Eleição entre pais e filhos: prefeitos atuam por parentes na disputa de deputado

Existe alguém melhor para votar do que no meu pai, meu filho ou minha esposa? Para políticos da Grande São Paulo, não. Só na eleição deste ano, ao menos nove prefeitos e vices contam com familiares na disputa eleitoral e tentam manter o laço familiar em Brasília ou na Assembleia Legislativa.

Entre os nomes, alguns já cumprem mandato e tentam a reeleição, caso da deputada federal Bruna Furlan (PSDB). A tucana tenta o terceiro mandato na Câmara e é filha de Rubens Furlan (PSDB), prefeito de Barueri eleito pela quinta vez em 2016. Ela dobra com Analice Fernandes (PSDB), esposa de Fernando Fernandes (PSDB), gestor de Taboão da Serra. 

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Outros ensaiam o primeiro mandato como Marmo Cezar (PSDB). Ex-prefeito de Santana de Parnaíba, ele é pai do atual mandatário, Elvis Cezar (PSDB). Antes de entrar na disputa eleitoral, o pai foi secretário de serviços municipais da gestão do filho e usa o trabalho durante o período como vitrine para entrar na disputa.  Esse tipo de nomeação ocorreu em ao menos 14 cidades da Grande São Paulo no ano passado.

O sistema político brasileiro favorece a eleição de parentes, porque a ligação com as lideranças partidárias dos parentes de políticos são mais fortes do que a dos novos ingressantes na vida pública, apesar da alta rejeição  aos políticos tradicionais”, avalia o cientista político Eduardo Viveiros.

“Há um “clamor” por renovação na política, principalmente por conta do desgaste ocorrido nos últimos quatro anos. O “filhotismo” na política, ao lado da corrupção e da falta de representatividade do sistema político colaboraram para esse desgaste”, reforça.

Maurici Lima concorre a estadual com apoio do filho, o prefeito de Franco da Rocha Kiko Celeguim (Divulgação)

A ideia de emplacar parentes não tem distinção partidária. Em Osasco, o ex-prefeito Francisco Rossi (PR) tenta uma vaga na Assembleia Legislativa. A esposa de Rossi é vice-prefeita da cidade.

No caso do MDB, em Mogi das Cruzes, o vice-prefeito Juliano Abe concorre a estadual em dobrada com o pai, Junge Abe, candidato a federal.

No PT, o prefeito de Franco da Rocha, Kiko Celeguim, apoia a postulação de Mário Maurici de Lima Morais, seu pai e ex-prefeito da cidade entre 1993 e 1996.

Minha candidatura decorre da necessidade de representação que a região de Franco da Rocha tem historicamente”, afirma Maurici. “E também do momento difícil por que passa o país, a sociedade brasileira e o cerco que tem sofrido o PT e as forças progressistas: é necessário que todos estejamos nas trincheiras”.

O pai admite a participação do filho na definição da candidatura e aposta na avaliação do governo municipal para buscar votos. No entanto, nega o caráter de ‘dinastia’, quando um grupo familiar tenta se manter no poder por gerações.

“É um processo diferente de muitas “dinastias” que se formaram pelo país, em que há quase que uma sucessão hereditária”, afirma. “A trajetória política do Kiko, meu filho, tem pouca relação com a minha. Não atrapalhei, mas também não ajudei”. 

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“As famílias da política usam seu nome famoso como uma marca, e as pessoas tendem a preferir o conhecido, mesmo que haja outros mais capazes ou interessados em fazer alguma mudança”, opina o estudante Luiz Rodrigues, 22, eleitor em Franco da Rocha.  

Outros afirmam que irão votar, justamente pela proximidade. “Eu votaria, que eu saiba não tem nada de muito errado que ele tenha feito. Sim, ajuda, porque já conhece”, diz a fiscal de loja Denise Lima, 37.

Para o pedreiro Irapuan Conceição, 63, morador do Jardim Progresso, ele não vê problema na ligação. “Se o filho está fazendo o pai ensinou. Tudo que o Kiko está fazendo aprendeu com o pai. Sou carioca, há 28 anos em São Paulo, de lá para cá nunca vi ninguém fazer nada que o Kiko fez, o pai dele vai ganhar. Porque o Kiko plantou, ele ganhou, ninguém vai negar o que está plantado”.

Candidata Carla Morando com o marido e prefeito Orlando Morando, no carro de som em São Bernardo (Ricardo Cassin/Divulgação)

FALTA DE RENOVAÇÃO

Professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), o cientista político Leandro Cosentino, 32, avalia que Lei da Ficha Limpa, é outro fator que motiva o lançamento de familiares, que se tornam eventuais substitutos para  manter o poder do clã. “Uma vez que não posso me candidatar porque estou inelegível coloco meu filho, esposa, irmão. É assim que tem ocorrido, isso não é necessariamente um sinal pujante. É um fato da realidade que está acontecendo”.

Para o cientista político Eduardo Viveiros, o cenário familiar na política está dentro de um cenário de dificuldade da renovação no legislativo.

Na cultura política, ele aponta três fatores que pesam a favor desse tipo de candidatura: nome conhecido (mais fácil de ser lembrado pelo eleitor), acesso a financiamento de campanha e controle da máquina partidária de sua base eleitoral. 

“Por outro lado, existem condições objetivas que favorecem a eleição de filhos, maridos, esposas e netos de políticos, mesmo os que estão concorrendo pela primeira vez”, diz Freitas.

MARIDOS E ESPOSAS

Deputada em busca do seu quarto mandato, Analice Fernandes (PSDB) concorre ao cargo de deputada estadual com apoio do prefeito de Taboão da Serra, Fernando Fernandes. No entanto, o prefeito tem enfrentado dificuldades para ter o apoio dos vereadores.

Em agosto deste ano, cinco vereadores aliados de Fernandes retiraram o apoio que dariam a deputada e declararam ajuda a Hugo Prado (PSB), que disputa o mesmo cargo. No  mesmo mês, Fernando Fernandes discutiu com os parlamentares e a confusão quase acabou em agressão física.

O impasse ganhou contorno regional, pois Hugo é apoiado pelo prefeito da cidade vizinha, Embu das Artes, Ney Santos (PSC). Ney critica a esposa de Fernandes e diz que ela não trouxe recursos para a região. Da sua parte, Ney também quer uma familiar na política e lançou a irmã Ely Santos (PRB), para deputada federal.

Estima-se que no Congresso, 62% dos parlamentares eleitos em 2014 tinham algum vínculo de sangue com outro algum líder político.

Apesar de questionável, a proximidade familiar é usada com trunfo e a promessa de recursos. “Tendo o Fernando como prefeito e a Analice deputada dá a impressão de que os dois juntos fizeram coisas excelentes em prol da nossa cidade”, diz Aline Baia, 35, eleitora de Taboão da Serra.

Outra esposa que está na disputa é Carla Morando (PSDB), casada com o prefeito  de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB). O gestor foi deputado estadual entre 2002 e 2016 e tenta agora retomar o espaço na Assembleia Legislativa por meio de Carla, que é fisioterapeuta e empresária.

“Me espelho muito em seu trabalho, sei que poderei contar com a opinião dele em meu mandato, se assim eleita, e com seu conhecimento na Assembleia. Orlando tem sido um excelente cabo eleitoral”, diz. Segundo a candidata, o prefeito tem usado o horário de almoço para caminhar pelos bairros, participa de atividade da campanha nos fins de semana, em reuniões e carros de som.

Thiago Auricchio, filho do prefeito de São Caetano, com lideranças partidárias (Gabriela Gonçalves/Divulgação)

Jovem e com sobrenome conhecido em São Caetano do Sul, o advogado Thiago Reis Auricchio, 25, tenta também pela primeira se eleger como deputado estadual. Ele tem o apoio do pai, o prefeito José Auricchio Júnior (PSDB), mas costuma dizer que não pensa como o chefe do Executivo.

“Temos pensamentos diferentes, digo que se encaixa no modelo do melhor amigo. Algumas ideias são semelhantes, a ajuda dele foi importante, mas não decisiva”, diz.

O candidato vem pelo PR, partido que não está na coligação do PSDB a nível estadual. Mesmo assim tem feito caminhadas, carreatas e conversado com eleitores junto do pai. “A política tem sua dinâmica. O fato de disputar por outra legenda que não é a mesma do meu pai mostra que em algumas questões temos opiniões divergentes”, comenta.

Julia Reis, Micaela Santos, Kátia Flora e Paulo Talarico são correspondentes de Taboão da Serra, Franco da Rocha, São Bernardo do Campo e Osasco

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