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Escritoras criam espaços para a literatura negra e falam sobre os desafios no mercado editorial

Para autora, as práticas racistas interferem na igualdade de oportunidades oferecidas nos salões literários
Ana Fátima tem publicado livros infatojuvenis com um olhar afrocêntrico | Moisés A. Neuma/Agência Mural

A dificuldade para publicar o terceiro livro, do gênero infantojuvenil, fez com que a escritora e CEO Ana Fátima, 35, fundasse, em 2020, a editora Ereginga Educação. Moradora do bairro de Saramandaia, em Salvador, a escritora conta que o propósito da editora é publicar livros de autoria negra. 

“Decidi entrar no mercado editorial e fazer minha própria linha de produção. Porém, não pensei em publicar apenas livros meus. A ideia é aquilombar. Já nasceu com o propósito de publicar literatura negro brasileira”, explica. 

Nos últimos anos, foram publicados os livros Makori e as pequenas princesas, de Marcos Cajé, e Tunde e as aves misteriosas (2020), de Ana Fátima. “Marcos Cajé  publicou com a gente no início de 2021. Agora vai fazer uma nova edição de um clássico dele – ‘Igbo e as princesas’. E trago meu livro ‘As tranças de minha mãe, em nova edição'”, conta.

Para a escritora, as práticas racistas interferem na igualdade de oportunidades que são oferecidas. “Vivemos nesta sociedade racista que ainda premia autores não negros apenas porque eles são não negros. Elas veem como uma melhor possibilidade de venda, uma voz de credibilidade, enquanto nós produtoras negras não temos espaço garantido”.  

Para a escritora Gonesa Gonçalves, a literatura negra reescreve histórias apagadas | Moisés A. Neuma/Agência Mural

A invisibilidade dos livros de autoria negra no âmbito acadêmico também fez com que a escritora e professora Gonesa Gonçalves, 33, do bairro do Engenho Velho de Brotas, criasse, com dois colegas da época da Faculdade de Letras, o coletivo Enegrescência (@enegrescencia).

“O projeto nasceu por termos percebido que o cenário negro literário não era abraçado pelos grandes salões. Não só a literatura brasileira, mas de países africanos de língua portuguesa”, explica.

Desde 2016, o coletivo tem realizado saraus, oficinas, além da publicação de coletâneas. Neste ano, o coletivo realizou oficinas online para incentivar autores jovens, negros, periféricos, quilombolas, LGBTs, que nunca publicaram seus textos. 

“Enquanto professores percebemos potenciais escritores nas salas de aula que não conhecem o meio literário. Na oficina, falamos sobre o mercado literário, sobre a literatura negra, quem são os autores negros para que conheçam e leiam mais”, conta.

Para Gonesa, o projeto tem alcançado resultados positivos, pois muitos autores iniciantes que publicaram na coletânea Enegrescência, da editora Ogums, em 2011, tiveram livros publicados atualmente. “‘Aos meus homens’ [2021] foi a primeira publicação do Marcelo Ricardo. Temos Louise Queiroz e o livro ‘Os Girassóis estendidos na chuva’ [2019]”.

Primeiro livro de Louise Queiroz traz o silêncio e a afetividade como temas | Moisés A. Neuma/Agência Mural

Moradora da Estrada da Rainha, a poeta Louise Queiroz, 27, acredita que as coletâneas são importantes espaços para quem está começando na literatura.  “Quando eu fui selecionada foi uma surpresa e, ao mesmo tempo, me fez repensar muitas coisas que havia consolidado sobre mim mesma”. 

A publicação fez com que Louise se enxergasse no lugar de escritora. “Estar neste lugar com outros escritores, através das coletâneas, fez acreditar que era possível. Isso fez com que entrasse nesse cenário literário de uma forma consciente e respeitosa. Olhando este espaço como um lugar possível para o meu corpo”, explica.

A poeta frisa que esta não é a realidade da maior parte das escritoras negras. “Eu publiquei a convite de uma editora, mas isso é exceção, não é regra. Há dificuldade de publicar nossos trabalhos, porque não somos vistas como intelectuais, como produtoras de conhecimento”.

Segundo Louise, “Girassóis estendidos na chuva”, da editora Paralelo 13S, traz dois grandes temas que atravessam suas vivências: O silêncio e o Afeto. “Não só o silêncio como forma de romper o silenciamento. Mas, o silêncio como um transeunte que assume diversas formas. Assume também um lugar de reverência, quando escrevo o poema “Senhor da terra”, em reverência ao Nkisi Kavungo”.  

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Na segunda parte do livro, o afeto surge através das mulheres. “Eu fui criada numa casa com nove mulheres. Se não fossem essas mulheres, eu não conseguiria estar onde estou hoje. Não haveria como falar da minha escrita sem falar desses atravessamentos, sem falar da minha construção afetiva que vem através das mulheres”.

Para Gonesa Gonçalves, tratar da afetividade entre pessoas negras na literatura é muito importante. “O afeto é uma questão que a gente precisa falar muito, porque nós estamos acostumados a produções de arte em que não aparecíamos enquanto pessoas passíveis de afeto”. 

A afetividade é um dos temas que perpassa “Cata-Vento” (2020),  da editora Segundo Selo, primeiro livro de poemas de Gonesa. “Minha poesia é homoafetiva, negra, homoerotica, mas traz, sobretudo, a questão do afeto que nos foi negado”.

Neste ano, a escritora foi convidada a participar da coletânea “Quillombelas amefricanas” (2021), da editora Ogums, com mulheres negras da diáspora. “Essa coletânea é de extrema importância. Ela coloca mulheres conhecidas no cenário literário, até da música, como Luedji Luna, junto de mulheres com menor visibilidade, para mostrar que elas também têm talento e [o mercado editorial] não dá chance”. 

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Cata-ventos é o primeiro livro de poemas de Gonesa Gonçalves Moisés A. Neuma/Agência Mural
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Louise Queiroz afirma que mulheres negras não são reconhecidas como intelectuais Moisés A. Neuma/Agência Mural
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Ana Fátima diz que é preciso alimentar positivamente o imaginário das crianças pretas Moisés A. Neuma/Agência Mural

Segundo Ana Fátima, da editora Ereginga Educação (@ereginga.educacao), os novos autores precisam apresentar suas produções ao mercado editorial. “Quem está começando, quem é o autor, autora independente negro também tem uma escalada fabulosa e, às vezes, só precisa de uma oportunidade”. 

“Temos uma escritora iniciante chamada Nina Amado, com uma publicação infantojuvenil chamada ‘Mulheres Insurgentes’, que são as educadoras baianas Ana Celia, Rutinha Cerqueira, Vanda Machado, Nascimária”, conta. 

Ana Fátima explica que a editora não trabalha apenas com literatura infantojuvenil. Mas o seu interesse pelo gênero tem atraído autores com gostos semelhantes. “Em 2015, quando meu filho Maurício Akin nasceu, eu me senti no compromisso de fazer uma contribuição com esse nosso olhar afrocêntrico”.

“A partir do momento em que a gente escreve para as nossas crianças, mostrando que nós somos, sim, reis e rainhas, tivemos impérios e civilizações, construímos muitas ciências é claro que essa criança vai se ver no lugar como produtora e protagonista da sua própria história”.

A editora também tem apostado em estratégias para visibilizar a literatura de autoria negra. “A gente pode driblar os custos do mercado, que é isso que algumas editoras grandes ou até de médio porte não fazem com o escritor iniciante. Colocam os preços muito elevados, porque sabe que ele não pode bancar e ali faz uma pré-seleção de quem você quer publicar”, explica.

Contatos:
Ana Fátima @fatimaodara
Louise Queiroz @louisequeirozpoesia
Gonesa Gonçalves @gonesas

Rosana Silva

Jornalista, correspondente de Pernambués/Cabula em Salvador, BA, desde 2020. Tem trabalhado em produções voltadas para arte, cultura e comunicação. Adora um cafezinho com cuscuz, um bom solo de violão e a luminosidade da cidade do São Salvador da Bahia.

Salvador/BA

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