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São Lourenço da Serra registra morte por Covid-19, e todas as cidades da Grande SP têm casos

Família aponta descaso no tratamento de Robson Sousa, que tinha 36 anos, e passou por três municípios para receber atendimento

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Por: Karol Coelho

Notícia

Publicado em 21.04.2020 | 11:02 | Alterado em 21.04.2020 | 16:46

RESUMO

Família aponta descaso no tratamento de Robson Sousa, que tinha 36 anos, e passou por três municípios para receber atendimento

Tempo de leitura: 4 min(s)

Na tarde desta segunda-feira, a prefeitura de São Lourenço da Serra divulgou o primeiro óbito na cidade, devido a Covid-19. Robson Sousa, 36, morreu no domingo (19), no HGIS (Hospital Geral de Itapecerica da Serra). 

Até então, o município era o único da Grande São Paulo sem histórico de casos de infecção pelo novo coronavírus. Também aponta as dificuldades do tratamento da enfermidade. 

O comunicado, publicado na página oficial da prefeitura no Facebook, provocou revolta na família. 

Segundo a cunhada de Sousa, Dayane Medeiros, 28, houve descaso no pronto-socorro da cidade.

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Prefeitura fez ações de limpeza em São Lourenço da Serra; família de vítima aponta descaso @Divulgação/Prefeitura de São Lourenço da Serra

“Ele passou no pronto-socorro no final do mês de março e foi diagnosticado com quadro de sinusite. Ele já estava muito ruim, com coriza, e o médico deu 7 dias para ele, mandou ele ficar em casa. Só que ele tinha que ir todo dia lá tomar medicação e fazer inalação”, conta.

Ainda segundo a família, Sousa não tinha histórico de doenças respiratórias, e por isso, suspeitam que ele já estava infectado. Ele trabalhava como controlador de acesso em um prédio em construção em São Paulo. 

No dia 9 de abril, ele se sentiu muito mal e mais uma vez passou no pronto-socorro, tomou medicação e voltou para casa. Um dia depois, ele saiu carregado de casa pelos parentes.

Sousa morava em uma casa, onde dividia o quintal com outros familiares. “Todo mundo tem contato com todos e é provável que tenham sido infectados”, avalia a cunhada. Ela vive em Ferraz de Vasconcelos, no Alto Tietê, com o marido, que é irmão de Sousa. 

Ele tinha dificuldade para respirar e levaram-no novamente para o pronto-socorro. O médico plantonista afirmou que tratava-se da Covid-19 e pediu para ele ficar em observação e isolamento. “Deu até uma atenção boa”, conta.

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No dia 11, contudo, apesar de Robson não estar respirando bem, o médico do plantão da manhã deu alta ao paciente, com um atestado de 14 dias. Por não estar se sentindo bem, o colocaram na cadeira de rodas. Um familiar o encontrou na calçada do pronto-socorro. “Ninguém nos avisou”, diz.

Ele foi levado pelo parente imediatamente para o hospital de Campanha em Embu das Artes, município vizinho que criou um espaço destinado aos pacientes de Covid-19. Em três dias, o seu estado se agravou e ele entrou em coma induzido.

Na terça-feira (14), ele foi encaminhado para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Geral de Itapecerica da Serra, outra cidade vizinha. Ao decorrer dos dias, ele teve febre e uma infecção no pulmão foi diagnosticada, até morrer no domingo (19).  

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SEM DESPEDIDA

A família de Robson não teve mais contato com ele desde que ficou internado no hospital de Embu da Artes. Quem tinha contato com ele não recebeu orientação sobre o que fazer nem foram feito testes.

Sem poder se despedir, o velório e o sepultamento entristeceu mais ainda os parentes. Além da limitação de participação de pessoas, quem pôde acompanhar, certificou-se sobre as condições do cemitério da cidade de São Lourenço da Serra.

“A gente teve que sair driblando as covas para passar com o caixão. Ele foi o último de cinco a ser enterrado, mas o espaço era pequeno e cheio de mato. Havia covas sendo abertas embaixo de barrancos”, relata Dayane. “Eu vi o coveiro pegar um osso de pessoas que estavam enterradas”. 

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Cidade de São Lourenço da Serra fica a 55 km da capital @Divulgação/Prefeitura de São Lourenço da Serra

Descrito como um “um homem de coração enorme e muito brincalhão”, Robson tinha quatro irmãos, deixa a esposa Carina, 35, que conheceu quando tinha 16 anos, e dois filhos, de 2 e 6 anos.

Ele nasceu no Butantã, zona oeste de São Paulo, cresceu no Campo Limpo e passou a juventude em Interlagos, zona sul. Mudou-se para São Lourenço com a família em 2015.

Questionada sobre a falta de atendimento a Robson, a Prefeitura de São Lourenço da Serra não respondeu. 

No comunicado sobre o caso divulgado nas redes sociais, a gestão pediu o cumprimento do isolamento social. “Continuamos a insistir no isolamento social, evitem aglomerações, fiquem em casa e façam higienização, conforme as recomendações”, disse a prefeitura em comunicado.  

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PRIMEIRO CASO

A morte de Robson foi a confirmação de que todas as cidades da região metropolitana já tem casos de Covid-19, inclusive os municípios mais distantes e com característica interiorana. Também indica a dificuldade de cuidados que esses pequenos municípios da Grande São Paulo tem enfrentado.

Situada a 55 km da capital no Sudoeste da Grande São Paulo, São Lourenço da Serra conta com 16 mil habitantes e é conhecida pelo turismo de natureza. Faz parte da região em que Itapecerica da Serra, Embu das Artes e Taboão da Serra são os municípios mais populosos. Também faz limite com Embu-Guaçu e Juquitiba.

Moradores dali tem contato constante com a zona sul da capital, em especial com os distritos do Campo Limpo, Capão Redondo e Parelheiros. 

Segundo o Conisud (Consórcio Intermunicipal da Região Sudeste), que reúne oito prefeituras, a região contabiliza 280 casos e 33 mortes por Covid-19. Outros 36 óbitos estão sob investigação. 

Em São Lourenço, há apenas o caso de Robson, mas durante o enterro de Robson, familiares dizem que havia tensão por conta de outros casos no município.

*Texto alterado em 21/04 às 15h55: Robson era controlador de acesso de um prédio em construção e não porteiro, como publicado inicialmente. 

Karol Coelho

É jornalista, cofundadora da Agência Mural e correspondente do Campo Limpo desde 2010. Colaborou com a criação da Escola Comunitária de Comunicação da Escola de Notícias, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Escreve poesias e tem um livro chamado "Estado Atmosférico", que produziu de maneira independente. Na Mural, também apresentou o Rolê Na Quebrada e o PodePá! e foi editora de projetos especiais.

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