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Opinião: Suzano é a Cidade das Flores, não do massacre

Nesta sexta-feira (13) completou-se um ano do atentado ocorrido na escola estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. O ataque que culminou na morte de dez pessoas, incluindo os atiradores, voltou a ser destaque nos noticiários e a cidade recebeu novamente os holofotes da imprensa.

No dia 13 de março de 2019, dois jovens invadiram a escola Raul Brasil e mataram cinco alunos e duas funcionárias. Antes do ataque, a dupla também assassinou o tio de um dos atiradores. 

Estive no local duas horas depois do incidente, e assim como dezenas de repórteres, participei da cobertura do atentado. No entanto, como morador de Suzano, tive uma percepção diferente dos demais jornalistas. Pude observar os dois lados da moeda: tanto de quem produz o noticiário, tanto de quem assiste.

Confesso que foi frustrante ver o município onde cresci ser transmitido nas grandes mídias de forma exaustiva e até desrespeitosa em alguns casos. Contudo, todos os jornalistas presentes no dia estavam cumprindo o seu trabalho. Inclusive eu. 

Homenagem ás vítimas cinco dias após o atentadoRenan Omura/Agência Mural

O que me incomoda, são os noticiários que continuam remoendo a história de forma sensacionalista, sem nenhum teor informativo, investigativo ou de denúncia. Lançam-se luz apenas aos assassinatos e ofuscam outras questões relevantes que contribuíram na execução do massacre. Como exemplo, distúrbios psiquiátricos, fóruns online de disseminação de ódio e o acesso a armas de fogo. 

Por consequência, Suzano tornou-se inerente aos termos ‘massacre’, ‘atirador’ e ‘tragédia’. É incrível como um caso de violência prevalece acima de qualquer aspecto positivo, a ponto de criar uma nova identidade ao município. Aliás, não apenas ao município, mas aos moradores também.

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Em junho de 2019, fui selecionado para uma entrevista de emprego em uma agência de comunicação na região central de São Paulo. Após analisar o meu currículo o contratante perguntou: “você mora em Suzano? A cidade do massacre?”. Sem pensar muito, e de forma ingênua respondi que sim. 

Para quem é de fora, é praticamente impossível não associar a cidade com o atentado. Vale ressaltar que isso não ocorre apenas com o caso Raul Brasil, mas em todas as periferias brasileiras, em que os veículos de imprensa se resumem em pautar apenas a violência local.

É por esse motivo, que se faz necessário agências jornalísticas que ofereçam espaço para diferentes narrativas. A diversidade de histórias descontrói estereótipos. É o que faço desde que me tornei um corresponde da Agência Mural em setembro de 2019. 

Relógio parou no horário das 9h40 (Rômulo Cabrera/Agência Mural)Rômulo Cabrera/Agência Mural

Suzano continuará sendo tema da imprensa nacional. Em fevereiro, o trio suspeito de fornecer armas aos atiradores, deixou a penitenciária de Tremembé, após receber um alvará de soltura. A escola estadual Raul Brasil está em processo de reforma desde o segundo semestre de 2019, e a previsão de reabertura é em abril deste ano.

Informações importantes, porém, Suzano é mais do que um palco de tragédia ou motivo de piada. 

A cidade emancipada em 1940, recebeu desde o início do século imigrantes de diversos países, inclusive do Japão. Em busca de oportunidades, os japoneses encontraram em Suzano uma terra fértil para o plantio. Desde então, a produção agrícola se tornou uma fonte de riqueza para o município.

Na década de 1990, devido a alta produção e exportação de flores, Suzano passou a ser chamada de Cidade das Flores. 

Essa influência é visível até hoje, nas tradicionais festas japonesas que ocorrem anualmente na cidade. Como a Festa da Cerejeira, Festa da Dália, do Ipê entre outras. 

Por isso, cabe aos quase 300 mil habitantes virar a página e resgatar a identidade do lugar. E toda vez que me questionarem se Suzano é a cidade do massacre, como suzanense, sinto-me no dever de explicar que Suzano, não é a cidade do massacre. Suzano é a Cidade das Flores.

Renan Omura

Jornalista, correspondente de Suzano desde 2019. É autor do livro-reportagem Caputera: chacinas em Mogi das Cruzes e finalista do 12° Prêmio Santander Jovem Jornalista. Apaixonado pela escrita, acredita que a comunicação é uma ferramenta para diminuir as lacunas sociais.

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