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Estudante vence preconceitos e cria projeto de moda que atrai jovens no Nordeste de Amaralina

Aos 17 anos, Sthephanie Silva fundou o Editorial Nordeste que atualmente possui cerca de 150 modelos
Sthephanie Silva, criadora da Editorial Nordeste, projeto de moda que resgata autoestima de jovens no Nordeste de Amaralina | Divulgação/Rodrigo Ávila

Com apenas 17 anos, a estudante Sthephanie Silva percebeu que contrariar os padrões de beleza do mundo da moda foi importante para sua autoestima como modelo. Com a descoberta decidiu criar um projeto para impulsionar o sonho de outras 150 crianças e adolescentes da comunidade do Nordeste de Amaralina, em Salvador, onde mora.

Em setembro do ano passado, a estudante fundou o Editorial Nordeste (EN) com o objetivo de auxiliar jovens modelos periféricos a ingressarem no mercado de moda, fora dos padrões pré-determinados. “Desde o início, quis que o Editorial fosse totalmente inclusivo, porque eu sei o que é a rejeição das agências. Costumava ouvir de profissionais que meu rosto era bonito, meu porte físico era bom, mas que eu precisava emagrecer e esses comentários faziam até com que eu parasse de comer’, afirma.

Sthephanie relembra que esse interesse em quebrar padrões surgiu aos 12 anos, quando assumiu a forma natural dos seus cabelos e parou de usar químicas para alisá-los. A mãe de Sthephanie, a trancista Daniela Santos, 39, conta que a mudança de visual fez com que a filha enfrentasse situações preconceituosas, até mesmo no ambiente familiar.

“Quando ela decidiu cortar o cabelo, a autoestima dela caiu um pouco. Eu estava desempregada e foi aí que aprendi a trançar cabelos. Em uma ocasião, ela vestiu um macacão afro e foi até a casa da avó já com o seu black power, mas ao chegar lá, ela pediu para Sthe prender o cabelo e rasgou o macacão dela. Até hoje Sthe não consegue vestir um macacão”, conta Daniela.

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Letícia Cerqueira, 16, conta que sempre teve o sonho de ser modelo Divulgação/Clériston Alves
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Íris Victória, 20 anos, é modelo plus size no EN Divulgação/Rodrigo Ávila
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Marlon Santos, 18, faz parte da primeira turma de modelos masculinos no projeto Divulgação/Rodrigo Ávila
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Tainá Barros, 18, tem orgulho do seu black power Divulgação/Rodrigo Ávila
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Sthephanie Silva dá aulas de passarela no Editorial Nordeste Divulgação/Rodrigo Ávila

Para a mãe, foi após a filha ganhar o primeiro lugar do concurso Garota BCS em 2019, realizado pela Base Comunitária da Polícia Militar da Bahia, que ela percebeu a necessidade de criar um projeto que abraçasse a diversidade.

“Quando chegamos ao concurso tinha uma modelo plus size. A garota se sentiu muito desconfortável, pois era a única modelo plus na competição e foi embora sem sequer chegar a competir. Foi aí que Sthe me disse que precisava fazer algo por aquela menina’’, relembra Daniela.

No início do projeto, a ideia era recrutar cerca de 10 garotas para participar de uma sessão de fotos de um Editorial Jeans em que Sthephanie daria aulas de passarela e postura. As aulas fizeram tanto sucesso que o número de participantes cresceu rapidamente. Com a saída de alguns apoiadores, a estudante assumiu a direção quando já havia cerca de 80 alunas, de diversos segmentos: plus size, trans, infantis.

Atualmente, com 150 alunos, a partir de 6 anos, a EN conta com o apoio de lojas e oferece aulas de passarela e boxe. Íris Victória, de 20 anos, é uma das modelos plus size do projeto, que destaca mudanças em sua autoestima.

“Conheci um menino que disse que não iria namorar comigo por eu ser gorda. Para tentar me encaixar no padrão que ele gostava, tentei emagrecer de diversas formas e acabei desenvolvendo anemia. Quando finalmente entendi que não valia a pena, comecei a investir em mim. Hoje, digo com orgulho que sou modelo do Editorial Nordeste e me acho a gordinha mais linda”, relata Íris.

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Já o aluno Marlon Santos, 18, ingressou na primeira turma masculina e conta que não tinha nenhuma pretensão em se tornar modelo até surgir o projeto. “O Editorial me ajudou a ser quem sou. Não tenho mais problemas com minha autoestima, e entendi que seja alto, baixo, gordo, magro, todo mundo pode ser modelo’’.

Assim como Sthephanie, a modelo Tainá Barros, 18, também assumiu o black power e se orgulha da mudança. “Já alisei o meu cabelo e sofri com comentários familiares por ser quem sou. Agora, me acho linda, gosto de chamar atenção mesmo por onde passo. Estou muito feliz em fazer parte desse projeto que está realizando o meu sonho de ser modelo”, conta.

Atualmente, o EN é administrado por Sthepahie, que ainda dá aulas de passarela, sua mãe e a vice-presidente Ulrick Cristiane. O fotógrafo Rodrigo Ávila também integra a equipe fixa. Os modelos são em grande parte moradores do Nordeste de Amaralina e as aulas são divididas em duas turmas. Há uma taxa mensal de R$ 15 para ajudar nos custos com aluguel do espaço.

Para a aluna Letícia Cerqueira, 16, a EN tem sido o caminho para realização do seu sonho no universo da moda. “Sempre quis ser modelo, mas não tinha recurso suficiente, então passei a achar que não era para mim até que Sthe me deu uma nova chance com o Editorial. Minha autoestima era baixíssima e o projeto fez com que eu me enxergasse de outra forma”.

Laís Lopes

É estudante de Jornalismo e correspondente do Nordeste de Amaralina no Barra/Pituba. Acredita que o jornalismo é revolucionário e uma enorme potência capaz de ouvir a quem precisa falar.

Salvador/BA

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