Acontece na Escola: Professores de Etec em Osasco fazem protesto silencioso contra reforma do ensino médio

Julia Ferreira
Colaborou Marina Lopes

Guilherme Ramon, 17, está prestes a concluir o curso de administração integrado ao ensino médio em tempo integral na Etec Professor André Bogasian, em Osasco, na Grande São Paulo. Com o diploma de técnico, pretende atuar na área de comércio exterior. No entanto, a partir do próximo ano, essa titulação e carga horária podem mudar para os futuros alunos de Escolas Técnicas Estaduais de São Paulo. Isso porque o Centro Paula Souza (CPS), autarquia do governo que administra as instituições, começa a adaptar  alguns cursos para atender às exigências da Reforma do Ensino Médio.

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A Reforma do Ensino Médio é um conjunto de diretrizes para a etapa que, entre outras mudanças, prevê a organização com 60% da grade curricular para disciplinas comuns e outros 40% para o aluno aprofundar seus conhecimentos em uma das seguintes áreas: linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas ou formação técnica e profissional. As mudanças foram aprovadas pelo Congresso em fevereiro do ano passado.

Informados sobre o projeto piloto do Centro Paula Souza, que já tem sido implementado em 33 Etecs, os professores da Etec Bogasian se posicionaram contra essa mudança, que varia de carga horária até nível da habilitação oferecido para os alunos do ensino com qualificação profissional.

Guilherme Ramon, 17 , é aluno do Etim de administração da ETEC Professor André e conclui seu curso no fim do ano (Julia Ferreira/Acontece na Escola/Agência Mural)

“A única maneira de nós conseguirmos aderir às mudanças propostas seria excluindo o Etim [Ensino Médio Integrado ao Técnico], que é muito procurado aqui na região. As escolas que aceitaram o projeto piloto são as que não têm muita procura e demanda, mas a nossa Etec tem 12 salas e as 12 são ocupadas em todos os períodos”, afirma Sônia Espíndola, 68, diretora da Etec de Osasco.

“Essa reforma que estão nos propondo não vai atender às necessidades dos alunos. A escola teria que determinar qual viés ela quer seguir, mas nós não tivemos tempo para consultar a comunidade que atendemos, e sem consulta nós teríamos que oferecer todos os itinerários, porém não é possível”, explica a professora de física Graziella Bento, 35.

Leia a série de reportagens sobre o que Acontece na Escola.

Atualmente, as escolas técnicas do CPS oferecem a modalidade de Ensino Médio Integrado ao Técnico (Etim), que tem de 3.600 a 4.100 horas, de acordo com o curso. No projeto piloto, seriam adicionadas as modalidades Ensino Médio com Habilitação Técnica Profissional, de 2.800 a 3.000 horas, e o Ensino Médio com Qualificação Profissional, de 2.400 horas, cursadas em apenas um período (manhã ou tarde), enquanto no Etim os alunos estudam em tempo integral.

“Esse projeto piloto do Centro Paula Souza é assustador, porque você deixa de formar técnicos para formar auxiliares. Antigamente, o cara do Etim demorava 3 anos para se formar como técnico, agora serão 3 anos para se formar como auxiliar. Isso, no futuro, vai diminuir a qualificação das pessoas no mercado de trabalho, o técnico pode sofrer uma desvalorização”, diz o professor de geografia, Miguel Del Barco, 29, coordenador na Etec Professor André Bogasian.

No mês de agosto, os professores da Etec receberam um comunicado do MEC (Ministério da Educação) sobre o novo ensino médio. O documento continha uma apresentação de cerca de 600 páginas e um questionário, que deveria ser discutido e respondido pelos docentes. Para isso, seria necessário liberar os alunos, resultando em um dia letivo inteiro sem aula.

A ETEC Professor André Bogasian, em Osasco, é especializada em cursos na área de negócios (Julia Ferreira/Acontece na Escola/Agência Mural)

Em menos de 24 horas após o recebimento do documento, a coordenação recebeu orientação do Centro Paula Souza para não dispensar os alunos e apenas enviar o questionário respondido, sem qualquer tipo de discussão. Os professores se recusaram a seguir as instruções e concordaram juntos em também não responder ao questionário. Um protesto silencioso.

“Nós professores, que estamos aqui no chão da escola, não fomos escutados, o único momento em que fomos consultados foi por um formulário que deram para a gente responder de várias páginas e em cima do prazo. Esse foi o único contato que nós, professores, tivemos com a reforma do ensino médio”, afirma o professor Miguel.

“A minha maior indignação como professor do ensino médio é o fato de nós não sermos ouvidos e, principalmente, os alunos. Quem tem que falar o que tem que mudar e alterar dentro de uma escola somos nós, professores e alunos que vivemos isso”, acrescentou.

Apesar das críticas, o governo, os professores e os alunos concordam em uma coisa: o ensino médio precisa mudar. “Uma das mudanças que o ensino médio precisa é transformar a informação em conhecimento. Antigamente a gente tinha carência de informação, agora a gente tem bastante. Falta transformar em conhecimento”, aponta Davi Kyoshi, 49, professor de biologia na André Bogasian.

Quando procurado, o Centro Paula Souza afirmou que desde o primeiro semestre de 2018, as Escolas Técnicas Estaduais oferecem cursos adaptados às exigências da Reforma do Ensino Médio: o Ensino Médio com Habilitação Técnica Profissional e o Ensino Médio com Qualificação Profissional.

A instituição ainda informou que o Vestibulinho para o primeiro semestre do ano que vem já oferece vagas para novos cursos de Ensino Médio com Habilitação Técnica Profissional: Alimentos, Comunicação Visual, Desenvolvimento de Sistemas, Eletrônica, Eventos, Informática Para Internet, Marketing. Vale ressaltar que a inserção das novas modalidades de ensino não irá anular as existentes atualmente, porém algumas Etecs não irão oferecer todas as modalidades.

Julia Ferreira é estudante do 3ª série do ensino médio na ETEC Prof. André Bogasian
Marina Lopes é correspondente de Penha

Essa reportagem foi produzida por uma participante do programa de bolsa de jornalismo Acontece na Escola da Agência Mural, no qual estudantes do ensino médio de escolas públicas da região metropolitana de São Paulo produzem conteúdo jornalístico sobre temas do cotidiano escolar. A iniciativa integra o projeto Mural nas Escolas.

0 thoughts on “Como o Juquery criou um estigma para Mairiporã e Franco da Rocha”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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