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Notícia

Por: Jessica Bernardo

Publicado em 17.12.2021 | 8:40 | Alterado em 04.01.2022 | 16:37

Tempo de leitura: 5 minutos

O primeiro dia de trabalho da professora Teresinha Pinto, 63, depois de meses afastada pela pandemia de Covid-19, mostrou que as aulas na Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) Antônio Bento, no Butantã, na zona oeste de São Paulo, não seriam como antes. A crise sanitária tinha deixado marcas nas crianças de 3 a 6 anos que frequentam a unidade.

“Eu estava levando as crianças para o almoço e um garoto falou pra mim: ‘Meu tio morreu de Covid, professora’. Eu fiz uma roda de conversa, perguntei se mais alguém tinha perdido alguém”, relembra a educadora. “Quase toda a classe levantou a mão. Era a vizinha, a avó… Todo mundo conhecia alguém que tinha perdido alguém”.

Em todo o estado, mais de 154 mil pessoas morreram após serem contaminadas pelo coronavírus – mais de 70 mil apenas na região metropolitana de São Paulo. Além disso, até setembro deste ano quase 4 mil crianças de 0 a 6 anos tinham ficado órfãs por causa da Covid-19, segundo um levantamento da Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais).

O convívio com o luto e o isolamento social impactaram o comportamento e a saúde mental das crianças pequenas, e as reações foram sentidas na reabertura de creches e escolas. “Eu tive alunos que saíram falando e voltaram [para as aulas] gagos”, conta Teresinha.

Teresinha Pinto, 63, dá aulas na zona oeste e aponta impactos nas crianças no retorno @Ira Romão/Agência Mural

Dificuldades de fala e socialização, insegurança, e a volta de comportamentos já superados, como não conseguir segurar o xixi, foram percebidos pelos pais e também pelos profissionais da Educação Infantil.

No CEI (Centro de Educação Infantil) Professora Marielcia Florencio de Morais, na Cidade Tiradentes, zona leste da cidade, a educadora Viviane da Silva Caetano, 44, sentiu de perto as mudanças. “Muitas crianças que deveriam estar desfraldadas por conta da idade não estavam. [Também] não estavam com a oralidade desenvolvida”.

Já no CEI Bryan Biguinati Jardim, no Parque Arariba, zona sul da capital, a assistente Tatiana Cintra, 45, recebeu pais preocupados com os comportamentos dos filhos, que se isolavam para brincar em casa. “Teve mães que disseram ‘eu suspeito que o meu filho tenha autismo’”, lembra a educadora.

Regressão

Em 2020, um relatório do NCPI (Núcleo Ciência Pela Infância), que reúne pesquisadores de instituições como a USP (Universidade de São Paulo) e a Universidade de Harvard, já apontava que as situações de incerteza e as perdas causadas pela Covid-19 poderiam provocar sentimentos de raiva, medo e ansiedade nas crianças, e com isso, mudanças de comportamento.

A psicóloga Elisa Altafim, especialista em desenvolvimento da criança na FCSV (Fundação Maria Cecília Souto Vidigal), conta que o cenário previsto se confirmou. “Nós verificamos que 27% das crianças tiveram algum tipo de regressão no comportamento”.

Os dados são da pesquisa “Primeiríssima Infância – Interações na Pandemia: Comportamentos de pais e cuidadores de crianças de 0 a 3 anos em tempos de Covid-19”, realizada pela Kantar Ibope, a pedido da FCSV. Divulgado em junho, o levantamento ouviu 1.036 pais de crianças entre 0 e 3 anos.

Um em cada quatro confirmou que os filhos voltaram a repetir ações de quando eram mais novos, como chorar muito ou falar menos. “A criança precisa de uma rotina para se desenvolver emocionalmente e na pandemia isso foi muito modificado”, explica a psicóloga.

Questões como o luto e a falta de contato afetaram a primeira infância durante a pandemia @Magno Borges/Agência Mural

Nas escolas, os professores precisaram adaptar atividades e intensificar os cuidados para suprir as necessidades dos alunos na volta às aulas.

Na Emei em que Teresinha trabalha, uma das surpresas geradas pelo isolamento das crianças apareceu na hora das atividades com cordas.

“Eu não me lembro de alguém na minha vida ter me ensinado a pular corda. E a primeira vez que eu tirei as cordas, as crianças não sabiam pular. Por quê? A gente quando era pequeno viu primo, viu alguém [pulando]. As crianças não vivenciaram isso”

Teresinha Pinto

Ela também reparou que parte dos alunos estava mais retraída, não tinha noção de espaço, e apresentava mais dificuldade em atividades que envolvessem coordenação motora. Para driblar os desafios, Teresinha e os outros professores da unidade apostaram em brincadeiras e jogos ao ar livre, assim como rodas de conversa.

Já na CEI em que Viviane atua, as crianças de 0 a 3 anos voltaram ansiosas pelas interações depois do período de isolamento. “As crianças pareciam estar ávidas por essa interação”. O maior desafio, contudo, tem sido manter a segurança: “Como fazer uma criança entender que ela não pode abraçar o tempo todo o colega e que a professora não pode pegar no colo?”.

A dificuldade é a mesma na CEI onde Tatiana trabalha. “O professor da educação infantil, ele pega na mão da criança, ele nina para dormir, dá comida na boca. Esse toque foi muito limitado por conta do distanciamento”.

Ela conta que os funcionários passaram por formações sobre os cuidados com a pandemia. Além disso, equipamentos como toucas e aventais, além das máscaras, são utilizados para atividades como a troca das fraldas.

Desenvolvimento

A psicóloga Elisa explica que a interação com outros adultos e crianças é fundamental na infância. “Esse contato social é muito importante para o desenvolvimento da criança, para que ela se desenvolva socialmente e desenvolva também a fala, a linguagem e outros comportamentos”.

A presença da escola nesse momento, segundo ela, é essencial para promover a socialização e também oferecer os estímulos de aprendizagem. É também nos espaços de educação infantil que as crianças recebem apoio para superar um dos problemas mais graves na primeira infância: a insegurança alimentar.

Esta reportagem foi produzida com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e Porticus

Jessica Bernardo

Jornalista, cria de uma família de cearenses. Apaixonada por São Paulo, bolos e banhos de mar. Correspondente do Grajaú desde 2017.

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