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Terreiro tradicional em Pernambués retoma homenagem ao Tempo com restrições

Após pausa de um ano sem festa tradicional por conta da pandemia, casa considerada a mais antiga do bairro se prepara para celebrar divindade
Mãe Sônia e a ialorixá Alaíde Santos, que celebrarão Kitembo, no terreiro Tira Teima | Moisés A. Neuma/Agência Mural

No próximo dia 10 de agosto, o terreiro Tira Teima, em Pernambués, Salvador, celebrará Kitembo, divindade também conhecida como Tempo, patrono da casa, com uma festa restrita. A comemoração, uma tradição anual no bairro, não pôde ser realizada no ano passado por conta das restrições impostas pela pandemia, e por isso tem um significado especial para seus frequentadores. 

Alaíde Santos, 65, ialorixá do terreiro Ilê Ôju Obá Ayra, em Guarulhos, São Paulo, que vem todos os anos para participar da celebração, diz estar animada para a ocasião. 

“Ano passado não foi feita a festa, mas foram feitos os atos. E este ano vai acontecer uma celebração restrita, mas vai acontecer, com todos os cuidados. Nós iremos providenciar tudo o que precisa. Esta é uma festa muito bonita e forte”.

Kitembo (Tempo) é cultuado na nação Angola e Congo, e sua celebração no dia 10 é realizada em outras casas de candomblé na cidade. Na ocasião, o terreiro é enfeitado com bandeiras e uma fogueira acesa em sua porta. Os filhos e as filhas da casa fazem uma procissão e todos próximos a fogueira cantam para a divindade.

Mãe Sônia segura a grelha, ferramenta de Kitembo (Tempo), divindade cultuada na nação Congo e Angola | Moisés A. Neuma/Agência Mural

Antes da pandemia, os festejos no terreiro Tira Teima duravam três dias. Este ano, mesmo com o avanço da vacinação e a liberação do município às práticas religiosas, o Tira Teima fará a celebração em um único dia, adotando os devidos protocolos de segurança.

Além de Kitembo, no dia 10 de agosto, o terreiro realiza ainda outras duas festas anuais, uma para Oxaguian, com águas de Oxalá, em janeiro, e a festa de Ossain, em outubro.  A ialorixá Sônia Luz dos Santos, de Ossain, 81, que conduz o Tira Teima atualmente, relembra com carinho as datas. “Ave Maria, eu dou a vida por eles todos. Ainda brigo com meu povo quando não fazem as coisas certas”, diz mãe Sônia sorrindo.

Alaíde ressalta que a celebração ocorre em uma casa de candomblé modesta, mas que está preenchida de muita força. “Eu gosto muito da casa de Tira Teima. Sinto uma energia muito boa. Dentro da casa tem uma energia muito forte. Dona Sônia tem uma tradição bem antiga, ela procura, dentro do que ela consegue, manter a tradição”, assegura a ialorixá.

ANCESTRALIDADE E HISTÓRIA NO BAIRRO

O Tira Teima é considerado o terreiro mais antigo de Pernambués, com fundação registrada em 1944, segundo o Mapeamento de Terreiros em Salvador realizado nos anos de 2006 e 2007 pelo CEAO/UFBA e a Secretaria Municipal de Reparação. O levantamento contabilizou 1.408 terreiros localizados predominantemente em bairros populares da cidade. 

Com 65 anos no candomblé, mãe Sônia destaca a importância dos fundadores e sacerdotes que passaram pela casa, com atenção especial para o trabalho desenvolvido por Miguel Arcanjo Paiva, conhecido como  Miguel de Tempo ou Miguel Grosso.

“O responsável pela fundação é aquele ali”, diz mãe Sonia apontando para a fotografia na moldura pregada na parede. “Miguel Paiva, mas chamavam ele de Miguel Grosso”. 

Mãe Sônia segura a fotografia de Miguel de Tempo, fundador do terreiro Tira Teima | Moisés A. Neuma/Agência Mural

Miguel Arcanjo Paiva foi um conhecido sacerdote iniciado para Iemanjá por Olegário de Oxum, no terreiro de Joãozinho da Goméia. Mãe Sonia explica que, tempos depois, Miguel passou a cultuar e cuidar de Kitembo (Tempo).

“Miguel fez no Ketu, mas o santo [da nação Angola] desceu nele. Ele tinha que aceitar, porque veio para fazer caridade ao povo no mundo. Não só em Salvador, mas muita gente do interior da Bahia vinha buscar ele”, explica mãe Sônia.

Ela conta que Miguel de Tempo convidou sua mãe carnal, Alice de Oxaguian, para ser mãe pequena no terreiro, cargo denominado para quem dá suporte ao líder da casa. Com a permissão do babalorixá Nezinho de Muritiba, que a iniciou no candomblé, mãe Alice passou a trabalhar com Miguel. 

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Mãe Sônia também foi iniciada no candomblé por Nezinho de Muritiba, na nação Ketu. Mãe Menininha, quarta das ialorixá do terreiro do Gantois, da nação Ketu,  iniciou Manoel Cerqueira do Amorim (pai Nezinho de Muritiba), fundador do Àsè Ibècé Aláketú Ògún Mejeje, que, por sua vez, iniciou mãe Sonia Luz, de Ossain.

A ialorixá conta que o conhecimento adquirido nos anos de vivência no candomblé vem daqueles que a antecederam. “Tudo o que aprendi foi com minha mãe, com Miguel Paiva e com meu pai de santo Nezinho de Muritiba”.

A ialorixá Alaíde Santos saiu de São Paulo para participar da homenagem a Tempo | Moisés A. Neuma/Agência Mural

Para a ialorixá Alaíde Santos, mãe Sônia realiza um trabalho de grande responsabilidade à frente do Tira Teima.  “O Tempo de Miguel Grosso está na casa da mãe Sônia. Quando a avó Alice faleceu, ela ficou tocando três responsabilidades. Ela saúda Ossain, saúda Oxaguian, que é da mãe dela, e Kitembo, de Miguel Grosso. Ela toca o axé dela, que é Alaketu, e toca o Angola, que é de Miguel Grosso”.

“O meu Ketu deu liberdade para nós. O meu pai de santo, que era filho de [santo] da mãe Menininha autorizou”, esclarece mãe Sônia. 

Por esse motivo, três festas tradicionais são realizadas no terreiro. E ela ressalta a importância da festa para Kitembo. “É uma festa tradicional, porque enquanto Miguel Grosso estava vivo era sempre realizada… Ele fazia caridade e atraía muitas pessoas”.

UMA MÃE ESPECIAL 

Mãe Sonia afirma que não sabe quantos filhos iniciou para a religião. “Eu já perdi as contas”, diz. Alaíde conta que foi acolhida por Sônia após o falecimento do seu pai de santo. “Não fui feita por ela, mas considero [minha mãe]”. Alaíde, que sai todos os anos de São Paulo para visitar a mãe, comenta o aprendizado que teve ao longo dos 30 anos que frequenta a casa.

“Aprendi muitas coisas com a mãe Sônia, como ter tolerância, paciência e calma. Gosto muito, sim, da dona Sônia, que é uma mãezona. Ela está com uma certa idade, mas à medida que posso, a gente sempre se comunica. Quando dá, dou uma escapada e caio cá no terreiro Tira Teima”.

Mãe Sônia relembra momentos de alegria no candomblé. “Sou muito feliz. Eu era uma menina aleijada, fiquei boa. Tive algumas doenças, fiquei boa, graças ao meu bom Deus, aos meus Orixás. Sim, vou ao médico me cuidar, confiando em Deus e neles. Criei meus filhos aqui, tenho 16 netos, 14 bisnetos e minhas filhas todas nasceram neste beco aqui”.

Rosana Silva

Jornalista, correspondente de Pernambués/Cabula em Salvador, BA, desde 2020. Tem trabalhado em produções voltadas para arte, cultura e comunicação. Adora um cafezinho com cuscuz, um bom solo de violão e a luminosidade da cidade do São Salvador da Bahia.

Salvador/BA

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