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Transporte público lotado e uso incorreto das máscaras preocupa trabalhadores nas periferias

Com ônibus e trens cheios, moradores temem situação com a pandemia da Covid-19; semana de megarrodízio agravou situação, dizem moradores

A operadora de telemarketing Ibenê de Souza Dias Alves, 49, mora em Guaianases, na zona leste de São Paulo, e trabalha na Lapa, zona oeste, a mais de duas horas de sua casa. A pandemia do novo coronavírus não mudou essa rotina, apesar das medidas adotadas pelo governo estadual para evitar a proliferação da doença. O trabalho seguiu normal. 

O receio por não fazer o isolamento social a preocupa duplamente, pois vive com o marido de 75 anos. Ele sofre hipertensão e faz parte do grupo de risco da Covid-19.

Desde abril, ela enfrenta conduções mais cheias que o habitual e divide espaço com passageiros nos coletivos que não fazem o uso da máscara de proteção corretamente, obrigatório por decreto desde 7 de maio em todo espaço público, incluindo transporte coletivo e por aplicativos.

“Vi pessoas sem máscara principalmente na linha 7-rubi, no sentido Francisco Morato. Havia seguranças no vagão, fui falar com eles, mostrei quem era e até tirei foto. Eles [seguranças] não fizeram nada. Só ficaram olhando pra minha cara como se a louca fosse eu”, comenta Ibenê.

Ela afirma ter visto passageiros com as máscaras no queixo, mexendo no celular e se alimentando dentro dos vagões. A operadora de telemarketing diz fazer sua parte usando máscara corretamente, passando álcool em gel, mas o medo de contaminação existe. “Tem dia que ônibus está bem cheio e aí o isolamento acaba indo por água abaixo”, comenta ela,

“Tomo cuidado até mesmo onde coloco a mão no ônibus, não sei quem colocou a mão antes, quando chego em casa evito tocar muito no meu esposo também”, revela Ibenê.

Usar máscara no transporte público se tornou obrigatório desde 7 de maioLéu Britto/Agência Mural

DOIS EXTREMOS

Para Priscila Moreira Lima,20, que mora no Jd. Guanabara, em Cidade Dutra, distrito da zona sul da capital, a insegurança foi um ponto que a marcou. Ela trabalha a cerca de 1h20 de casa, como recepcionista em Moema. No início de março, viveu dias com o transporte público vazio e foi nesse período que passou por um assalto dentro do ônibus.

“Tinha no máximo cinco pessoas no ônibus e eu estava na última porta. Acabei sendo assaltada, a pessoa me agarrou, pegou a minha bolsa e não tive reação nenhuma porque estava longe do cobrador”, lamenta Priscila.

Se a higienização do ônibus é um ponto positivo para o combate à disseminação da Covid-19, para Priscila e  outros passageiros, a limpeza também trouxe transtornos. 

Ao embarcar em um veículo equipado com ar-condicionado não houve tempo suficiente para que ele secasse e os passageiros molharam as roupas ao sentar nos bancos. “Eu mesma limpei o banco com a manga da minha blusa e estava um cheiro muito forte de cândida”, lembra ela.

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Na última semana, Priscila começou a perceber novamente o aumento de pessoas nos ônibus e trânsito mais congestionado na volta para casa.

“Comecei a trabalhar no laboratório no dia 16 de março e, de lá pra cá, essa a semana passada foi a primeira que eu vim em pé. Então na parte da tarde eu percebi um grande aumento no número de pessoas no transporte”, comenta.

A percepção veio na semana em que o prefeito, Bruno Covas (PSDB), implementou um novo esquema de rodízio para carros, intercalando placas pares e ímpares. O esquema começou no dia 11 de maio.

Entretanto, no último domingo (17), Covas voltou atrás e a cidade retomou o rodízio tradicional a partir da segunda (18), apenas nos horários de pico. De acordo com o prefeito, o megarrodízio não surtiu efeito no índice de isolamento da cidade, que se manteve abaixo do esperado.

Mesmo com a volta no rodízio normal, Priscila observa que o ônibus ainda está cheio. “Melhorou, mas não muito. Estou indo sentada, mas tem bastante gente em pé”.

Ingrid relata problema no ônibus indo a Barueri, onde trabalhaArquivo Pessoal

Quem também percebeu aumento no movimento nas últimas semanas foi Ingrid Rodrigues, 23, que reside em Osasco e trabalha em Alphaville, na cidade de Barueri, na Grande São Paulo.

“Como eu trabalho em um local com muitas empresas, um centro comercial bem grande, já está formando trânsito para ir embora. Acredito que as empresas estão voltando a trabalhar e os ônibus estão superlotados, alguns não têm álcool em gel e outros têm”, explica ela

A obrigatoriedade ao uso da máscara tem sido respeitada pelos fiscais e motoristas. “Aconteceu uma situação de um moço que quis entrar sem a máscara ele foi barrado”, ressalta Ingrid.

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BOM EXEMPLO

A secretária Wadila de Alencar Silva, 28, que trabalha em uma clínica de dermatologia e cirurgia plástica no Itaim Bibi e mora no Jd. Monte Kemel, na vila Sônia, zona oeste de São Paulo, voltou a trabalhar na última semana de abril e tem de ir ao emprego todos os dias. 

No entanto, ela consegue evitar as aglomerações no transporte público. A empresa optou por pagar transporte por aplicativo para os funcionários.

Sem ter que encarar as aglomerações, Wadila se sente mais segura e aproveitou para combinar de voltar com motoristas de aplicativo de sua região. “Eu peguei uma corrida e por coincidência a motorista mora uma rua acima da minha. Aproveitei e combinei dela vir me trazer e buscar todos os dias. Quando ela não pode, uma vizinha que tem carro me leva ao trabalho”, lembra Wadila.

Se a taxa de isolamento em São Paulo for mantida inferior a 50% é remota a possibilidade de afrouxamento das regras em relação à quarentena e é possível a adoção do lockdown, que é o bloqueio total da circulação na cidade.

Giacomo Vicenzo

Jornalista, correspondente da Cidade Tiradentes desde 2018. Acredita no jornalismo como ferramenta de transformação social. Iniciou sua carreira profissional no Datafolha, já publicou no UOL TAB e Revista Galileu. Gosta de contar e ouvir boas histórias. Adora seus gatos de estimação e não consegue viver sem senso de humor.

Cidade Tiradentes, São Paulo

Ana Beatriz Felicio

Jornalista e correspondente de Carapicuíba desde 2018. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.

Carapicuíba

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