Sem renda, banquinho ou violão

Na Grande SP, músicos tiveram até 100% da renda afetada durante a pandemia

Publicação: 30/03/2021 19:37

Profissionais da área da música têm sofrido os impactos da pandemia e relatam dificuldades para se manter financeiramente. A Agência Mural conversou com alguns deles, moradores de Suzano, Mogi das Cruzes e Itaquaquecetuba. Nas periferias, a situação é ainda mais complicada, já que muitos ainda buscam se consolidar no meio musical.

Reportagem

Jessica Silva, Lucas Veloso e Renan Omura

Edição

Paulo Talarico e Tamiris Gomes

“Penso todos os dias em desistir”, afirma o músico e estudante Yago Luna, 27. Desde que a pandemia começou, conseguir trabalho se tornou quase impossível. “Eu tocava em bares à noite, restaurantes e em festas, mas com as medidas restritivas estou sem trabalho”, conta.

Morador do bairro Caxangá, periferia de Suzano, na Grande São Paulo, o músico  mora junto com a mãe e diz que a renda individual diminuiu em 90%. Ele é um dos muitos artistas que têm sofrido os impactos da pandemia. No caso de quem se apresenta nas periferias, a situação é ainda mais complicada, já que muitos ainda buscam se consolidar no meio. 

A única renda de Yago nos últimos meses foi um auxílio permanência de R$ 400 pago pela  USP (Universidade de São Paulo), onde ele estuda música com habilitação em regência e composição.

Músico Yago Luna teve a renda afetada em 90% | Arquivo Pessoal

No início da quarentena, em março de 2020, ele ministrou aulas virtuais de música e realizou lives pela Secretaria de Cultura de Suzano. Porém, com a troca de gestão da pasta, ele aguarda uma nova convocação.  

“Essa instabilidade é uma das piores sensações. Além da insegurança financeira, esse número de mortes que cresce todos os dias tem me prejudicado. Até comecei a fazer consultas com psicólogos, mas parei para reduzir os gastos”, explica.

Para ele, uma das alternativas para ajudar a classe artística do município é a prefeitura criar editais de incentivo à cultura com durações mais longas. Dessa forma, os selecionados teriam maior estabilidade financeira e conseguiriam produzir em casa. 

Apesar disso, ele reforça que a música o ajudou a manter a saúde mental. 

“Cantar me conforta e é essencial para eu sobreviver a esse caos. Esse ano não tem muito o que fazer, então pretendo me dedicar somente aos estudos da música.”

Na mesma cidade, o produtor artístico Alexandre Becker Klein, 24, mais conhecido como Menestrel Klein, possui um estúdio em casa, no bairro Vila Urupês. Além de atuar com produção musical, audiovisual e fotografia, ele também agencia músicos locais e promove eventos. 

Após as restrições, o salário dele caiu cerca de 70%. “A maior parte dos meus trabalhos eram externos, por isso a pandemia me quebrou bastante. Hoje só presto serviços reclusos, como gravações no estúdio”, relata.

Alexandre mora com os avós aposentados. Ele conta que, antes do período de pandemia, investiu em equipamentos de produção e pretendia ampliar para outro espaço. Em decorrência da crise teve que suspender os planos. 

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Produtor artístico Alexandre Becker Klein teve 70% do salário afetado Arquivo Pessoal
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Homestudio do Alexandre Klein, na Vila Urupês, em Suzano Arquivo Pessoal

Para Alexandre, a publicação de mais editais de incentivo à cultura de ampla escala como a Lei Aldir Blanc, seria uma ajuda considerável para os músicos da cidade.  

A exemplo do auxílio emergencial, a Lei Aldir Blanc é uma iniciativa do governo federal que beneficia os profissionais do setor cultural com R$ 600 por mês, em três parcelas. 

Ao total, foi liberado R$ 3 bilhões para as gestões estaduais e municipais aplicarem em editais de fomento à cultura, manutenção de espaços culturais e chamadas públicas. O prazo de entrega dos relatórios de projetos foi previsto para julho de 2022.  

“Conheço vários amigos no ramo musical que estão perdendo tudo o que conquistaram. Inclusive estúdios fechando as portas e músicos passando dificuldades.” 

O produtor artístico afirma que um lockdown com mais restrições seria ideal para controlar a taxa de infecção do vírus, mas lamenta a ausência de auxílio do governo e a falta de isenção de impostos. “Proibir as pessoas de trabalharem e não dar condições de ficarem em casa é cruel”, conta.

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NA CIDADE VIZINHA

Em Mogi das Cruzes, também na Grande São Paulo, foi decretada a “fase crítica”, com restrições mais rígidas que a fase emergencial do Plano SP. 

Desde o dia 22 de março, está proibida a circulação de pessoas durante 24 horas no município, com permissões somente para ir à farmácia, hospital, mercado e trabalho.

Por conta dessas restrições, o cantor sertanejo Pedro Alves de Sousa, 34, da dupla Pedro & Luiz, teve o salário reduzido pela metade. Ele é morador do bairro do Rodeio, periferia de Mogi.

O músico Pedro Alves de Sousa, 24, apresentando com a sua dupla em Mogi das Cruzes | Arquivo Pessoal

Além de músico, ele trabalha como motorista. “Mesmo tendo outra fonte de renda além da música, meu salário caiu bruscamente. Mais ou menos uns 50%.”

Pedro lamenta a desvalorização dos artistas na pandemia e afirma que é preciso conscientizar as pessoas que a arte também é profissão. 

“Nós, artistas, somos profissionais. Música, teatro ou as derivações da cultura também são profissões e não apenas hobby.”

Ele não tem previsão para voltar a se apresentar. “O que sustenta mesmo é a fé em Deus de que um milagre aconteça e que até o fim do ano os eventos voltem ao normal”, completa Pedro.

SEM RENDA NA PANDEMIA

O aumento dos preços nos diversos setores impactou ainda mais a renda dos músicos.

“Meu salário diminuiu bastante, entre 40% e 50%, levando em conta a alta dos preços, isso tem mais impacto ainda,” afirma o instrumentista e professor de música popular e clássica, Fernando Novais, 39, morador do bairro Alto do Ipiranga.

Com o salário reduzido pela metade e acostumado a se apresentar em bares, restaurantes, eventos e teatros, Fernando se dedica exclusivamente às aulas de música online.

A renda de Fernando Novais, 39, diminuiu entre 40% e 50% | Arquivo Pessoal

Segundo ele, hoje, existem duas dificuldades em se trabalhar com música: a impossibilidade de fazer shows e a permanência dos alunos nas aulas online, pois muitos desistem justamente pela crise financeira. 

O cantor Breno Pereira, 33, conhecido como Brenô, mora no bairro Mogi Moderno. Ele teve a renda mensal completamente comprometida pela pandemia. 

“Tinha uma pequena reserva financeira, porém, não está nada fácil. Estou recebendo ajuda da minha mãe, que é aposentada, para pagar algumas contas”, relata.

Para sobreviver a este período, o músico fez alguns investimentos, como locação de um espaço para realizar lives para outros artistas. Mas, quando o assunto é o futuro, Breno é pessimista. 

“Infelizmente, nosso atual governo federal se mostra totalmente despreparado e sem nenhum compromisso com a nossa vida.”

O cantor afirma que pensa em desistir da carreira musical todos os dias, mas que a profissão fala mais alto. “O amor pela música e a missão de levar alegria à vida das pessoas é maior”, diz.

Breno Pereira, 33, apresentando em um casamento | Arquivo Pessoal

Em nota enviada à Agência Mural, a Secretaria Municipal de Cultura de Mogi das Cruzes disse que desenvolve ações de auxílio emergencial aos artistas de todos os segmentos.

O órgão afirmou que há contratação direta, editais de premiação e de criação de arte e cultura. Citam o exemplo do Festival Cultura em Casa, que contará com 40 atividades de múltiplas linguagens, envolvendo diretamente 110 profissionais.

A secretaria disse que elaborou editais de produção de conteúdo digital, com apoio de fomento direto. A pasta ainda argumentou que, por meio da Lei Aldir Blanc, garantiu a transferência de R$2,7 milhões a profissionais da arte e cultura do município. 

MAIS DIFICULDADES

A situação não é diferente na Vila Gepina, em Itaquaquecetuba, onde mora o cantor de sertanejo universitário Nathan Ginach, 21. Por lá, ele resume a situação. “Sou 100% autônomo, sem shows, sem ganho. E as contas não param de chegar”, diz.

Nathan conta que uma das maiores dificuldades é pagar as parcelas de compra de equipamentos de som, cabos, monitores e receptores. Na tentativa de driblar a crise, o músico está vendendo alguns dos equipamentos musicais e pertences pessoais, como um teclado, celular, tênis e roupas.

“Sou 100% autônomo, sem shows, sem ganho”, relata Nathan Ginach, 21 | Arquivo Pessoal

O cantor diz acreditar que as pessoas precisam entender que o trabalho dos músicos é como todos os outros. “Levamos o sorriso e conforto para as pessoas que nos prestigiam, a música mexe com o sentimento de todos, seria legal se fosse recíproco.” 

Na zona leste da capital a situação também segue complicada. Solange Cristina de Assis, 38, conhecida como Sol Assis, é moradora do distrito de Itaim Paulista, na capital paulista. A cantora sertaneja conta que, sem poder se apresentar, passou a se manter com a renda do marido. 

“Nós, músicos e cantores, apagamos incêndio com conta gotas. É tudo muito incerto.”

Solange também já pensou em desistir do ramo da música e não descarta a possibilidade de buscar outra saída para ajudar nas finanças de casa. 

Sol Assis também já pensou em desistir do ramo da música | Reprodução/Instagram

“Refletindo todo este cenário, é difícil não pensar em desistir. No momento ainda não busquei outra alternativa, a opção foi reduzir custos ao máximo possível, mas não descarto a possibilidade. Já estou estudando e analisando”, conta.

Questionadas pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo, Suzano e Itaquaquecetuba não responderam até o fechamento do texto.