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Roda Terapêutica discute racismo e atende mulheres nas periferias de SP

25 mulheres atuam desde 2017 pelas periferias da cidade para levar serviço terapêutico às mulheres

As mulheres negras não são vistas na psicologia tradicional. Essa foi a conclusão de sete profissionais, em 2016. Em comum, todas eram psicólogas e negras.

Nascia assim a Roda Terapêutica das Pretas, grupo criado para atender mulheres que não acessavam esse serviço em outro espaço.

O projeto foi estruturado em 2017 e, no ano seguinte, os primeiros atendimentos foram iniciados. Desde então, elas têm levado o trabalho para bibliotecas, centros culturais e demais espaços públicos nas periferias da capital e da Grande São Paulo. Atualmente, são 25 psicólogas negras no grupo.

“Por muitos anos o atendimento psicológico era acessível apenas para a classe social privilegiada. Hoje é possível notar pequenas mudanças”, afirma a psicóloga Fabiana Angela Toledo Lima, 29.

Desde 2017, psicólogas têm levado serviços às periferias de São PauloArquivo Pessoal

Fabiana vive no Tatuapé, na zona leste, e conta que teve na graduação uma disciplina chamada ‘Relações Étnico Racial e afrodescendentes’ na Universidade Paulista. Foi quando começou o processo pessoal de se ver como negra e reconhecer a importância da psicologia nesse cenário.

Ela afirma que fatores estruturais, como o racismo, contribuíram diretamente para que, por muito tempo, o acesso à psicoterapia fosse mantido longe da periferia, negando o cuidado emocional para a população de baixa renda. “Ao conhecer o projeto vi que não pensava sozinha e que já existiam mulheres voltadas para esse trabalho”.

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Para se organizar, mensalmente elas se reúnem para conversar e trocar experiências, e pensar nos rumos do projeto. Também participam de eventos que sobre o tratamento da saúde mental nas periferias.

ATENDIMENTO SÓ DE EMERGÊNCIA

Fabiana Lima comenta que, geralmente, o acesso das pessoas à saúde mental se dá quando já existe ‘extremo sofrimento emocional’ ou um quadro de doença desenvolvido.

Psicólogas já fizeram rodas com moradores em Itaquera e no GrajaúArquivo Pessoal

As opções para o atendimento dos moradores costuma ser o oferecido pelo serviço público de saúde e as clínicas escola das universidades.

Outras opções são profissionais que atendem por valores mais baratos, coletivos, e ONGs que oferecem atendimento em grupo como funciona a própria Roda Terapêutica das Pretas.

Uma das psicólogas que participou do início do grupo é Ane Gabriele Cruz de Souza, 29, que vive no Butantã, zona oeste.

Ela cita que os atendimentos terapêuticos em diversas instituições ‘ainda é caracterizado por um caráter colonialista e paternalista’, embora existam sistemas que garantam direitos, baseados nos princípios de igualdade e universalidade.

“O mesmo olhar [paternalista] pode acontecer na clínica, caso não estejamos sensíveis às questões sociais que atravessam a história de vida de cada pessoa”, completa.

Grupo começou a atuar por conta da falta de atendimento às mulheres das periferiasArquivo Pessoal

A turismóloga Ana Carolina de Oliveira Quirino, 37, mora na Jova Rural, distrito na zona norte da cidade. Ela conheceu o projeto por meio da irmã, Ana Paula.

Ela diz  que a saúde mental e emocional de mulheres nas periferias é negligenciada pelos órgãos de saúde pública e acha que o projeto ajuda neste sentido. “Eu avalio como muito importante [a roda] para as mulheres de baixa renda da nossa cidade”, comenta.

No SUS (Sistema Único de Saúde), os tratamentos são previstos para pessoas com transtornos mentais severos, ou seja, aqueles com diagnóstico definido.

Quem não está nesta condição, pode procurar as UBS ou por meio de encaminhamentos para tratar com psicólogos.

Também podem receber atendimento pelo NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), um grupo multiprofissional que apoia as unidades regionais de determinada região com especialidades, como fonoaudiologia e psicologia, por exemplo.

Grupo discute como atuar nas periferiasArquivo Pessoal

ATENDIMENTOS

Segundo informações levantadas pelo grupo, no último ciclo, em 2019, foram atendidas diretamente 70 mulheres negras em todas as regiões de São Paulo e em uma parte da Grande São Paulo. A estimativa de público indireto ultrapassa 400 pessoas, como amigos e familiares.

Se for levar em conta os anos de atuação, foram mais de 100 atendimentos diretos e mais de 900 indiretos. Para ser atendido, as informações podem ser encontradas nas redes sociais, como Facebook e Instagram.

O processo seletivo para as pacientes inclui questionário socioeconômico.

No momento, não há vagas para novas participantes e a atuação é voluntária. Quando há abertura um novo processo para integrar o corpo clínico da Roda Terapêutica das Pretas, elas também informam pelas redes sociais.

Para participar, é necessário que a psicóloga tenha o CRP ativo e integre o posicionamento ético, clínico e político que considera a importância de se discutir classe, gênero e raça dentro da psicologia.

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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