação. Aí a gente é obrigado a vender uma máscara, um chocolate”, comenta.

Pai solteiro de um filho de sete meses, Lucas não consegue receber o seguro-desemprego. Um erro de digitação no nome da mãe dele barrou o pagamento do direito trabalhista. 

Constando no sistema da Receita Federal como detentor do dinheiro, também teve o seu auxílio emergencial negado. “Por causa do coronavírus, a Receita Federal fechou, o Poupatempo fechou, a gente precisa ter um acesso sobre essas documentações, essas papeladas, e está tudo fechado. Atrasou bastante.  Não consegui pegar desde fevereiro até agora,” desabafa.

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Vendedor de máscaras em Itaquera, Elvis ainda não recebeu o auxílio @Everton Pires/Agência Mural

As máscaras são adquiridas direto de um fornecedor local e comercializadas pelos jovens em terminais e estações do Metrô e da CPTM da zona leste pelo valor de R$ 5.

O tempo de serviço varia da renda alcançada no dia. Em média, são vendidos de 10 a 15 itens diariamente. “Faço todo dia. Como precisa, ontem mesmo eu fiquei das 15h até as 23h em pé vendendo as máscaras”, aponta Lucas.

David está começando agora a venda do produto. Trabalhava como assistente de eletricista até fevereiro, quando pediu demissão devido a problemas pessoais dentro da empresa.

De lá para cá, já vendeu creme para pentear cabelo, água, doces, divulgou serviços de uma assistência técnica de celulares, e atuou como ajudante de pedreiro em uma obra com seu tio.

Com um mês e meio de aluguel atrasado, ainda não recebeu nenhuma parcela do auxílio emergencial. “Passou quase um mês para ser aprovado. E agora que foi, tem umas duas semanas que não consigo abrir o Caixa Tem, nem para fazer a conta, nem nada”, relata.

David e Lucas formam uma dupla. Ajeitam a banquinha nos terminais e anunciam o produto. Enquanto tentam chamar a atenção da clientela, precisam ser discretos para não atrair os seguranças da estação e, ocasionalmente, perderem a mercadoria. 

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No centro comercial de Itaquera, Elvis da Silva, 27, observa a movimentação da rua enquanto toma conta da banquinha de máscaras exposta na calçada. Vende três unidades a dez reais, uma forma de ganhar da concorrência, que geralmente vende a unidade a cinco.

O jovem costuma sair de casa antes do sol nascer às 4h para buscar o produto no Brás, região central de São Paulo. Comercializa durante todo o dia, mas ainda não obtém lucro, investindo tudo no reabastecimento do estoque. 

O auxílio emergencial dele foi negado. “Se tivesse um dinheiro, uns R$ 1.000, investia tudo em máscara. Se eu ficar aqui na semana, faço esse dinheiro voltar para mim e vai crescendo, né?”, calcula Elvis, que está desempregado há três meses.

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Ele não é dos ambulantes mais agitados. Prefere ficar num canto e abordar com educação quem se interessa pelo produto. As máscaras personalizadas, coloridas, com símbolos, nomes, desenhos, é a tentativa de atrair a clientela, além do valor mais atrativo da unidade (R$ 4 cada). “Vejo que é nem para proteger, é porque acha bonito, combina com a roupa. Quem tiver o menor preço ou o gosto é quem vende mais”.

A quantia é o suficiente apenas ajudar com alguma conta em casa, onde mora com o tio. O sonho de Elvis é conseguir juntar a quantia necessária para a compra de uma moto “no leilão, podendo implementar a renda, fazer entrega numa pizzaria,” conta.

Obrigados pela necessidade de garantir renda, a quarentena é segundo plano. Tomam os cuidados necessários na medida do possível, como o uso do álcool em gel e máscara. 

Dizem que a ajuda do governo não surtiu efeito e observam as ruas cada vez mais cheias, enquanto o número de mortes diárias por Covid-19 ainda é alto. “O povo está precisando trabalhar. Aqui não tinha camelô nenhum, olha o tanto de pessoa que está na rua tentando ganhar um dinheiro agora,” diz Elvis, apontando para a intensa movimentação de pessoas pelo centro do bairro.

Lucas vai ainda mais fundo nos motivos que o obrigaram a ter de voltar às ruas e deixar de lado as medidas de segurança. “A gente precisa trazer um leite, uma fralda. [Se meu filho precisar] Vou falar: ‘filho, espera aí que tem o corona lá fora’?”, questiona. “Não dá, a gente tem que meter as caras mesmo”.

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Everton Pires

Jornalista, apaixonado por histórias, música, fotografia, futebol e pelo bairro. Correspondente de Itaquera desde 2019.

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