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Moradores com suspeitas de Covid-19 passam por quarentena sem saber resultados dos exames

Com 26 mil exames pendentes na Grande SP, moradores cumprem período de isolamento, se recuperam, mas não sabem se tiveram ou não doença

Logo que percebeu alguns sintomas, como dores na cabeça e na garganta, o professor Gabriel Hessel, 24, morador de Cidade Tiradentes, na zona leste da capital, procurou a unidade básica de saúde mais próxima de casa. Fez o exame para detectar a Covid-19. Na ocasião, o prazo para ter o resultado foi de 15 dias, mas após três semanas, ainda aguarda a resposta. 

A procura de Gabriel pelo exame teve outro motivador No departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo), onde estuda, foi detectado um dos primeiros casos da doença na cidade.

Depois do teste, ele diz que foi acompanhado por agentes de saúde que ligaram para ele durante quatro dias. Neste período, sua mãe também foi testada, já que apresentava alguns sintomas, é diabética e tem 57 anos. Depois do quinto dia, as ligações cessaram.

Indicado a fazer quarentena por 20 dias, o professor diz que a espera pelo resultado é tensa dentro de casa. “Minha mãe tem diabetes, e ficou apreensiva por conta disso. No fim, isso acaba refletindo em mim”, comenta.

De acordo com o último boletim médico oficial, o estado de São Paulo registrou até quarta-feira (8) 428 óbitos pelo novo coronavírus. Ontem, foram contabilizadas 57 novas mortes. A região soma 6.708 casos confirmados para a doença. Na cidade são 4.946 casos, sendo 339 mortes.

São Paulo tem cerca de 17 mil exames de detecção de Covid-19 que aguardam resultado, admitiu, durante entrevista coletiva nesta terça-feira (7), o secretário estadual de saúde, José Henrique Germann. Levantamento da Agência Mural mostra que há 26 mil suspeitas de pacientes com coronavírus nas 39 cidades da Grande SP que ainda não tiveram o resultado dos testes.

Correspondente da Agência Mural, Humberto sentiu sintomas e ficou isolado duas semanas, mas não sabe ainda os resultadosArquivo Pessoal

Entre as cidades está Mairiporã, onde o jornalista e correspondente da Mural Humberto do Lago Müller, 29, também aguarda o resultado do exame. Nesta quinta-feira (9), completam três semanas desde que fez o exame, e 26 dias desde que apresentou os primeiros sintomas da doença.

Müller ficou doente na mesma época que um amigo, que teve febre acima de 39º, e pagou pelo teste no hospital do convênio. 

No dia seguinte, o jornalista enviou uma mensagem para a Secretaria de Saúde de Mairiporã para notificar da possibilidade de coronavírus, mas não teve retorno [A cidade não dispunha de um número para essa demanda, hoje já é possível ligar para (11) 97540-9859 ou (11) 97574-2574.]. 

Quatro dias depois, quando o exame do amigo deu positivo, chegou a resposta. “A orientação foi de fazer o exame. No dia do teste eu já estava um pouco melhor dos sintomas, mas ainda com tosse”, lembra. 

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Na cidade, o prazo informado para o resultado foi de cinco dias, algo parecido com o tempo que seu amigo esperou na rede privada. No entanto, a previsão não se confirmou até hoje. A equipe médica indicou que se ele tivesse alguma piora dos sintomas, principalmente falta de ar, que entrasse em contato novamente ou voltasse para a UBS (Unidade Básica de Saúde).

“Uma infectologista da prefeitura entrou em contato pelo WhatsApp no dia 31, logo após terminarem os 14 dias de isolamento. Como eu já estava sem sintomas, não precisei de acompanhamento”, afirma Humberto. 

De acordo com o último boletim oficial divulgado pelo governo do estado nesta quarta-feira (8), Mairiporã somava 7 casos, com 2 óbitos. Há, ainda, 347 casos suspeitos sem resultado. 

O jornalista diz que os primeiros dias foram de ansiedade pelo resultado. “Cheguei a avisar os locais em que estive, pois estávamos juntos durante toda a semana, mas com o tempo passou o período de isolamento, e também nenhum dos lugares teve caso”. 

Agora, três semanas depois, se diz preocupado, não exatamente com o exame, mas por não saber onde pode ter contraído a doença, e por ver pessoas na rua, mesmo com duas mortes na cidade. “Acredito que esse atraso nos resultados não ajuda, pois passa a sensação de que a doença está circulando menos do que realmente está”. 

Rafael demorou 26 dias para saber que não estava infectadoArquivo Pessoal

RESULTADO

O estagiário em publicidade Rafael Fernandes Bertoldo, 25, descobriu nesta terça-feira (7) que não estava com a doença. A Agência Mural contou a história dele, que vive em Cidade Tiradentes, na zona leste, quando houve a suspeita de que poderia ter a Covid-19. A espera dele durou 26 dias, apesar de ter sido prometido em 15.

Rafael fez o teste depois que sua mãe comentou com uma assistente social que o filho teve contato com pessoas que ficaram próximas a alguns suspeitos do vírus. Naqueles dias, o estado de São Paulo contabilizava 46 casos, sendo que 44 estavam na capital. 

“Estou mais aliviado agora, mas esses dias foram tensos, pois eu não sabia o que fazer. Ninguém do posto me procurou nos outros dias”, comentou. 

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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