• Informações apuradas pela Agência Mural por meio de dados e entrevistas, buscando ouvir todos os lados envolvidos e seguindo nossa linha editorial.
    Notícia

Em SP, lideranças criticam gestão e pedem mais diálogo com futuro prefeito

Lideranças das periferias da capital avaliam a gestão municipal e falam o que esperam dos concorrentes a prefeito e vereador na disputa deste ano

Liderança comunitária na Favela da Tribo, no bairro Damasceno, na zona norte de São Paulo, Irani da Silva Guedes, 47, avalia que nos últimos anos não houve políticas públicas efetivas para a população mais pobre da capital. “Não tivemos políticas que funcionaram para nós. Nunca funcionam”, afirma.

Na casa dela vivem seis pessoas – o isolamento social foi impraticável durante a pandemia de Covid-19Ela vive na região que pertence ao distrito da Brasilândia há 16 anos, onde conta ser comum a presença de políticos apenas durante a eleição. E chegou o período eleitoral. 

Uma das urgências no bairro é uma UBS (Unidade Básica de Saúde) para atender aos moradores, mas não houve empenho do poder público para implantar o serviço ali. “A gente espera desde 1980”. A percepção dela é semelhante a de outras lideranças comunitárias das periferias da cidade.

A menos de dois meses das eleições municipais e nas vésperas do início da campanha – candidatos podem fazer propaganda partir de 27 de setembro – a Agência Mural ouviu lideranças comunitárias da capital para avaliarem a atual gestão da cidade e indicar prioridades para os candidatos que disputam o governo municipal em 15 de novembro. 

Irani cita a demanda por uma unidade de saúde no bairroLéu Britto/Agência Mural

De acordo com pesquisa Datafolha realizada nesta semana, a gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB) é considerada ótima ou boa por 25% dos moradores da cidade de São Paulo e ruim ou péssima por 27%. O instituto ouviu presencialmente 1.092 eleitores nos dias 21 e 22 de setembro.

A avaliação pode ter relação com as metas da gestão. Um levantamento da agência de checagem Aos Fatos aponta que o atual prefeito não cumpriu 53,5% do plano de metas para 2020, desde que assumiu o cargo em abril de 2018, quando João Doria (PSDB) deixou o cargo para disputar o governo do estado.

Há cerca de 30 anos, Paulo Sérgio Bezerra, 66, é padre em Itaquera, na zona leste da capital. Responsável pela paróquia Nossa Senhora do Carmo, ele atua junto a movimentos sociais que reivindicam melhorias à região. 

Quando o assunto é a atual gestão municipal, o sacerdote é enfático. “Na gestão Covas nenhuma política pública levou em consideração as periferias, nem saúde, transporte, habitação, educação, trabalho, meio ambiente, nada”. 

Para o padre Paulo, na hora do voto é preciso apoiar ‘candidatos não paraquedistas eleitoreiros’. Ele diz que os candidatos envolvidos com as lutas populares e de ficha limpa devem ser os escolhidos. 

“Espero que os movimentos populares, os mais diversos coletivos derrotem a ditadura da elite paulistana iníqua e despudorada que tem levado a cidade, e também o país, à destruição de todas as conquistas vindas das lutas populares” – Padre Paulo, de Itaquera, na zona leste.

Paulo se refere à falta de investimentos em saúde na região, apesar da pandemia. Desde o início da crise sanitária, movimentos na região pediam um hospital de campanha para atender a população, o que não aconteceu, mesmo com distritos da região sendo os mais afetados. 

Pessoas sem moradia são outro ponto sensível por ali. Com a Covid-19, sem renda, muitos moradores foram parar em ocupações de moradia, sem receber assistência. Para o padre, as prioridades do próximo prefeito da cidade e os vereadores deveriam ser a saúde, o trabalho e a habitação.

Em Itaquera, Padre Paulo cita aumento de problemas na pandemia, como a falta de locais para moradiaLucas Veloso/Agência Mural

Também sente que é preciso ampliar os espaços de participação dos moradores e o fim do que chama de ‘loteamento de cargos das subprefeituras’. “Que acabe com o vício de vereadores definirem os subprefeitos e demais executivos nas subprefeituras”, acrescenta. “É preciso valorizar e respeitar os diversos conselhos populares”.

Com mais de 40 anos na liderança da Associação de Moradores da Vila Valquíria, no Capão Redondo, zona sul da cidade, Gilmar Antonio de Sousa, 56, também critica a efetividade das políticas públicas nas periferias, exceto uma. “A única que foi acertiva foi a de não volta às aulas. A postura que o prefeito assumiu frente à pressão que sofreu foi muito importante, sobretudo para as favelas”. 

Para o líder, o próximo prefeito deveria se atentar à voz do povo e ampliar as discussões com organizações da sociedade civil que, segundo ele, é quem realmente recebe as demandas da população.  

“A minha escolha de voto será daquele que esteja mais disposto a ouvir, pois esse estará capacitado para representar o povo” – GILMAR SOUZA, DO CAPÃO REDONDO, NA ZONA SUL.

Gilmar aponta alguns temas que deveriam ser considerados entre as metas do próximo governo municipal. “Melhorar a qualidade da educação e incluir estrutura para os professores e capacitar os equipamentos de saúde de acordo com as demandas do território”, define. “Incluir os investimentos na cultura como forma de entretenimento e progresso das periferias”.

Ocupação na zona norte de São Paulo surgiu durante pandemia de Covid-19Léu Britto/Agência Mural

A preocupação com a educação também foi citada pela assistente social Daiana Cristina Ferreira, 36, moradora do bairro Santa Inês, em Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital. Ela cita que as escolas continuam sucateadas. 

Na pandemia, diz que não se pensou em um plano específico para a população de baixa renda. “Muitas crianças aqui da vila não estão acompanhando as aulas online por falta de equipamentos, internet ou até mesmo porque os pais não são alfabetizados e não sabem mexer na internet”. 

Sobre o transporte público, Daiana afirma não ter visto nenhuma mudança eficaz, como ações para diminuir a lotação ou a oferta de mais linhas na região.

Daiana diz esperar que prefeito e vereadores tenham comprometimento com a população e que façam o prometido durante a campanha. A assistente social também inclui a importância de parlamentares que sejam igual a ela. 

“Pessoas iguais a mim, que são de onde eu sou, da periferia, que tenham lutas que eu me identifique, como a luta contra o racismo, machismo, homofobia, transfobia e que lute pela classe trabalhadora e que assim como eu sonhe com um mundo melhor” – DAIANA CRISTINA, DE ERMELINO MATARAZZO, NA ZONA LESTE.

ESPAÇO PARA O FUNK

Na maior da favela da cidade, a presidenta da UNAS (Associação dos Moradores de Heliópolis) Antônia Cleide Alves, 56, relata alguns investimentos positivos vindos do poder público, como a inauguração de uma nova UBS no distrito e do Centro de Defesa da Mulher Sonia Maria Batista. 

Por outro lado, lembra que a paralisação do plano de urbanização da comunidade, com o abandono das obras nos Prédios Redondinhos, na Lagoa, no terreno da Petrobrás e da Estrada das Lágrimas dificultaram a vida na região. “Acabar com o leite nas escolas e creches e as mudanças na integração do bilhete único, além do desmonte da participação da sociedade civil nos conselhos da cidade foram outras coisas negativas”, cita. 

Profissionais da saúde passam com carro de som para falar sobre isolamento físicoDivulgação

Questionada sobre as prioridades da próxima gestão, ela aponta três. A primeira seria uma política voltada ao descarte de lixo e entulho, mas visando também a coleta seletiva. A criação de programa de fomento e geração de renda, voltado às favelas e periferias.

Também a criação de um espaço para o baile funk. “Um espaço cultural que possa proporcionar de forma organizada e segura os encontros dos jovens”, diz. 

A falta de espaços de lazer para a juventude, em especial o funk, foi um tema marcante em outra favela populosa de São Paulo ano passado, quando nove adolescentes morreram em Paraisópolis, após ação da Polícia Militar na região.

“Vou levar em conta os candidatos que tiverem abertura de diálogo com as favelas e periferias, e que tenham em seu programa de governo, orçamento voltado para as áreas que mais necessitam do Estado”, pontua. “Além de priorizar um candidato que respeite a diversidade” – ANTÔNIA CLEIDE ALVES, DE HELIÓPOLIS, NA ZONA SUL.

Questionada sobre a falta de atenção dada às periferias, apontada pelos líderes comunitários, a prefeitura de São Paulo não retornou

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

Comentários