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Agência de Jornalismo das periferias

Reportagem: Everton Pires, Lara Deus, Luís Nascimento e Matheus Santino | Foto: Léu Britto

Edição: Paulo Talarico

Publicado em 23.11.2021 | 12:44 | Alterado em 24.11.2021

RESUMO

Movidos pelo sonho de viver da própria arte, artistas de várias quebradas de São Paulo têm buscado meios para gravar os próprios clipes e buscar renda aproveitando o boom das plataformas de streaming

Tempo de leitura: 12 minutos
NAVEGUE

O “faça você mesmo” é uma filosofia passada de geração para geração nos movimentos artísticos das periferias. A cena do rap dos anos 2000 ou da chamada “Golden Era” dos anos 1990, época dos Racionais MCs, são exemplos de como a independência pode levantar um gênero musical ou toda uma cultura.

Esse movimento artístico nascido nos bairros, fomentado pelos próprios moradores das quebradas de São Paulo, nunca parou. E agora encontra outras caras.

Mesmo com a pandemia de Covid-19, que afetou boa parte dos cantores, selos e produtoras musicais periféricas nasceram ou se fortaleceram nos últimos meses. Com poucos recursos, tentam mostrar que é possível fazer um trabalho bem feito e levar novas caras para a cena musical.

Nesta reportagem especial que marca os 11 anos da Agência Mural, correspondentes de quatro diferentes periferias da capital paulista e da Grande São Paulo mostram como essas produtoras atuam e, de estúdios caseiros a empresas com maior estrutura, têm ampliado o acesso de artistas das quebradas.

Studio Viana tem nome inspirado na família de Dona Laura, 85 Léu Britto/Agência Mural

NAVEGUE

Um estúdio caseiro

No Jardim São João, Guaianases, zona leste de São Paulo, Kainan Martins, 21, e Kaique Fernandes, 23, fazem rap em uma sala iluminada por luz neon.

Fixada na parede, a TV exibe linhas de gravação. Logo abaixo, em um apoio estão as caixas e placa de som e, sobre uma cadeira, o gabinete do computador. Ao lado se encontra o pedestal com microfone, coberto por uma caixa de papelão forrada com espumas, para isolar a voz.

É neste cenário que os amigos produzem as próprias músicas. Kainan canta. Já Kaique é o responsável pela gravação. Este, desde muito novo interessado na música, aprendeu a produzir em uma oficina realizada na Casa de Cultura Raul Seixas, em Itaquera, na zona leste da cidade.

“Aprendi o básico do básico: abrir o programa, fazer uma batidinha simples e, de resto, fui buscar o conhecimento e estudar online, vendo vídeo no YouTube.”

Kaique utiliza o termo “Sutha”, que está ligado às crenças budistas e “aos ensinamentos através das palavras. Eu faço rap, e o rap tem muita conscientização, muita ideia pra trocar de periferia para periferia, de quebrada pra quebrada”, finaliza.

Kaique e Kainan em produção feita em casa na zona leste

Os dois são exemplos da nova realidade da produção musical. A tecnologia cada vez mais avançada no setor proporciona a gravação de composições em qualquer dispositivo, seja smartphone ou computador, sem a dependência de um estúdio profissional.

Assim, quartos e salas se tornaram “home studios” (estúdios caseiros), expressão cada vez mais comum no meio musical.

Entretanto, a acessibilidade ainda cobra um preço. Além do computador, é necessário pagar por equipamentos com valores elevados para o produtor iniciante, principalmente com a alta do dólar e a crise econômica do país.

“Fui ver o preço das caixas que paguei R$ 500, hoje em dia está R$ 700, R$ 800. O fone de ouvido, que antes era R$ 150, agora está R$ 250. A placa de áudio, que era R$ 300, está R$ 600”, analisa Kaique sobre o custo de ferramentas simples.

O jeito foi improvisar. “Quando eu comecei mesmo, fazia uma gambiarra, ligava no PC e fazia uns beats na caixinha JBL, aquelas falsas”, relembra Kaique.

O retorno financeiro ainda não é o dos melhores. Kaique costuma colaborar com artistas desenvolvendo beats. Nas plataformas de streaming, possui algumas de suas produções em playlists.

Até a sua última consulta no Spotify, por exemplo, o produtor tinha arrecadado pouco mais de 2 dólares com a reprodução de seis músicas. Na cotação atual da moeda, o valor ganhado seria em torno de R$ 10.

Atualmente, eles usam distribuidoras que cobram uma porcentagem do lucro por reprodução. Uma renda mais significativa passa antes pelo registro das composições em uma associação de músicos, o que possibilitaria, por exemplo, a venda dos beats e criação de um canal no YouTube com direitos autorais integralmente garantidos.

Porém, a burocracia e a pandemia acabaram adiando esse objetivo. “Já era para termos feito. Com a pandemia, estão fazendo só online e esse processo é meio chato, demora para registrar,” explica.

Apesar das dificuldades para quem está começando, a música indica um movimento de alta – pelo menos oficialmente.

Setor da música no Brasil

Antes de irmos da zona leste para a zona sul, vale contextualizar o momento da música e o impacto da pandemia de Covid-19.

O setor viveu um movimento duplo. De um lado, os artistas passaram boa parte da pandemia com dificuldades, com a queda das apresentações ao vivo. O auxílio via Lei Aldir Blanc, que ofereceu R$ 600 para artistas e trabalhadores do setor, só veio em 2021.

No entanto, a chamada indústria da música tem anunciado avanço, sobretudo por conta das novas plataformas de streaming, como Spotify, Deezer e YouTube.

No último ano, o lucro aumentou em 24,5%, a maior alta do mercado desde 1996, segundo dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica.

217.Rec aposta no vinil para preservar a cultura das periferias Léu Britto/Agência Mural

NAVEGUE

Acompanhando esse movimento, o segmento de Serviços Digitais do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) somou R$ 184,5 milhões em execução pública em 2020, representando um aumento de 41,2% em relação a 2019. O crescimento é reflexo de acordos feitos entre o Ecad e as plataformas.

A alta não é algo visto só no Brasil. A edição de 2021 do Global Music Report (Relatório Global da Música), publicada pela IPFI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), mostra que o mercado da música cresceu 7,4% em 2020, sendo o sexto ano seguido de crescimento da área. Segundo o relatório, a expansão foi conduzida pelo streaming.

É com essa perspectiva de novas ferramentas e plataformas que artistas começaram a criar os próprios estúdios, mesmo que dentro de casa.

As tradições dos Vianas

Dona Laura, 85, é conhecida nas ruas da Vila Missionária, na zona sul de São Paulo, como uma benzedeira antiga do bairro. Mas, desde maio, o neto tem usado o exemplo dela para reforçar um outro tipo de trabalho.

O rosto dela estampa o selo do Studio Viana, criado com a intenção de impulsionar artistas das periferias. Esse foi o desejo de Vinicius Viana, 22. Músico profissional há mais de cinco anos, ele contou com a experiência musical e a ajuda de amigos para dar início ao projeto.

Vinícius associa a prática da avó (que utiliza o espaço do estúdio para o ritual) ao processo de cura que a música proporciona.

“Acredito que agora é o momento de potencializar o trampo de quem está começando”, conta Vinicius. “Tive a sorte e a oportunidade de fazer alguns trabalhos legais dentro e fora do Brasil.”

Grupo atua na região da Vila Missionária, em Cidade Ademar @Léu Britto/Agência Mural

Quando era adolescente, Vinicius tinha o sonho de criar um polo cultural no bairro, que fica no distrito de Cidade Ademar. O espaço de criação fica ao lado do quarto de dona Laura. Lá, ele produz, compõe e tira seus projetos do papel.

Para investir em melhorias, reformas, iluminação e equipamentos do estúdio, Vinícius trabalha de segunda a sexta-feira em uma seguradora, desde a adolescência.

Hoje o estúdio já gera algum lucro, sendo possível contratar e remunerar profissionais das áreas de edição, fotografia e filmagem, que é também um dos objetivos dele: gerar empregos com a música.

Uma das inspirações de Vinicius é o Lab Fantasma, selo musical do rapper Emicida. “Vendo o trampo dos caras, eu pude ver que é possivel.”

Os primeiros vídeos produzidos pelo Studio têm apostado no cover – artistas das periferias que interpretam músicas de artistas reconhecidos. A última foi Lua, cantando “Borandá”, música de Edu Lobo e Maria Bethânia.

Trabalhos como do Studio Viana tem se espalhado pela região.

Vinis periféricos

O Coletivo 217 é um espaço cultural independente que promove eventos há quase uma década no limite entre o distrito de Pedreira, também na zona sul da capital, e Diadema, na Grande São Paulo.

Foi ali que nasceu a produtora 217 Rec., com a proposta de produzir artistas locais e potencializar a cultura periférica.

Hoje, o local conta com equipamentos, equipe e estrutura para produzir artistas de diferentes estilos musicais, graças aos recursos conquistados via Lei Aldir Blanc.

“Eu já tinha alguns equipamentos na casa e, trocando uma ideia com um amigo que é produtor musical, decidimos unir forças e começar a montar um estúdio aqui no nosso espaço”, conta Luiz Land, 38, administrador do coletivo e colecionador de discos.

Estúdio 217.Rec em Diadema tem ajudado na produção de artistas locais Léu Britto/Agência Mural

NAVEGUE

Por muito tempo, a ausência de selos em Diadema fez com que artistas dependessem de produtoras de São Paulo ou de outras cidades vizinhas. A ideia deles é cobrir essa falta de espaços para a produção, o que reduz os custos.

“Além da grana investida na produção, ainda havia os custos de transporte, e isso faz muita diferença para quem é artista independente”, aponta o produtor musical Léo Acevedo, 34.

Léo e Luiz estão engajados no selo e desenvolvendo diversos projetos. Um deles é conseguir produzir álbuns em vinil. Foi o caso do primeiro lançamento da 217 Rec.: o EP “Cura”, da artista Ana Cacimba, 32, que também está nas principais plataformas digitais.

Para Luiz, essa é uma forma de garantir a preservação da cultura das periferias.

“Coleciono discos de vinil há anos, conheço muita gente do meio. A minha ideia é eternizar a cultura da cidade e o vinil é um material que vai aguentar por mais de 300 anos”, reflete.

A aposta na produção de vídeos é uma das principais características desses novos produtores, que usam o YouTube, IGTV, Reels (do Instagram) e TikTok para propagar novos artistas. Essa foi a forma que quatro mulheres da zona norte entraram no mercado.

Minas produzindo

Thais Costa, Juliana Resende, Mônica Melo e Sarah Azevedo são moradoras de Pirituba e da Freguesia do Ó e montaram em 2016 a Downtown 011.

A produtora era só um trabalho de faculdade, mas saiu do papel e se tornou uma empresa que produz clipes, vídeos, ensaios de fotos e coberturas de eventos para artistas e grupos musicais.

Mais procuradas por coletivos de hip hop e rap, elas começaram produzindo para artistas da região, mas hoje já trabalham até com pessoas de fora do estado de São Paulo.

Dountown 011 atua na zona norte de São Paulo

Um dos projetos mais recentes foi o “Inspirados no Mic”, em que artistas se juntam para criar uma música do zero (formato chamado de cypher). A produção musical é feita por um estúdio parceiro, o Santo Records.

Ter quatro mulheres à frente de um negócio da música causa surpresa em quem está acostumado a ver apenas homens no segmento. “Direto no nosso Instagram chamam a gente de mano, conversam com a gente achando que é um cara”, comenta Thaís.

Por enquanto, os comentários não causam incômodo. “A gente até fica feliz em ver a reação das pessoas com o conteúdo que a gente passa pra eles, né?”

As artistas alugaram um estúdio, no início de 2020, com a intenção de aumentar as possibilidades para captação de imagens. Mas, com o surgimento do novo coronavírus, as prioridades precisaram mudar.

“Tudo aconteceu rápido, tivemos que agir com cautela, pensar em como atingir o público sem precisar ter contato, mostrar nossos trabalhos de uma outra forma”, relembra Thais. A solução foi investir no segmento de lyric videos – clipes ilustrados pelas letras da música.

“Foi a maneira que encontramos de incentivar os artistas a lançarem suas músicas na internet durante a pandemia e também uma forma de levantar um dinheiro para não deixar que os boletos nos engolissem”.

Desde setembro, as donas da Downtown 011 veem uma tendência de retomada no setor, mas percebem que ainda não se compara ao movimento anterior à pandemia. “Muitos dos nossos trabalhos eram feitos em eventos e shows, porém este setor continua escasso”, lamenta.

Uma balbúrdia musical

Zaragata atua no Iguatemi, zona leste de SP @Divulgação

Contar com o apoio do bairro também é um fator que caracteriza algumas dessas novas produtoras. No Iguatemi, bairro do extremo leste paulistano, a Zaragata Rec já teve ajuda da comunidade para conseguir fazer as gravações.

Alguns moradores já cederam estabelecimentos, emprestaram ferramentas ou até forneceram água e bebidas para os artistas.

Usar uma cortina como fundo preto ou gravar três clipes de formas diferentes na mesma praça são algumas das histórias que mostram como o pensamento rápido faz a diferença.

“A gente tenta se diferenciar nos clipes, trazer coisas novas”, comenta Igor Gomes, 25, que cuida da produção dos vídeos, sets e fecha parcerias.

O começo da produtora veio pela vontade de amigos. Foi em uma troca de ideias que o barbeiro Nathan Navas, 26, conheceu o rapper Khalyl. Ao ver as letras, decidiram tentar gravar um clipe, depois outro e outro.

“No terceiro clipe, a gente já fez um grupo com todo mundo e desenrolamos a produtora”, conta Navas, diretor e editor de vídeo na Zaragata Rec.

A palavra “zaragata” significa “balbúrdia” ou “alvoroço”, que ocorre quando um grupo de pessoas se junta. Com originalidade, eles seguem fazendo uma zaragata por meio das músicas.

O grupo não se vê como uma empresa, mas como um coletivo em que todos têm voz. “A gente quer que todos sejam ouvidos, que as ideias tenham valor e que possamos evoluir como um único indivíduo, como se fosse uma célula em que todas as organelas trabalham pelo bem maior”, reflete Marx Mendes, 24, diretor e editor de vídeo.

A produção dos beats fica por conta do produtor Diego “Big Rich”, 26, enquanto as composições são responsabilidade de MC Khalyl, 20. Por enquanto, eles ainda não atendem outros artistas, mas pensam em expandir.

Para os criadores, ter começado na pandemia ajudou no amadurecimento do grupo, que, com pouco mais de cinco meses de existência, conseguem ter um planejamento e independência.

“Diferentemente das grandes produtoras, não temos a obrigação de vender show para não quebrar. Temos a autonomia de colocar nossa segurança na frente e dar uma segurada. Acho interessante como a gente está conseguindo jogar com tudo isso”, explica o videomaker Marcus Vinícius, 25.

Gravar a cada 15 dias, montar sets reduzidos e usar mais espaços externos são algumas das alternativas que eles encontraram para fazer o trampo rodar em meio ao caos. E falam com os “pés no chão” sobre o futuro.

“A gente acredita um no outro, cada um dá o seu máximo dentro do possível, e as coisas vão fluindo”, afirma.

“O sonho seria levantar mais artistas da quebrada, como isso aqui nasceu. Mostrar para a quebrada que é possível viver de arte, que é possível chegar lá”, diz Nathan.

“E onde “é lá”, né?”, questiona.

“Isso a gente vai mostrando conforme for acontecendo.”

Próxima Parada

2. Imagem do parque, zona leste Foto: @Lucas Marques

O baile mais esperado

Depois das 22h de sábado, um movimento de jovens começa a ser visto em Guaianases, na zona leste de São Paulo. Os pequenos grupos se reúnem em busca de alguma festa.

A situação era comum antes da pandemia de Covid-19, com aglomerações que duravam a noite inteira, mas, com o vírus, as orientações médicas passaram a ser o distanciamento social. Porém, para muitos, as festas continuam.

A situação era comum antes da pandemia de Covid-19, com aglomerações que duravam a noite inteira, mas, com o vírus, as orientações médicas passaram a ser o distanciamento social. Porém, para muitos, as festas continuam.

A situação era comum antes da pandemia de Covid-19, com aglomerações que duravam a noite inteira, mas, com o vírus, as orientações médicas passaram a ser o distanciamento social. Porém, para muitos, as festas continuam.

O estagiário explica que, nos primeiros três meses de pandemia, seguiu as recomendações de isolamento até onde deu. Mas, depois disso, cansou.

Ele comenta que ‘a vida não pode parar’ e que as pessoas ricas se isolam porque têm condições de ficar em espaços com opções de lazer. “E a gente aqui? Se isola e fica num cômodo com a família toda. Acho que é mancada com os pobres”.